Sábado, Outubro 03, 2009

o rio de janeiro continua sendo

Ainda no assunto "olimpíadas no rio", Barcelona é um exemplo a ser seguido. Remodelação total da cidade, recuperação da autoestima e do potencial econômico da cidade. Há quem diga que Barcelona só terminou de pagar suas dívidas contraídas para realizar os jogos de 92, em 2007. Contra estes, lembro que o financiamento de um mísero apartamento na Consolação toma 20 anos de pagamentos. Não tenho notícias de alguém que ache isso um mau negócio. Já sei, já sei. Vão dizer que as olimpíadas não são apartamentos na Consolação. Vao dizer que apartamento na Consolação não é tão mísero. Vão dizer que todo mundo precisa morar em algum lugar, mas nem todo mundo precisa de uma olimpíada. Ok, aceito, mas do jeito que tava indo a coisa, sem um projeto desse porte, o Rio de Janeiro corria sério risco de naufragar em sua maravilhosa decadência.

o novo Brasil

Tenho lido muitas opiniões contrárias à realização dos jogos olímpicos no Rio. Essencialmente, a crítica se concentra no mau uso do dinheiro público. Ora, ora, sem as olimpíadas, esse dinheiro simplesmente não existiria. Não temos 50 bilhões de reais para investir no Rio de Janeiro. Se tivéssemos, já teríamos investido. Ou alguém acha que o caos carioca é uma obra orgulhosa do estado? Pode até ser obra, mas não orgulhosa. A ampliação do metrô, a maior reurbanização das favelas, tudo isso será feito para as olimpíadas, mas não sumirá depois que a pira for apagada. O legado dos jogos é bem maior do que os próprios jogos.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Redes sociais

Li na Bravo uma crítica negativa contra Mallu Magalhães. As críticas às coisas que eu gosto são sempre as mesmas: "isso é pop demais", "é um engodo", "coisa de imbecil". São sempre os frankfurtianos tentando cuspir na minha pipoca. Vejam: não se trata de dizer o que eu devo gostar - há muito os frankfurtianos abandonaram essa prática - trata-se, isso é bem mais chato, de dizer que o meu gosto se afina com a porcaria. Isso elimina a necessidade de presença do crítico. É como se a produção cultural tivesse recebido uma crítica futura, pré-datada. Crítica sempre negativa. Não importa o produto, se foi o pop que fez, é ilegítimo, é imoral, é capitalista, é fake. Tchubaruba para todos eles.

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Nova vida, nova morte

A novela que chega ao fim sexta-feira tem apresentado o mesmo nível de sedução de todas as novelas da Globo: começa meia boca, vai mudando, vai conquistando e, no fim, todo mundo tá assistindo. Particularmente, prefiro as tramas de João Emanuel Carneiro, já que são bem mais movimentadas e melhor construídas. Contudo, meu comentário aqui não é sobre novela, mas sobre a máquina semântica que é a Globo. Logo após o capítulo de hoje de Caminho das Índias, começará o capítulo final de Com a Minha nas Índias, paródia do Casseta & Planeta. A rede Globo reune o original e a cópia, o verdadeiro e o simulado. Entendeu cedo que não adianta expulsar o outro. Melhor, muito melhor, é tomar o outro como parte de si e fazer com que ele trabalhe como um ego a serviço do id. A característica ajuda a explicar a diferença entre Globo e Record. Por enquanto - e digo isso sem nenhuma expectativa do contrário - a Record não é uma anti-globo. Assim, a guerra entre as duas emissoras tem para mim o impacto da briga entre Robson Caetano e sua esposa. Isso porque a Record tem copiado a Globo colocando-se fora da Globo. Faria melhor - e gastaria menos - se assumisse sua vocação de espelho, de superfície refletiva do que passa por ela. Suas novelas querem desesperadamente se parecer com as da Globo, por isso não se parecem com nada. Meu conselho para a emissora - e Deus sabe como a direção da rede Record acompanha religiosamente este blog - é que se afastem da rival, antes que a Globo os engula, criando a alegoria fatal de uma janela que é dona de todas as paisagens.

Sábado, Setembro 05, 2009

Enquanto se perdem os fatos

Talvez seja o caso - não sei, teria que ver - de fecharmos o país por uns dias. Primeiro a gente fecha as janelas; depois, coloca inseticida em todo o Brasil. Voltaremos na semana que vem. É assim que a gente faz quando a coisa tá braba e agora a coisa tá muito braba. Contudo, estou, feliz, a caminho da cidade da amplificação.

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

ELLE

"Estou do lado dele e de Sarney. Essa Casa não pode se agachar àquilo que a mídia deseja. Ela não conseguirá retirar o presidente Sarney desta cadeira." A frase é de Fernando Collor. O "dele" , a que o ex-presidente se refere, é Renan Calheiros. O agora senador pelo estado de Alagoas não gosta da mídia. Sempre que alguém acusa a mídia de alguma coisa - de qualquer coisa - é porque não gosta da democracia. Quanto a mim, não acho que Sarney deva ir preso. A decisão de privar alguém de liberdade cabe à justiça de um país, e a mais ninguém. Contudo, há uma outra questão , de ordem simbólica, que cabe justamente à imprensa. Ou à mídia, como dizem Collor e o zelador do meu prédio. Vale sempre a pena repetir: o direito dos acusados pela imprensa é se defenderem em juízo. O direito da imprensa é dizer qualquer coisa que lhe dê na telha. Isso é democracia. O julgamento social ocorre - e é assim que deve ser - antes do julgamento jurídico. Esse é o preço de ser um político. Nesse sentido, acho sim que Sarney deve renunciar imediatamente à presidência do Senado. A mulher de César está na lama. E arrastou o Senado com ela.

Domingo, Agosto 02, 2009

rubinho

Muita gente (leia-se ninguém) comenta que eu fico muito tempo sem postar aqui. É verdade. Espero os assuntos surgirem. Não comento sobre o que me incomoda muito. Vou falar no Sarney, em certo momento. E no Obama. E no Inter. Tudo ao meu tempo. Se querem qualidade, procurem o blog da Lucia Hippólito. Aqui só tem palpite furado.

contexto tecnológico

Quer vir treinar o Porto?

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Ronaldo, Ronaldo

Fala-se muito em Ronaldo para a decisão de hoje. Em 1998, Ronaldo perdeu uma decisão. 3x0. Placar adequado para a noite de hoje.

O dia D

É chegado o momento, disse o colorado, de falar de façanhas e vitórias, de batalhas e de glórias. É nesse clima de imaginário de Idade Média é que o Internacional terá que jogar. Falam na capacidade decisiva de Ronaldo. Lembro de 1998. Tudo na vida falha. Futebol é - atirem suas pedras, retranqueiros - acaso.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Ainda isso

Quando o Grêmio entrar em campo, quinta-feira, em Porto Alegre, para tentar a sorte contra o Cruzeiro, estarei sentado no sofá, torcendo pela desclassificação do time gaúcho. Normal, sou colorado. Mas, mais que isso. Tomei o caminho dos recalques. Certas declarações de membros do Grêmio me levaram a esse extremo. Vejamos: "O jogador foi orientado. Ele, por si só, não faria isso. Está acostumado." A frase é do técnico Paulo Autuori. Pergunto: 1- está acostumado a que? A ser chamado de macaco? 2- por si só ele não denunciaria? é obtuso para tanto? E não para por aí. Veja o que diz Souza sobre o episódio: "Futebol é para homem, não para menininha". Estou ansioso para este jogo. A imortalidade também tem seus limites.

Domingo, Junho 28, 2009

O erro básico

Foi o juiz, não eu. O juiz errou ao não dar o gol para o Kaká. Se fosse marcado gol, teria chegado mais perto da minha previsão. Enfim, nenhuma colher, errei feio. A bem da verdade, acertei que Luis Fabiano faria um gol. Mas ele fez dois. Robinho não conseguiu fazer nada no jogo, nem na copa. E Nilmar? O Dunga retirou o Nilmar do Internacional para isso? Parabéns, seleção. Parabéns, Dunga. O Corinthians te agradece.

Tempo de despertar


"In the jungle, the mighty jungle, the lion sleeps tonight." Pois é o que o Internacional fez durante todo o mês de junho. Quarta-feira, dia primeiro de julho, é hora de acordar. Fazer quatro a um no Corinthians e vingar 2005. Caso contrário, fora Tite. E Índio. E Álvaro. E Danilo Silva. E Magrão. Mas vejam, sou um torcedor, sou passional. Se o Internacional fizer a façanha - e eu realmente acredito que faça - vou cobrir o mesmo Índio, o mesmo Álvaro, o mesmo Danilo Silva e o mesmo Magrão de elogios e comparações descabidas com os jogadores da copa de 1970. Hoje tem jogo contra o Coritiba. 2X1 é o meu palpite. Antes, é claro, a final da inútil Copa das Confederações. Uma copa para a FIFA verificar se os extintores de incêndio estão com a manutenção em dia nos estádios selecionados para a Copa do Mundo do ano que vem. Brasil ganhará fácil, fácil. Gols de Luís Fabiano, Robinho e Kaká. Nilmar entrará no segundo tempo, para o Dunga poder dizer que não desfalcou o Internacional por acaso. Aliás, muito me admira que a direção colorada não tenha chiado. Nós aqui sem o Nilmar. E o guri lá, no banco. É brincadeira. E já que estamos falando de Copa das Confederações, não posso deixar de manifestar minha profunda solidariedade ao idioma falado por Joel Santana, uma espécie de dialeto da língua inglesa. Aproveito para reclamar - meu prazer supremo - daquele barulho chato de abelha de desenho animado que fazem as vuvuzelas africanas. Haja saco.

Mais uma do diploma

Os senadores José Agripino Maia (RN), Ideli Salvatti (PT/SC) e Arthur Virgílio, do PSDB de Manaus, são favoráveis à emenda constitucional que provocaria a volta da exigência do diploma O deputado federal Eudes Xavier, do PT, também é a favor. Não os conheço, mas acredito que sejam pessoas bacanas. "Se essa esdrúxula emenda prosperasse nas duas Casas do Congresso, seria declarada inconstitucional no Supremo. Acenar com isso é vender ilusão. A comparação feita pelo senador com a questão da verticalização é uma estupidez. Naquele caso, a Carta estava redigida de modo a induzir a prática. Com a mudança da redação, ela caiu. Nesse caso, o diploma só poderia voltar a ser exigido caso se mudasse ou se eliminasse o inciso IV do Parágrafo 5º. E, bingo!, nessa cláusula, nem uma emenda pode mexer." As palavras são do Reinaldo Azevedo. Não, ele não é meu parente. Sim, ele está certo. Todo mundo que concorda comigo está correto. É simples assim.

Feitos relevantes

Fui procurar a história do senador Antonio Valadares. É, é, eu tô preso no tema da exigência do diploma. Sim, sim, eu sou contra a exigência do diploma. Vamos em frente. Descobri que o senador fez um requerimento de voto de Louvor em comemoração aos 25 anos de atividades Episcopais de Dom José Palmeira Lessa, Arcebispo de Aracaju. Não tenho nada contra o Arcebispo de Aracaju, ele também deve ser um cara bacana, pelo contrário, acho que o senador deveria continuar na sua linha de trabalho e abandonar o projeto de emenda para que a exigência de diploma para jornalista volte à tona. Continuei fuçando no site do senador para ver se encontrava alguma coisa que sustentasse meu argumento de que sua proposta é descabida. Como não encontrei, uma só palavra sobre a tal emenda, resolvi fazer humor com outros tópicos de seu site. Veja esse trecho: "Há pessoas que imaginam, Sr. Presidente, que o financiamento público de campanha, o financiamento vindo da sociedade, os recursos sendo arrecadados pela União e transferidos aos candidatos ou partidos políticos, poderia redundar em gastos exorbitantes; que seria uma imoralidade colocar recursos públicos para financiar candidatos. Ora, Sr. Presidente, vejamos alguns dados que dão sustentabilidade e legitimidade a qualquer pretensão de fazer uma reforma política incluindo o financiamento público de campanha como uma das suas prioridades. Por exemplo, quanto a justiça eleitoral, este ano, vai despender, vai gastar, ao realizar as eleições municipais, para fazer a fiscalização dos partidos políticos? Imaginem: 4,4 bilhões de reais. Essa é a previsão orçamentária do Tribunal Superior Eleitoral para fiscalizar os candidatos, para resolver as questões jurídicas que batem às portas do Tribunal, para a aquisição de urnas eletrônicas, para a montagem do sistema eleitoral deste ano: 4,4 bilhões de reais. E aí alguém pode perguntar: quantos partidos políticos, do ponto de vista legal, vão receber, este ano, do Fundo Partidário e dos recursos provenientes das multas eleitorais? Para o gasto de 4,4 bilhões de reais com a Justiça Eleitoral, os partidos políticos vão receber, este ano, 194 milhões de reais. Vejam: o órgão fiscalizador, o órgão que realiza as eleições... Não estou dizendo que está demais para o TSE, estou achando que está de menos para os partidos políticos, porque eles é que constroem a democracia, eles é que, através das lutas que são encetadas nos Estados e Municípios, elegem Prefeitos, Vereadores, Deputados Federais, Senadores, Governadores e até o Presidente da República."

É. Como se não bastasse todos os gastos irregulares do senado, como se não bastasse todo nosso dinheiro mal gasto, o senador quer que paguemos a campanha política. Não basta o fundo partidário atual. O senhor Antonio Valadares é categórico: "Não estou dizendo que está demais para o TSE, estou achando que está de menos para os partidos políticos, porque eles é que constroem a democracia". Ai, ai. Teremos que pagar a campanha inteira. Teremos que dar o dinheiro que vai ser gasto em panfletos para sujar as ruas, que, aliás, serão limpas com o nosso dinheiro. Temos, realmente, muito dinheiro. Vamos pagar a campanha do senhor Paulo Maluf, vamos pagar a campanha do senhor Fernando Collor. É o desejo do senador Antonio Valadares. Ele diz que há pessoas que acham que o financiamento público de campanha daria em gastos exorbitantes. Sou uma dessas pessoas, é de mim que o senador fala, sem saber. Sigo no site. Daqui a pouco tem mais.

Sábado, Junho 27, 2009

Who is bad?

Por causa da morte de Michael Jackson, a internet ficou fora do ar anteontem. As pessoas gostam de se informar por aqui, embora ainda haja quem diga que prefere o cheiro do papel. Não se pode afirmar jornalisticamente que Michael Jackson está morto. É preciso mais. É preciso repetir tautologicamente, esfezianamente, como um mantra: Michael Jackson está morto. É isso que todos estão fazendo. O Nazi, aquele músico corinthiano, disse que Michael Jackson já havia morrido faz tempo. Estaria certo Nazi? Evidente que não. Em que mundo, afinal, Nazi poderia estar com a razão? Não sei. Meu papo agora é Michael Jackson. Olhem pra mim. Sou o William Waack neste momento. O cantor começou sua carreira apresentando-se com os irmãos, mas foi sozinho que se tornou o que nos leva a falar dele hoje. Aliás, a palavra "sozinho" era o que melhor o definia. Entender o que é solidão é indispensável para visualizar a construção do pop na sociedade atual. Quando um músico cresce demais em uma banda, ele precisa sair dela. Dizemos então que ele foi para uma carreira Solo. A carreira solo de Michael Jackson foi mais do que uma carreira, ela foi "a carreira". 75 milhões de discos vendidos; fãs em todos os buracos do planeta; arranjos e danças inconfundíveis. Ele não apenas inseriu seu nome no pop, como também emprestou um rosto ao fenômeno. Nessa troca simbólica, foi alterando fisicamente seu próprio rosto. Era negro, ficou branco. Nasceu homem, morreu andrógino. Sua imagem era profundamente conhecida e disseminada no mundo inteiro, embora fosse inacreditavelmente indescritivel, inefável. Nesta quinta-feira, 25 de junho de 2009, o mundo não perdeu apenas um ídolo, ele perdeu um engenheiro de uma nova sociedade, uma sociedade que, antes dele, tinha uma ideia insuficiente de si mesma e uma ideia medíocre do que é ser artista. Ao mutilar seu corpo em dezenas de cirurgias plásticas; ao montar shows e dançar como nenhum outro cantor jamais dançou, Michael Jackson criou uma categoria especial e jamais atingida: a de rei do pop. Isolado nesse pódio, o cantor ficou esperando até o fim de seus dias que alguém chegasse até ele. Para aumentar as chances de que isso ocorresse, fingiu parar o tempo, travestindo-se de criança. No ano que vem, os jornais vão entrevistar pessoas que duvidam da morte do cantor, tal qual se duvida até hoje da morte de Elvis Presley. É por isso que faço coro e repito sem parar: Michael Jackson está morto. Dizer que ele morreu é mais do que dizer a verdade, é devolver a ele uma prerrogativa que há muito ele mesmo havia roubado de si: a de ser um humano comum, com o direito inalienável de ser o que se é, de sofrer e de morrer sem aviso, em hora imprópria e insatisfeito com o resultado do jogo.

Diploma e inimigos

Tenho feito uma legião de inimigos com minhas opiniões favoráveis à decisao do Supremo, sim, aquela que definiu que não é preciso diploma para ser jornalista. Marcelo Träesel é contra a decisão, Magda Cunha é contra a decisão e Antonio Carlos Valadares também é contra a decisão. Träesel é um bom professor e um cara bacana; Magda Cunha é uma boa diretora e uma mulher bacana. Antonio Carlos Valadares é senador pelo estado de Sergipe, é dele a proposta de uma emenda constitucional que torne, novamente, obrigatória a exigência do diploma. Não conheço o senador, mas presumo que também seja uma pessoa bacana. Tirando isso, os argumentos deles giram em torno de dois pontos: a) a não obrigatoriedade do diploma vai destruir a segurança da imparcialidade do jornalista b) a obrigatoriedade do diploma não feria o direito de expressão. Vejamos: a consideração "a" é uma bobagem e a consideração "b" é outra bobagem. Pronto. Já posso ir embora? Não. Ok. Vamos lá: não sei em que medida uma faculdade de jornalismo fortalece o senso ético de alguém. Não há nada no comportamento ético de um jornalista que não seja derivação do correto comportamento ético de um ser humano de bem, tenha ele qualquer que seja sua profissão. Um sapateiro ético respeita as mesmas regras de um jornalista ou de um médico. Em segundo lugar - e essse item é bem mais amplo - imaginem se, para poder publicar um livro, as pessoas precisassem de um diploma de escritor? Isso atrapalharia frontalmente o desenvolvimento de uma sociedade com liberdade completa de expressão. O que o Supremo fez, derrubando o entendimento de uma lei promulgada no período de ditadura militar, foi retirar uma grave obstrução da liberdade de imprensa. Discordando de mim e concordando com o senador Antonio Carlos Valadares, dias atrás, estudantes da FAMECOS bloquearam parte da avenida Ipiranga para protestarem contra a decisão do STF. Segundo o site do sindicato dos jornalistas gaúchos (http://www.jornalistas-rs.org.br), “Os manifestantes também entregaram à população um panfleto preparado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, que denunciava o golpe orquestrado pelo presidente do STF, Gilmar Mendes. No material, denunciaram que oito ministros definiram o destino de 80 mil jornalistas profissionais diplomados no País, além de prejudicarem uma população de 180 milhões de brasileiros, que podem ficar sem informação qualificada”. Eu me divirto muito com a vida. Voltemos à lucidez:

1- A decisão não foi nenhum golpe do ministro Gilmar Mendes, mas uma decisão legal, amparada pela constituição brasileira que determina que é justamente o Supremo e seus ministros quem deve decidir questões que envolvam algum tipo de violência aos princípios constitucionais. Os oito ministros que definiram o destino de oitenta mil jornalistas fizeram, portanto, justamente o que estão designados a fazer: decidir.

2- Desconsiderando com paciência a imprecisão dos argumentos demonstrados pelo texto do sindicato, o que é mais grave na questão é a crença divulgada de que os brasileiros poderão, a partir de agora, ficarem sem informação qualificada. Ora essa, nenhum editor ou Publisher (como queiram) nesse país deixará de contratar bons profissionais diplomados para suas agências. A decisão do Supremo não proíbe que profissionais diplomados sejam contratados, ela apenas abre espaço para que o mérito esteja na qualidade da redação e no conteúdo de suas matérias e não mais na mera garantia do diploma.

Os coorporativistas que me perdoem. Os sindicatos que me desculpem. Os amantes da regulação que não me atirem pedras, mas realmente é de uma imensa miopia intelectual acreditar no poder supremo da formação universitária em uma área tão pouco técnica e tão artística quanto a do jornalismo. Conheço bem a FAMECOS, concluí meu mestrado lá. É uma faculdade com grandes professores, que tem alimentado o mercado jornalístico do país inteiro. Continuará fazendo isso. A Zero Hora continuará tendo os melhores textos de Claudia Laitano e de David Coimbra, não porque eles tem diplomas, mas porque provam, cotidianamente e perante o leitor que são, de fato, jornalistas.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Racismo normal

Há pessoas que acham que dentro do campo de futebol tudo é permitido. O episódio entre Maxi Lopez e o cruzeirense Elicarlos foi lamentável. Lamentável porque chamar alguém de macaco, seja num playground, seja numa piscina, seja numa repartição pública, seja em um show do Placebo é abominável. Não se pode aceitar este argumento cínico de que a circunstância explica o erro. Se seguirmos por essa linha, desceremos (que beleza de frase, INRI Cristo) "a ladeira da esquizofrenia". Admito que, em um momento de raiva, de extrema explosão emocional se possa perder a elegância e - o que é pior - o respeito pelo Outro. Mas é função da lei prever punições para qualquer um que tropece na norma. A imprensa gaúcha, constrangida, lembra que Maxi Lopez não admite ter usado a palavra Macaco. Darei eu o benefício da dúvida a ele, e está certo que todos o façam. Nosso papel é de acompanhar o processo. O papel do ofendido é seguir com o processo. Quem vai decidir se houve ou não houve injúria racial é a justiça. Espero que o jogador não faça como Alex (ex-jogador do cruzeiro) e Tinga (ex-inter) que preferem achar que isso "é do futebol". Para eles, o meu recado (eles lêem esse blog todos os dias, garanto): nada está acima da lei. Nem o futebol, nem a fama. Nem os argentinos, embora, às vezes, pensem o contrário. Se houve racismo, Lopez precisa ser punido. Se não houve, Elicarlos precisa ser punido. O campo de futebol pode ser uma metáfora da cultura brasileira. O campo de futebol pode ser uma outra dimensão do contrato social. Sim, sim, pode até ser, mas se o jogo ocorre em território nacional, tudo o que nele acontece deve ser compreendido sob o olhar da constituição brasileira.

Domingo, Janeiro 04, 2009

Psicanálise de blog

Um homem descobre que sua face é na verdade a face de seu irmão. Desesperado, ele corre até o quarto dos fundos, onde o tal irmão mora. Ao chegar lá, depara-se com a imagem do rosto da mãe no lugar daquilo que agora deveria ser inteiramente seu. Sem saber o que fazer, joga-se em um sofá e dorme. Durante algumas horas nenhum pesadelo é real. Dentro do sonho, a cabeça de sua mãe está em um forno, cercado de cebolas. O homem lembra que sonhou isso aos seis anos, cinco antes da mãe morrer. Quando finalmente acorda, está tudo no lugar. Ele passa décadas tentando entender o que significa a cabeça da mãe em uma assadeira. A psicanálise não vai dizer quem esse homem é, nem tampouco colocar legenda nessas fotos. A psicanálise vai acender o fogo. A psicanálise vai permitir que a mãe queime e suma. Os mortos, não há dúvida, são a vida dos vivos.

O ano começa, a fila anda

É claro que os dois novos cd´s de Zeca Baleiro, lançados no fim do ano que - aleluia, glória, Deus - acabou, não são tão bons quanto o Líricas, de 2001, mas servem para ficar em dia com a prosa do cara. No momento tenho ouvido isso e Mallu Magalhães. 2009 começou com a reforma ortográfica. Toda vez que aparece o Bechara no jornal Nacional, tiro um chochilo. A Folha já está editando com a nova grafia. Zero Hora e Veja também. Agora não tem volta. Aliás, falando em voltar, Gloria Perez se apresenta com mais uma novela sobre os outros mundos dentro do nosso. Já teve o islã, agora vai ter os indianos. O horror, o horror. Nunca mais verei Houellebecq nas mãos da Patricia Pillar. Nada tem volta. Tudo é consequencia. No momento, o Asa de Águia canta no Altas Horas. A chamada do programa garante: VIDA INTELIGENTE NA MADRUGADA. Quando a gente desliga a televisão, ela vira um espelho. Só quando desliga.

Sábado, Janeiro 03, 2009

Ano novo, postagem nova

Sim. Faz quase um ano. Não. Eu não tinha morrido. Agora terá postagem toda semana. Como uma espécie de podcast, só que escrito. Um podcast somente escrito é um blog, dirá o Melo. Confiem no Melo. Este é um blog e continuará sendo. Apesar disso, ainda sonho com o podcast Mauricio Azevedo, patrocinio nextel - igual ao do Mainardi. Eta vida. Sem férias dessa vez. Piadinha de começo de ano: Deus é Brasileiro, eu é que não sou.

Domingo, Março 16, 2008


Para festejar o décimo quinto aniversário, o Manhattan Connection teve uma edição especial, gravada em São Paulo. Como não sou importante, não fui convidado. Bruno Germer me acha importante. Ele, sim, me convidou para seu aniversário, na mesma noite. Neste domingo, vou assistir ao resultado da gravação na minha poltrona verde. Nada de novo. Faço isso há mais de um ano. Quando completarem 20 anos de programa, espero já fazer parte do elenco. Posso ficar no lugar do Caio Blinder. Gravarei minhas participações num estúdio bolorento, na Salgado Filho. Sou barato de contratar. Fácil, fácil.

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

São Paulo: invísvel e sem segredos

Uma cidade é uma idéia, um conceito. Moro em Porto Alegre há 17 anos. Conheço seus detalhes. Mario Quintana dizia que a cidade é como uma mulher: cheia de segredos que não poderemos jamais desvendar. Mentira dele. Há mulheres comuns. Porto Alegre é assim. Rameira de nascimento. Se Porto Alegre fosse uma mulher, seria uma leitora de Chico Buarque, igual a todas na vida. Sacuda um mapa, cairão mil porto alegres. São Paulo, não. São Paulo é uma versão de si mesma. Eis minha porção retirante. Anote: todo paranaense é, antes de tudo, um retirante. Hoje faz 454 anos que alguma coisa deu certo no Brasil. A vaidade paulistana é justificada, afinal, o avesso do avesso do avesso do avesso é o direito.

Domingo, Dezembro 23, 2007

2007: o ano do pensamento mágico



Cedo ou tarde é preciso abandonar os mortos


Deixá-los ir.

Soltar-se deles na água.


Deixar que virem uma fotografia



Sempre que o ano termina as pessoas começam a enfileirar suas promessas. Se fossem sensatas (veja que ambição minha) não prometeriam nada. Nem emagrecer. Nem ir ao teatro. Nem tratar bem os vizinhos. A vida não dá a mínima para isso. 2007 se despede de você agora como se fosse apenas mais um ano. Contudo, quando o reveillon acontecer, seria bom que você lembrasse das pessoas que no ano passado acreditaram no futuro. Falo daquelas pessoas que ficarão em 2007 para sempre; daquelas que estão presas em uma jaula chamada morte. Nenhuma alegria, nenhum misticismo. Um silêncio absoluto onde estão, uma total falta de CNN. Elas encontraram a morte numa pista escorregadia; numa queda de marquise; numa metástase cancerígena ou até mesmo em uma falha cardíaca não-específica. Neste natal, leitor, não faça promessas que talvez você não possa cumprir. Estar por aqui no ano que vem é uma delas.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

CPMF

Sempre que um tema esfria, me interessa. Chego propositalmente atrasado em todos os assuntos. Quando as torres gêmeas caíram, só abordei o tema três semanas depois. Sou uma lesma da informação. Procure a CNN. Faça o que presta. Quanto a mim, nada disso. Passo os dias olhando filmes leves do Woody Allen. Já vi Dirigindo no Escuro nove vezes na última semana. Também assisto Márcia e Mothern. Agora que já me confessei: a cpmf não deveria ter caído. Toda vez que o Estado perde arrecadação, ele ganha um argumento para investir mal o dinheiro que restou. Nas próximas eleições, votarei em quem prometer aumentar a carga tributária.

Domingo, Outubro 21, 2007

Pega um. Pega Geral

O pensador Jean Baudrillard morreu em março deste ano, mas suas idéias continuam refletindo a realidade de nosso tempo ou – como preferirem – de nossa miséria. O filme Tropa de Elite segue a receita proposta por Baudrillard em seu livro Esquecer Foucault. O diretor José Padilha levou para a tela uma história que nos faz esquecer as interpretações foucalnianas para um ambiente tão hostil como o brasileiro.
Na terça-feira, dia 09, fui assistir o filme num cinema da Paulista. A platéia era formada por profissionais liberais e casais de namorados animados. Todos queriam ver o filme. Em todas as rodas, afinal, é dele que se fala. Há quem já o tenha visto em dvd, numa das milhões de cópias piratas que invadiram o país. Há os que vão esperar – seja por preguiça ou profunda incapacidade financeira – para ver o filme na televisão. Contudo, todos eles – cults e desligados – verão o filme. Cidade de Deus foi a entrada. Tropa de Elite é o prato principal. Não se trata de uma hierarquização apressada, mas da constatação elementar de que o primeiro conversa com o espectador, já o segundo... o insulta. É por isso que ao meu lado tinha tantos. Todos queriam ser insultados pela ofensa do ano, porque nada instala mais um homem no presente do que a humilhação.
No começo, muitos risos. A cada ato de corrupção da polícia, uma gargalhada. Tudo bem leve. Parecíamos estar na sala ao lado, onde era exibido a mais recente investida de Jorge Furtado. De repente, um tiro na cabeça de uma estudante. Ninguém riu. Não tem graça agora. É cinema, é ficção. Sim, sim. Mas rir da morte de uma estudante é escárnio. Estudante não pode morrer. A morte de uma estudante denuncia o caos da sociedade brasileira; portanto, ninguém riu.
Quanto vale uma vida? Depende da vida, ué. Se for a de uma estudante de classe média, vale muito. A elite sempre grita mais alto. A elite sempre chora mais forte. Não vou falar disso. Deixo para o Luciano Huck. Volto para o filme:
Em Cidade de Deus Zé Pequeno recorreu ao estupro para realizar suas necessidades biológicas. Comeu uma negra favelada. À força. Não conseguiu convencê-la de que era um bom partido. Não tinha língua. Não tinha charme. Não tinha nada. Apontou-lhe uma arma e fez seu monolítico serviço.
Já Matias faz parte da elite. Da tropa. Da ordem. Do controle. Enquanto Zé pequeno é preto, Matias é negro. Enquanto Zé pequeno estupra faveladas, Matias namora uma jovem branca, de classe média. A força de um e a lei do outro.
Quando finalmente desiste da Constituição e estoura os miolos de um criminoso, a luz enche a sala. Fez-se a evidencia, o insight social, a epifania definitiva da situação brasileira. Matias nos mostrou a verdade. Zé pequeno morreu com ela.
Enquanto cruzam a saída do cinema e alcançam o cenário urbano da Paulista, os espectadores não riem. Estão absortos em algum mundo interno. Estão, sei disso, tentando abafar a voz do capitão Nascimento que recomenda: “Pede para sair, classe média”. Tentamos renovar a fé num país cheio de Renans, Mônicas e Delúbios. Tentamos seguir andando. Tentamos olhar para frente, atravessar as ruas. Chegar lá. Contudo, é preciso admitir, estamos quase saindo. Quase desistindo. Quase deixando a tropa.

Domingo, Setembro 23, 2007

A Sardinha da América Latina


Na semana que passou, Diogo Mainardi esteve na PUCRS. Veio porque Juremir Machado pediu. É assim entre amigos. Ontem fui a uma festa universitária. Fui porque Bruno Germer pediu. Guardadas as devidas proporções, é a mesma coisa. A viagem aborreceu Mainardi. A festa me aborreceu. Na segunda feira, alguns estudantes de História chamaram Mainardi de Traíra da América Latina. Neste sábado, o cronista revidou. Em sua coluna semanal na Revista Veja, ele lembrou que a revolução farroupilha foi a maior derrota do povo gaúcho. Os gaúchos detestam que falem mal do 20 de setembro. Não sou gaúcho. Não sei o que há de tão revolucionário nessa guerra. Massacre dos negros. Vitória dos impérios. Revolta contra os altos impostos. Para mim, parece muito corriqueiro, banal mesmo. Juremir Machado se diz o lambari da América Latina. Ora, se Juremir é um Lambari, sou uma sardinha. Sim, a sardinha da América Latina. É uma questão de hierarquia estética. Para você, leitor, sobrou o posto de crustáceo ou molusco. Lula, talvez. Você aceita ser uma lula?

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Para Lula, com horror, Maurício



Estou ouvindo a gravação dos últimos minutos do avião da TAM. Você já sabe o que houve, Lula. A Folha de São Paulo publicou a transcrição que agora repasso aqui. Leia com atenção. Pronuncia-se HOT. E não ROTH, senhor presidente.

Hot 1: Está ok? Tudo certo?

Hot 1: Eu acabei de informar.

Hot 2: Eu não ouvi, desculpe, ela falando.

Hot 1: Mas ela ouviu. Congonhas.

Hot 2: É Congonhas? Que bom. Ela deve ter ouvido, obrigado.

Hot 1: Lembre-se que temos apenas um reverso.

Hot 2: Sim, nós só temos o esquerdo.

Hot 1: Boa tarde.

Hot 2: Boa tarde

Hot 1: Torre de São Paulo, aqui é TAM 3054.

Torre: TAM 3054 reduza a velocidade mínima para aproximação. O vento é norte 106.

Hot 1: Eu vou reportar quando estiver ok.

Torre: Autorizado.

Hot 1: Aterrissando sem azul. Pista de chegada à vista, pousando.

Hot 1: TAM em aproximação final a duas milhas de distância. Poderia confirmar condições?

Torre: Está molhada e ainda escorregadia. Eu reportarei quando a 35 estiver liberada. 3054 na final.

Torre: TAM 3054. 35 à esquerda. Autorizado para pousar. A pista está molhada e escorregadia. O vento é 330 a 8 nós.

Hot 1: 330 a 8, é o vento.

Torre: Checado, 3054, 3054 Roger. O pouso está liberado. O pouso está liberado.

FWC: Inibido a descida para mim. Tira o sinal.

Hot 2: Um ponto agora. Ok?

Hot 1: Ok.FWC: Ok. Retardar, retardar.

Hot 1: Reverso 1 apenas. Spoilers nada.

Hot 2: Olhe isso! Desacelera! Desacelera!

Hot 1: Eu não consigo, eu não consigo. Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!

Hot 2: Vai! Vai! Vira! Vira! Vira!

Torre: Ah, não.

O diálogo que o senhor acaba de ler (embora isso me pareça algo fantasioso) antecede o momento em que 199 pessoas perderam a vida. Não numa U.T.I. Não deitadas de barriga para cima, em quartos climatizados e verdes. Morreram longe de casa. Esmagados, carbonizados, retirados da humanidade óbvia de todos nós. O air bus estava cheio de defeitos operacionais. Quem realizou a manutenção da aeronavel? A TAM. Quem fiscaliza a empresa? A ANAC. Quem nomeou os diretores da ANAC? Lula. Não é preciso procurar muito. Em cada tragédia brasileira há um dedo de Lula. Já identifiquei nove. A pista era curta. Quem liberou? A INFRAERO. Governo federal. Lula. Lula. Lula. Não conseguimos derrubar o presidente. Mas ele já derrubou 199 de uma vez só.



Sexta-feira, Julho 20, 2007

TAM



Deixe-me ver se entendi: a TAM colocou um air bus lotado, com o reversor desligado, para posar numa pista curta e molhada. Foi isso? A ANAC permitiu? A INFRAERO deixou? O Ministério da Defesa consentiu? É. São as parcerias público-privadas. O pior da iniciativa privada com o pior do Estado. Os mais de 180 passageiros do vôo morreram da maneira mais violenta e cruel que se possa imaginar. Morreram sozinhos. Morreram gritando. Morreram acreditando que Deus não estava ali. Quando pousaram, pensaram que o vôo havia terminado. Mas recomeçou. Um curto vôo para a morte num prédio. É claro que eu conhecia as pessoas que estavam naquele vôo. Eram-me totalmente familiares. Haviam feito o check in. Haviam passado pela tijoleta número 39 do Aeroporto Salgado Filho. Haviam retirado a carteira para passar no detector de metais. Nunca na história desse país um acidente aéreo foi tão violento. Nunca na história desse país um presidente foi tão insuficiente.

Sexta-feira, Junho 15, 2007

O Ateísmo Cristão de Godard

Na época do Sarney, o filme Je vous salue, Marie (sim, vai ter que engolir Godard, vai ajudá-lo na formação mental do desespero) foi censurado e acabou não sendo exibido no Brasil. Agora chega às lojas em DVD. Aproveito a ocasião para voltar a postar nesse blog abandonado. E tome análise. E sai daqui, Roberto Carlos. Censura, só a de fotos pessoais na câmera digital. Ou de testemunhos pecaminosos no Orkut. Leiam sem dormir:

A morte é a representação máxima da irreversibilidade, a experiência mais democrática entre os homens. Com ela não se pode negociar; e contra ela não há revide suficiente. A extinção é uma evidência cruel que cedo ou tarde todos os seres humanos se vêem forçados a encarar.
Essa consciência é a gênese do pensamento filosófico.
Contudo, se a humanidade tem consciência de sua terminalidade, individualmente os homens desconhecem o momento em que essa questão foi proposta para eles. Sabem-se mortais; mas desconhecem o momento em que essa realidade caiu sobre eles. Passarão a vida tentando vencer esse adversário invencível. Andarão de um lado para o outro no tabuleiro tencionando encontrar a porta que os leve para um universo sem morte. Sem finitude. Nessa empreitada tentarão a arte, a religião e a ciência.
A arte oferecerá uma possibilidade de perpetuação memorial. O Homem poderá ser eterno enquanto autor de uma obra relevante. Apesar disso, esse paliativo existencial não satisfará ao homem. Os Homens sonham com uma continuidade consciente e permanente, que atravesse gerações sem o risco do término por desgaste ou doença. Vão tentar, então, a religião.
Mais exigente que qualquer arte, uma crença exige a aceitação de um pacto íntimo entre o Ente particular e o Supremo. Nas religiões monoteístas a vida eterna é garantida no futuro imediatamente posterior à morte. São sistemas complexos que trabalham essencialmente com o conceito de vida eterna consciente, ego perpetualizado para usufruir todas as maravilhas do mundo futuro. Mas é preciso confiar nisso; seguir preceitos morais, éticos. Sacrificar a existência atual em nome de prazeres futuros. Temorosos por definição, os Homens procuram a ciência para se imortalizarem.
Ocorre que os tímidos avanços biológicos nos deram a dimensão da impossibilidade da manutenção permanente da vida. Frustrada, a humanidade já não sonha com o avanço médico definitivo. Sabe agora que as pesquisas na área genética procuram melhorar a qualidade de vida; sem contudo ampliá-la. A experiência finalmente fracassa. A Humanidade aceita sua condição de mortal. Aparentemente é um processo encerrado. Mas basta aproximar um pouco mais a lupa eficiente do conhecimento para percebermos que esse processo é interminável. A luta do Homem para fugir de sua condição inalienável é permanente, e gera campos inesgotáveis.
Para Darwin, a única maneira de vencer a morte é através da paternidade. Perpetuar-se é transmitir metade de nossa carga genética a um novo ser. Decidir pela paternidade é em princípio uma inclinação de todos os homens. Mas através da cultura esse impulso foi reduzido, relativizado e, em alguns casos, desativado. Atualmente há o entendimento social de que gerar um filho é uma expressão que, para os Homens, tem conotações diversas. Não bastaria apenas fazer surgir biologicamente a vida; seria preciso também cumprir as diferenças funções, os inúmeros imperativos sociais que identificam uma criatura como sendo da espécie humana. Essa questão de onde termina o indivíduo da espécie e onde começa o indivíduo da cultura é a chave para a resposta: existe uma maneira de derrotar a morte?
Um problema dessa magnitude é absolutamente bem vindo para cineastas do porte de Jean-Luc Godard. Por isso, em Je vous Salue, Marie o cineasta aborda a questão partindo de duas histórias paralelas. Na primeira, Marie é uma jovem jogadora de basquete que trabalha como frentista no posto de seu pai; José (Thierry Rode) é taxista. Ao saber da gravidez de Marie, tem certeza de que foi traído. Para evitar que o casal se desfaça, o anjo Gabriel (Philippe Lacoeste) anuncia que a gravidez é a concretude dos planos de Deus para a humanidade.
Na segunda história, um professor de ciência natural tem um caso com uma de suas alunas. Simples assim. Parodiando o evangelho cristão, Godard reescreve a história da concepção de Jesus Cristo. O que, evidentemente, causou a ele imensos problemas. Mas, afinal o que pretendia o cineasta com uma história dessas? Provocar polêmica? Destruir a crença dos católicos? Ridicularizar o principal dogma do catolicismo? Evidente que não. Para um cineasta experiente, destruir, reduzir, subestimar e são verbos inconseqüentes, sem nenhum significado real. O que Godard procurava era outra coisa. Ele utilizou a narrativa bíblica para entender o que é a humanidade hoje. E, a partir dessa resposta, compreender o que significa ser mortal. A questão da imortalidade surge no momento em que o autor se vê pressionado por sua mulher à dar-lhe um filho. Para Michel Marie o próprio filme é a resposta de Godard a essa insistência. Para ele, o sonho íntimo de Godard era uma mulher que não necessitasse de um homem para realizar sua vocação maternal. Interpretações psicanalíticas sobre a vida dos cineastas à parte, Virgem Maria disse o "sim". Mas foi o próprio Espírito Santo quem a concebeu. José não fez a opção de dar-lhe um filho. Sua opção era somente abandoná-la ou apoiá-la, numa coadjuvância que exigiu dele desprendimento, coragem e generosidade. Em Je vous salue, Marie, fica claro que a história não se repetirá jamais. Primeiro porque não existem mais Marias. As mulheres, historicamente passivas, hoje rejeitam com veemência qualquer pedido de renúncia. Não aceitam serem a vontade de outro, mesmo que esse outro seja a imagem de Deus. Não há mais licença para o sacrifício.
A segunda razão está na conduta de José. O bíblico acredita no sonho. O de Godard é convencido por um anjo Gabriel menos onírico, mais real e truculento. Essa mudança ocorre porque os indivíduos do sexo masculino já não são capazes de apostar no abstrato. Necessitam a todo momento da urgência do concreto para se instalarem no presente. E esse presente é sempre confrontado com a inserção de cartões onde se visualiza a mensagem: "Naquele tempo". A inscrição é comum nos evangelhos católicos. Indica o tempo de Cristo, o tempo da presença física de Deus. Mas esse tempo não é evidentemente o tempo de Godard, que não encontra Deus em seu filme. O personagem do filho de Marie é irritantemente egocêntrico, incapaz de brilhar como o verdadeiro Jesus.
Embora tenha parecido, Godard não está atacando a crença cristã de bilhões de pessoas. Tampouco a trajetória católica. O que ele aborda é a humanidade. O que deseja é estabelecer um paralelo entre os traços distintivos de um ambiente e de outro. Para ele, não há mais salvação. Não é o Cristo que se recusa a descer, mas a humanidade que já não é mais capaz de entendê-lo e viabilizá-lo.
Na doutrina católica Maria é uma excelente mãe. E é através dela que Jesus começa sua carreira de milagres, no episódio da festa de Caná. É Maria quem introduz o filho como alguém que vai melhorar as condições de vida daquela população. É ela quem o ensina a intervir. E mostra que questões menores como a quantidade de vinho numa festa são, para os homens, fatos realmente importantes. Maria e José culturalizam Jesus. Eles trazem a potência do salvador à realidade do messias.
Godard se concentra no milagre da paternidade. Deus se faz homem. Ele não é homem, já que ultrapassa a questão da morte. Vence a morte. Reduz sua significância. E assim reassume sua condição de Messias, de predestinado, de salvador.
Já a Virgem Maria é elevada aos céus, evitando que sua trajetória termine como o de uma mulher comum. Foi concebida sem pecado original. Não é, portanto, filha de Adão. Não é humana. Sua assunção ao céu comprova esse conceito. Ao contrário de todos os indivíduos, não encontrará a morte. Eis a chave do filme de Godard. Maria é sobre-humana. Uma mulher humana não seria capaz de gerar um Deus. Somente Maria poderia, pela força moral, reivindicar um filho. E é justamente essa força moral que a impede de fazer tal solicitação. A maternidade é dada a ela como um presente, uma força divina, um desejo do próprio criador para nascer como seu fruto.
O sim de Maria é monocórdio. Amputa-lhe definitivamente a potência de sexualidade. Godard nos choca ao lembrar que somos incapazes de realizar amputação semelhante. Refutamos a renúncia. Queremos o acúmulo. Overdose de possibilidades, de respostas, de vontades. A humanidade piorou. É incapaz de entender a pureza. Jesus não encontraria um lar para se desenvolver.
A imortalidade é inalcançável para os Humanos porque já não podem realizar o eterno através da paternidade. Já não sabem ser pais. A gênese psicanalítica do cristianismo é justamente esta: propor para o Homem do mundo um Deus a quem possa chamar de pai.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

O porteiro contra o prédio



É... eu perco todas as eleições, mesmo. Sarcozy vai vencer. Sua cara de porteiro zangado me deprime. Seu plano é mesquinho, brasileiro: transformar a França numa versão desbotada dos Estados Unidos. Segolene é melhor: é francesa. Se eu fosse francês, votava nela. Contudo, a única coisa francesa na minha vida é a Helena. Sarcozy está atrás dela também. Alega que é um luxo que eu não posso sustentar. Vejo sua cara de beagle atrofiado rosnar para nós. Está montado em Le Pen. Grita e chicoteia o ex-candidato, precisa ir mais rápido. Vejo tudo numa distância segura. Sarcozy não pode nos alcançar. Vive numa outra dimensão, ao lado da buchada de bode, do Los Hermanos e de Lula. Quando ministro, Nicolas chegou a chamar imigrantes de "escória". Como se vê, excremento é algo que, cedo ou tarde, todo mundo acaba produzindo. Allez, Allez, Royal.

Quinta-feira, Março 08, 2007

Hot memories









1



Baudrillard morreu de câncer, aos 77 anos. A morte é a derrota da razão. Pode ser que você acredite em vida eterna. Não sou contra. Cada um pisa onde quer. Quanto a mim, sei que o corpo é tudo. Kant não vale um níquel para quem acaba de ter uma parada cardíaca. Acredite: as coisas do lado de fora não significam nada para quem está dentro do caixão. É o inferno da verdade.

2

O que um homem pode oferecer além de sua anatomia? Interpretações. Dar pitacos no mundo é a única coisa que me faz sair da cama aos domingos, quando racionalmente não vejo nenhuma razão para estar vivo.

3

Para os vivos, os mortos não morrem. Ainda que houvesse porta, e que esta estivesse aberta, não haveria saída.

4

As interpretações de ontem se tornam as aleluias de amanhã. Quem precisa dos fatos?

5

Os exemplos são muitos. No dia em que eu morrer, Baudrillard morrerá um pouco comigo também. Mas no momento quem morreu foi ele. E quem está vivo sou eu. Não vamos confundir as coisas. Esse acontecimento é irreversível e, como tal, monolítico.

6

A inteligência pode seduzir muita coisa, mas não a morte. Melhor ver do que ser visto.

7

"Se o mundo se encaminha para um estado delirante das coisas, devemos observá-lo através de um olhar igualmente delirante. Afinal, mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard (1929 –2007)

Sábado, Março 03, 2007

Fora do Script


Impossível não lembrar da série Lost ao ler as primeiras linhas de VIAGENS NO SCRIPTORIUM (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 34). Personagens neuróticos; a presença de um olho que tudo vê e de tudo sabe; perguntas sem respostas, que se acumulam página após página; clima de constante suspense e aparente desespero. Mas as semelhanças (felizmente!) param por aí. Ao contrário dos roteiristas preguiçosos da série, Paul Auster sabe que uma história deve estar sempre presa à coerência e à sua própria verossimilhança. Elaborar o primeiro parágrafo é trazer do virtual ao real a idéia que se pretende desenvolver. Uma vez cumprida essa etapa, o restante do texto estará inevitavelmente a serviço do que foi proposto na primeira linha. Escrever é ampliar. Essas balizas (que qualquer vestibulando conhece e até domina com razoável competência) acabam se tornando grandes impedimentos para a elaboração de um texto com estilo. Especialmente na literatura, onde liberdade tende a rimar com vaidade, fazer a manobra certa, encaixar transgressão estética com coesão temática, é um desafio até para os grandes. É justamente por isso que tudo parece estar no lugar em Viagens... afinal, o nome Paul Auster tem sido, ao longos dos anos, sinônimo de boa prosa e ótima ficção. A história, simples na forma, traz um homem chamado Mr. Blank, que subitamente despertou num quarto vigiado por câmeras. Ele não sabe onde está, tampouco quem é, mas uma insuportável sensação de culpa o acompanha o tempo todo. Familiar? Certamente. Kafka, em O Processo, já havia examinado esse sentimento através de seu injustiçado Joseph K. Auster vem flertando com a temática kafkiana há bastante tempo. Primeiro em 1982, com o investigativo A Invenção da Solidão, em que faz uma versão romanceada de sua própria carta ao pai. Kafka não é citado diretamente. E nem precisa. Para bom leitor, meia referência basta. Recentemente, Desvarios no Brooklin, em seu melhor momento, aproveita para exaltar a conduta pessoal do autor checo. Para o leitor atento, Mr. Blank será rapidamente identificado como sendo o próprio Auster, que se vê finalmente encurralado pelo poder de sua prosa. Seus personagens cobram dele os infortúnios que viveram. A esposa morta de David Zimmer (personagem do excelente O livro das Ilusões) surge ao lado de Benjamin Sachs (do político Leviatã) numa espécie de sessão psicanalítica do autor. Viagens no Scriptorium é feito da imagem e da lucidez de quem insiste na idéia de que a construção do presente passa pelo confronto direto com nosso próprio passado.
Enquanto a palavra cria o mundo, Paul Auster vai conduzindo magistralmente sua fábula metalingüística. Eis um romance escrito com a convicção estética de quem carrega a austeridade ao lado do próprio nome.

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

O especialista


Eram pouco mais de vinte categorias. Acertei oito. Conta em minha defesa o fato de eu não ser o José Wilker. Agora posso me dedicar em tempo integral ao Big Brother. E aos últimos capítulos de Páginas da Vida, é claro. Cinismo? Se fosse eu não ia dizer. O mundo se divide entre os vencedores e você. Entenda como puder. Ano que vem a gente ganha o Oscar com o filme do Cao Hamburguer.

Sábado, Fevereiro 24, 2007

OSCAR 2007

FILME

Babel
Cartas de Iwo Jima
Os Infiltrados (o que vai ganhar)
Pequena Miss Sunshine (o que deveria)
A Rainha

DIRETOR

Alejandro González Iñárritu, Babel
Clint Eastwood, Cartas de Iwo Jima
Martin Scorsese, Os Infiltrados (quem vai ganhar)
Paul Greengrass, Vôo United 93
Stephen Frears, A Rainha (quem deveria)

ROTEIRO ORIGINAL

Babel (o que vai ganhar)
Cartas de Iwo Jima (o que deveria)
O Labirinto do Fauno
Pequena Miss Sunshine
A Rainha

ROTEIRO ADAPTADO

Borat: o Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Casaquistão Viaja à América (o que deveria)
Filhos da Esperança
Os Infiltrados
Notas de um Escândalo
Pecados Íntimos (o que vai ganhar)

ATOR

Forest Whitaker, O Último Rei da Escócia (quem vai ganhar e quem deveria)
Leonardo DiCaprio, Os Infiltrados
Peter O’Toole, Venus
Ryan Gosling, Half Nelson
Will Smith, À Procura da Felicidade

ATRIZ

Helen Mirren, A Rainha (quem vai ganhar e quem deveria)
Judi Dench, Notas de um Escândalo
Kate Winslet, Pecados Íntimos
Meryl Streep, O Diabo Veste Prada
Penelope Cruz, Volver

ATOR COADJUVANTE

Alan Arkin, Pequena Miss Sunshine (quem deveria )
Djimon Hounsou, Diamante de Sangue
Eddie Murphy, Dreamgirls — Em Busca do Sonho (quem vai ganhar)
Jackie Earle Haley, Pecados Íntimos
Mark Wahlberg, Os Infiltrados

ATRIZ COADJUVANTE

Abigail Breslin, Pequena Miss Sunshine (quem deveria)
Adriana Barraza, Babel
Cate Blanchett, Notas de um Escândalo (quem vai ganhar)
Jennifer Hudson, Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Rinko Kikuchi, Babel

DIREÇÃO DE ARTE

O Bom Pastor
Dreamgirls — Em Busca do Sonho
O Grande Truque (o que deveria ganhar)
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar)
Piratas do Caribe — O Baú da Morte

FOTOGRAFIA

Dália Negra
Filhos da Esperança
O Grande Truque
O Ilusionista
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar e o que deveria)

FIGURINOS

Curse of the Golden Flower
O Diabo Veste Prada (o que vai ganhar e o que deveria)
Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Maria Antonieta
A Rainha

DOCUMENTÁRIO - LONGA-METRAGEM

Deliver us from Evil (o que deveria)
Iraq in Fragments
Jesus Camp
My Country, My Country
Uma Verdade Inconveniente (o que vai ganhar)

DOCUMENTÁRIO - CURTA-METRAGEM

The Blood of Yingzhou District
Recycled Life (o que deveria)
Rehearsing a Dream
Two Hands (o que vai ganhar)

EDIÇÃO

Babel (o que vai ganhar e o que deveria)
Diamante de Sangue
Filhos da Esperança
Os Infiltrados
Vôo United 93

MAQUIAGEM

Apocalypto
Click
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar e o que deveria)

TRILHA SONORA

Babel
O Segredo de Berlim
O Labirinto do Fauno
Notas de um Escândalo
A Rainha (o que vai ganhar e o que deveria)

CANÇÃO

I Need to Wake up (Melissa Etheridge), de Uma Verdade Inconveniente (o que deveria)
Listen (Henry Krieger/Scott Cutler/Anne Preven), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Love You Do (Henry Krieger/Siedah Garrett), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Our Town (Randy Newman), de Carros
Patience (Henry Krieger/Willie Reale), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho (o que vai ganhar)

CURTA-METRAGEM

Binta and the Great Idea
Éramos Pocos (o que vai ganhar)
Helmer & Son
The Saviour ( o que deveria)
West Bank Story

EDIÇÃO DE SOM

Apocalypto
Cartas de Iwo Jima
A Conquista da Honra (o que vai ganhar e o que deveria)
Diamante de Sangue
Piratas do Caribe — O Baú da Morte

EFEITOS SONOROS

Apocalypto
A Conquista da Honra
Diamante de Sangue
Dreamgirls — Em Busca do Sonho (o que vai ganhar e o que deveria)
Piratas do Caribe — O Baú da Morte

EFEITOS VISUAIS

Piratas do Caribe — O Baú da Morte
Poseidon
Superman — O Retorno (o que vai ganhar e o que deveria)

FILME ESTRANGEIRO

After the Wedding (Dinamarca)
Dias de Glória (Argélia)
O Labirinto do Fauno (México) (o que vai ganhar e o que deveria)
The Lives of Others (Alemanha)
Water (Canadá)

LONGA DE ANIMAÇÃO

Carros (o que vai ganhar e o que deveria)
A Casa Monstro
Happy Feet

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

O Medo do Escritor


Quanto melhor o crítico, pior o escritor. É o que eu penso. Se formos rigorosos, nenhum livro escapa. Só o amor pela literatura salva uma obra. Algumas mulheres a gente não ama, suporta. Os livros são assim. É preciso querer gostar do texto. Porque o texto tem suas limitações, seus traumas de infância, suas amigas retardadas. Suportar, suportar. Isso me lembra Paulo Hecker Filho. Era um crítico literário de primeira, uma figura absurdamente hipnótica....até hoje tenho livros meus autografados para ele..... e, naturalmente, nunca entregues. Tinha medo de suas críticas. Se ele me dissesse que eu nao escrevia bem, teria que abandonar a literatura para sempre. É assim com os incompetentes: a razão está sempre contra eles. A favor da imperícia, só a compaixão se levanta. Paulo não tinha essa moleza estética. Ele dizia. Conheço gente que até hoje guarda suas cartinhas ácidas. Em duas linhas, o crítico liquidava o autor. A verdade, quando observada sem filtros, não permite negociações. Sua morte, há quase dois anos, não mudou nada.

Sábado, Fevereiro 10, 2007

A redenção pela imitação


Espantado com a morte do menino João Hélio Fernandes, 6 anos, ocorrida na quarta-feira. um francês me pergunta por que isso acontece no Brasil. A verdade é que não sei. Os patriotas argumentam que não somos os únicos bárbaros do mundo. Há bárbaros na Bolívia. No Afeganistão. E no Congo. Agora, fico mais tranqüilo. Aliás, Diogo Mainardi (aquele que todo mundo me acusa de imitar) também não conseguiu explicar por quê o Brasil tem sempre um crime mais bizarro que o outro para apresentar, mas já deu uma receita eficiente para que eles não se repitam: "Se todos os pais esgoelassem seus filhos e os obrigassem a repetir diariamente que nenhum país é pior do que o Brasil, já estariam cumprindo seu papel." Até o momento, não tenho filhos. Quando os tiver, esgoelo. Isso me faz lembrar que, apesar de minha independência intelectual, fico realmente zangado quando me chamam de imitador. Não imito ninguém, eu copio. São coisas diferentes. É preciso uma imensa humildade para copiar alguém. É por isso que essa postagem traz a foto do cronista de Veja. Estou copiando quem acerta. É melhor do que errar com originalidade. Melhor para o país. Melhor para a sociedade. Copie você também. O que Lula copiou de Fernando Henrique deu certo. Onde inventou, deu galho. A originalidade estraga a vida. Anote. Copie. Deixe o Ego de lado. Liberte-se da angústia. Cole.

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

3 º Festival de Verão

A pior coisa do Brasil é o humor. Não acho graça em nada nosso. Olho com inveja de mulher o talento norte-americano de fazer rir. Em matéria de sátira, todos nos ganham: franceses, ingleses, jamaicanos. Qualquer um faz rir melhor do que nós, os brasileiros. Perdi a conta de quantas vezes recuperei a vontade de viver vendo um Groucho Marx (para entender, leia o Livro das Ilusões, do Paul Auster). A estréia do filme de Borat é uma oportunidade de rever o humor na telona. Há um novo Woody Allen chegando aos cinemas nacionais também. Porto Alegre está melhor com esse festival de cinema de verão. Falarei disso mais tarde, antes tenho que ler a tirinha do Dilbert. Eu sei, eu sei. Sou desprezível.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

o ano em que meus pais saíram de férias


Meu pai, um jornalista imbecil que viveu de 1940 a 1992, costumava dizer que contar era escolher a parte mais importante. Em O Ano em que Meus pais saíram de Férias pude encontrar mais um motivo para enfrentá-lo. Eis um filme cheio de judeus (o que por si só dá um ar de seriedade a coisa toda). E de jogos de botão. E de morte. E de meninas que são feias, mas que por serem feias são mais lindas do que as lindas que nunca saberiam ser feias. Tudo nessa realidade está na memória. Contar não é escolher a parte mais importante, mas saber reconhecê-la no meio de um amontado de imagens que não são nossas. Meu pai, o imbecil, esperava que sua ausência fizesse de mim um exilado. Porém, ao contrário de Mauro, não foi por violência que construí minha própria vontade. Médici não tocou em nada meu. As coisas voluntariamente foram embora, num tempo em que todos estavam voltando para casa. Fiquei no acostamento. E na contramão. Precisei eu mesmo escolher um país. E depois uma casa. E depois um corpo. E dizê-los que eram meus. Os dias formam uma lápide. Duas, na verdade. Nada a fazer. Beckett podia mesmo ser um goleiro. pensei agora.

Paulo Francis


Paulo Francis não gostava de negros. Eu sou negro e gostava de Paulo Francis. Nasci exatamente cinqüenta anos depois dele, tempo suficiente para encontrar um Brasil bem pior. Para mim, suas opiniões não interessavam. O que um homem faz de sua vida só interessa a sua mulher e à polícia. Eu só quero saber do texto. E que texto tinha ele! Há uma diferença entre concordar com alguém e admirar alguém. Os petistas sabem do que estou falando. Collor está na base aliada de Lula. Severino jura ter feito campanha para Chinaglia. O governo admira os ex-adversários, mas não concorda com eles; contudo, precisa deles para aprovar projetos que o próprio PT desaprova. A política brasileira é um baile de máscaras. Waal.

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

Ah, o verão

Minha equipe de fofoqueiros espalhados em todo o país garante: Zé Dirceu anda dando as caras por Santa Catarina. Hoje à tarde foi visto passeando pela orla do Balneário Camboriú. Embora ninguém tenha ousado abordar o ex-homem forte do governo Lula, especula-se que vá passar o verão por lá mesmo. O que isso tem de importante? Nada. Droga, achei que o trabalho da Monica Bergamo fosse mais fácil.

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

A Festa dos canalhas

Houellebecq confirmou sua presença em Porto Alegre, em 2007. Isso certamente dá pano, pretexto, desculpa para um amontado de interpretações sobre sua última obra. Lanço uma: o desejo de Daniel 21 é ser procurado. Está acessível, completamente monitorado. Contudo, a mulher que ama não lhe dá a mínima. Ele se cerca de possibilidades frágeis. E logo a potência da ação alheia torna-se insuportavelmente virtual. Cansado de esperar, o protagonista se vê obrigado a pedir. Quando finalmente consegue uma vitória, entende o que se passa: seu triunfo é restrito, limitado. Daniel se comunica, é claro; mas sua comunicação é do tamanho de seu telefone: é celular; e como tal, metastática. Não há outro caminho a percorrer senão o da volta. É assim que se desiste de alguém. Eu desisti.

Domingo, Dezembro 17, 2006

O Futebol

A literatura acabou. Vou trocar Cortázar por Vargas. E Mirisola por Iarley. O Internacional é campeão do mundo. Faz quase um mês que não escrevo nada aqui. Os franceses cortaram minha verba. Agora, terei que vender dvd´s piratas na rua da Praia. Não importa. O Inter é campeão em cima do Barcelona. A literatura não vale um gol de Gabiru. Vou me trocar pelo Ceará.

Domingo, Novembro 19, 2006

Crime Capital

Eu estava fora. Na paz completa. Gordo como uma paca. Contudo, tive que retornar. Mino Carta me tirou o sossego. A maneira com que se referiu a Diogo Mainardi me acordou. Estou em pé agora, pronto para ofendê-lo. Mino é a favor de Lula. Eu não sou. Mino edita a Carta Capital. Eu não leio. Mino odeia Fórmula 1. Eu sei o nome dos circuitos. Estamos sempre em lados opostos. Eu no lado certo. Ele no errado. A posição editorial de sua Carta Capital tem explicação monetária: trinta por cento do faturamento da revista é oriundo de verbas federais. Mino erra. Eu acerto. Voltei.

Domingo, Outubro 29, 2006

Bandeira Branca

Lembrando minha postagem de sábado, 27 de maio deste ano:

Minhas previsões vão se confirmar: Lula será reeleito. Analistas norte-americanos acham que há três explicações para essa morte anunciada:a) o eleitorado não tomou conhecimento das denúncias de corrupção b) o PSDB parece não saber explorar a crise política do governo c) programas como o bolsa família seduzem o eleitorado de baixa renda. Os analistas não entendem o Brasil. Eu, sim. Ora, até o Jamanta sabe do caso Telemar. Quanto ao PSDB, está claro que quer esperar o horário eleitoral gratuito para atirar as pedras no telhado de vidro do PT. Por fim, resta a hipótese da sedução do bolsa família. Lamento, mas nem o povo se vende por algumas notas de dez reais. Lula será reeleito por um motivo mais simples, mais real: é amado. Sim, o povo está seduzido por ele. Exatamente como ficou seduzido por Sonia Braga. Fará tudo o que Lula mandar. É um amor esquizofrênico, como o de Julia por André, em Belíssima. Um analista frio diria que o povo está apalermado. Eu sou genoroso. Reconheço o poder da burrice voluntária. Eu mesmo já estive apaixonado, não por Lula - que é brega - mas por uma italiana que não conseguia pronunciar as oclusivas bilabiais. O amor é assim mesmo.

Lula ganhou. Posso levantar uma cartolina com dizeres em caneta hidrocor vermelha: EU JÁ SABIA. Durante sete meses tentei evitar sua vitória. Infelizmente, não tive competência para vencer o operário. Estou envergonhado. Refaço minha estratégia, revejo os números. Eu levava vantagem: tinha um dedo a mais. Contudo, perdi. Lula tem razão: nem todo mundo pode ser o Ronaldinho.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

o dedo mínimo de lula

Os Alckmistas não estão chegando. Pelo visto, ficarão pelo caminho. Não importa. Continuo balançando a árvore, esperando a hora de juntar Lula. Corro o risco de estar me repetindo. Não posso evitar. Lula é meu Mumm-Ra, meu vilão de Supercine. Fiz uma pasta com recortes de jornal sobre os escândalos de seu governo. Coloquei em ordem alfabética, para não me perder. Minha letra predileta é L. De Lulinha. O caso Telemar me fascina: não basta ser pai, tem que participar. Eis um exemplo perfeito de paternidade responsável. Dá pra contar nos dedos os pais que agem como ele. Nos dedos.

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Nada novo sob o sol

O advogado do ex-ministro José Dirceu, José Luiz de Oliveira Lima, declarou nesta sexta-feira que houve uma ligação telefônica entre seu cliente e o então coordenador de risco e mídia da campanha de Lula, Jorge Lorenzetti. Dirceu, no entanto, garante que não tem nada a ver com a compra do dossiê. Entende-se. Quando o escândalo do mensalão estourou, ele disse: "Esse é um governo que não rouba e não deixa roubar". A árvore tá balançando. Lula vai cair. Deixem que eu junte. Vou segurar com as duas mãos. E dez dedos.

Quarta-feira, Outubro 18, 2006

Entrevista - Marcelo Mirisola

1- Maurício Azevedo - Mais uma vez deu Hatoum. É a terceira tartaruga que ele emplaca. Pretendes exigir que ele devolva essa estatueta também?

Marcelo Mirisola - Não li o último livro do Hatoum. Provavelmente o "Joana ..." é melhor. Você deve ter lido. O que acha?

2- Maurício Azevedo - O Hatoum é chato. Mas, mudando de saco pra mala: Alckmin ou Lula?

Marcelo Mirisola - Geraldo. Porque ele tem um nariz precioso que pode servir a ótimas charges.

3- Maurício Azevedo - Quais são os cinco livros que todo mundo devia ler?

Marcelo Mirisola - "Extinção" do Thomas Bernhardt, "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, Trópico de Câncer" do Henry Miller, "Meninos da rua Paulo", do Férenc Molnar; o meu "Joana a Contragosto" e "O diabo nas Colinas", do Pavese.

4- Maurício Azevedo - Quem tu achas que deveria parar de escrever?

Marcelo Mirisola - Eu.

5- Maurício Azevedo - Fala um pouco de quando e como tu começou na literatura.

Marcelo Mirisola - Não tenho saco para essa resposta.

6- Maurício Azevedo - Qual o primeiro mandamento do escritor?

Marcelo Mirisola - Desista.

7- Maurício Azevedo - Do que fala o teu próximo livro?

Marcelo Mirisola - Minha volta, e reconciliação com SP, depois de dezesseis anos me esquivando da cidade.

8- Maurício Azevedo - E Deus, Marcelo, existe?

Marcelo Mirisola - Claro que sim. Está no céu ao lado de Jesus Cristo e da Virgem Maria.

9- Maurício Azevedo - Tem alguém novo e bom na literatura atual?

Marcelo Mirisola - Deve ter. Sempre tem.

10- Quem tu serias se não te deixassem mais ser o Marcelo Mirisola?

Marcelo Mirisola - Se alguém fizesse esse favor para mim, queria ser o menino da Rua Paulo, aquele que morre no final do livro.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

A esperança virou o medo

Tenho recebido e-mails a favor de Lula. Muitos. Em geral, alertam para o fato de que se Geraldo Alckmin vencer, o bolsa família vai acabar, a petrobrás será vendida, e o meu windows vai pifar. Regina Duarte tentou o mesmo truque, em 2002. Lula contra-atacou, com o riponga "A esperança vai vencer o medo". Agora que estão no controle, militantes petistas desistem da argumentação e partem para a tática cocker spaniel de Regina Duarte. A França já passou por isso. Nas últimas eleições, teve que escolher entre Chirac e Le Pen. Chirac venceu com o voto da esquerda. É o que o Brasil deve fazer: votar em Alckmin. Com chuchu se faz sopa. E sopa dá pra engolir. “Votez escroc, pas facho!”. diziam os franceses. Tentei fazer um eslogam para ajudar o candidato tucano. Não consegui. Sou obtuso. Gabriela Linck me pergunta quem lucra com a vitória de Alckmin. Não sei. Só sei que Lula perde. E é isso o que importa.

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Entrevista - Amilcar Bettega

1- Maurício Azevedo - Ultimamente o número de oficinas literárias cresceu muito no Brasil. Em relação a tua trajetória, que peso teve essa experiência na construção da tua literatura?

Amilcar Bettega Barbosa - Teve um peso importante no sentido em que me ajudou a "me achar". Eu sempre gostei de literatura e sempre li bastante, mas até os 26 anos nunca tinha pensado em escrever, muito menos para publicar. Foi num momento de crise existencial muito grande que comecei a escrever. De repente eu me "flagrei" escrevendo uma história. Foi isso mesmo. Quando me dei conta eu tinha já umas trinta páginas de uma história escrita. A partir daí comecei a ver que eu podia escrever e que era aquilo que eu queria fazer. Foi aí que eu ouvi falar em oficina literária. Eu nunca tinha tido, em casa, alguém que me fizesse aproximar da literatura, nunca tinha tido um professor, "aquele professor", que mostra um caminho, que orienta, também meus amigos de infância e adolescência não curtiam literatura, eu tinha feito uma faculdade de engenharia, era outra praia. Tudo isso me fazia sentir muito sozinho. Pois numa oficina encontrei gente que estava na mesma busca que eu, vi que eu não estava tão sozinho quanto pensava. Depois veio o ganho prático. E o maior ganho da oficina talvez seja o de deixar claro que é impossível ensinar alguém a escrever um texto literário, mas que, ao contrário, é possível ensiná-lo a ler um texto literário. Escrever um artigo de jornal ou um relatório ou uma carta é diferente de escrever um texto literário. Lê-lo também exige uma outra abordagem. Saímos mais críticos de uma oficina. Lemos melhor, e saber ler é importantíssimo para quem quer escrever.

2- Maurício Azevedo - Quando teremos um romance do Amilcar?

Amilcar Bettega Barbosa - Quando o Amilcar achar que o que ele tem para dizer deve ser dito na forma de um romance. Escrevo de dentro para fora. Não é assim "vou escrever um romance agora" e aí escrevo um romance. Escrevo, e a muito custo. Se o que me sai é conto, carta ou apenas um monte de frases enfileiradas, é o que menos me interessa. Escrevo o que tem valor para mim, depois eu vejo se aquilo pode ter algum valor para os outros. Se acho que pode, fico muito contente e de certa maneira me dou por satisfeito. Mas é sempre esse sentido de dentro para fora, jamais o inverso. Se vou pensar primeiro na expectativa dos outros, a coisa vai sair chocha, sem liga.

3- Maurício Azevedo - O que o escritor vê que os outros não vêem?

Amilcar Bettega Barbosa - Ver de fato é muito difícil. Há toda uma armação para que todo mundo veja a mesma coisa, uma espécie de formatação do olhar. Um pouco como ocorre com o pensamento, em nome de uma racionalidade positiva criam-se maneiras "lógicas" de ver e de pensar. Se você não é vigilante, tudo o que chega ao seu olhar vem filtrado pelas normas da realidade. Você só vê o que está dentro dessas normas, o que na verdade é uma malha e, como toda malha, cheia de buracos. Acho que o escritor, talvez por uma malformação ótica, tem o olhar atraído para esses buracos, essas fissuras.

4- Maurício Azevedo - Günter Graas anunciou ter participado do exército alemão durante a Segunda Guerra mundial. Afinal, ética ou estética?

Amilcar Bettega Barbosa - Em arte o objetivo é sempre estético, mesmo na arte engajada, que sem o teor estético vira panfleto; não é arte. Artistas são homens, não são santos. Uns mais éticos, outros menos éticos, mas todos cheios de contradições, como qualquer ser humano. Céline era um porco moralmente, mas é preciso reconhecer que "Viagem ao fim da noite" é um monumento literário. A filosofia (e coloco a grande filosofia no domínio da arte) sem o nazista Heidegger sofreria de um vácuo. São muitos os exemplos. Uma coisa é a obra de arte, outra é o homem que a produz. Leio e aprecio muita coisa de autores que não convidaria para tomar um café na minha casa.
Evidentemente no caso particular do Günter Graas, que é um escritor engajado, que já levantou bandeiras sempre a favor de causas nobres e éticas, essa confissão tardia soa bastante estranha, tem repercussões na sua atuação como intelectual de esquerda, engajado e tudo mais. Mas não creio que desautoriza toda a sua postura anterior e, sobretudo, e com absoluta certeza, não modifica em nada o valor da sua obra literária.


5- Maurício Azevedo - O que a forma tem a ensinar para o conteúdo?

Amilcar Bettega Barbosa - A forma vazia pode até passar, com alguma dificuldade e, pelo menos para mim, sem muito interesse, mas ainda assim se sustenta. Porém, o contrário simplesmente não existe, o conteúdo sem forma não é arte. É a forma que organiza o conteúdo de maneira a lhe dar um peso estético, é a forma que o eleva a condição de literatura.

6- Maurício Azevedo - Tem alguem que tu admiras na nova literatura brasileira?

Amilcar Bettega Barbosa - Não falo de alguém, mas de algo. Há algo interessante na literatura brasileira. Ela está viva, ativa, muita gente publicando, muita coisa acontecendo. E é isso que eu salientaria, algo que não está nem tanto no conteúdo da sua produção. Mas acho interessante a dinâmica que de uns anos para cá tomou conta do cenário literário brasileiro. Em grande parte devido às facilidades de publicação, e por razões, portanto, que não são propriamente literárias, há uma enorme quantidade de autores que até bem pouco não existiam como escritores e que passaram a ter seus livros publicados. Esses livros bem ou mal circulam, vão parar nas livrarias, encontram, uns mais outros menos, algum espaço em jornais ou revistas literárias, imagina-se que são lidos, etc. O fator literário não está na base dessa "explosão" de livros, mas sem ele ela também não existiria. Acho que a grande quantidade de novos nomes e novos títulos, que aparentemente não significa muita coisa, pode ser o primeiro sinal de que se caminha para a consolidação de um efetivo sistema literário no Brasil, e é a partir daí que dá para esperar algo mais. Evidentemente falta leitor, uma rede de bibliotecas organizada e abrangente, etc., mas um dia se chega lá. Tudo isso é importante para dar maturidade a uma literatura.

7- Maurício Azevedo - Fala um pouco do Cortázar.

Amilcar Bettega Barbosa - Tudo o que eu falar sobre Cortázar já foi dito — e de forma muito mais competente do que eu posso fazer — nos livros, nos dossiês sobre o Cortazar, nas teses, etc. Prefiro ficar com a lembrança da primeira vez que li Cortázar, prefiro as sensações que acompanham essa experiência única e muito pessoal que é descobrir um grande escritor. Vivi isso lendo Cortázar, vivi isso lendo tantos outros autores. A felicidade é continuar vivendo essa experiência.

8- Maurício Azevedo - Como está o quarto, agora?

Amilcar Bettega Barbosa - Muito desarrumado, como sempre foi.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Eleições 2006

Como um bêbado, vejo tudo em dobro. Por um lado é bom. Pelo outro (afinal, são dois) é péssimo. É bom quando Ana Paula Arósio aparece na televisão. Mas é uma pena que isso valha também para o resto. No lado ruim, vejo dois pt´s. O primeiro é feito de Lula e sua gangue. O segundo é feito dos honestos-até-segunda-ordem. Essa parte é composta essencialmente pelos gaúchos. Tenho certeza de que Olívio Dutra não está envolvido em nenhum tipo de irregularidade. Entretanto, como o próprio Olívio afirmou certa vez: "paga-se um preço por andar em más companhias". É por isso que o ex-governador não terá meu voto. Lula é uma má companhia. Devia ser abandonado. Diz-se que corrupção existe em qualquer partido, mas o PT não era um partido qualquer, essa era a bandeira, esse era o diferencial. Se o ideal se perdeu, o que sobra de um partido idealista? Além disso, uma vítória do PT teria uma conseqüência nociva para o próprio PT. Vencendo Lula, vencem os mensaleiros, o uso da máquina pública como extensão do interesse particular. Vencendo Lula, os crimes cometidos pela chamada ala podre do partido são automaticamente reconhecidos como tática desagradável, mas eficiente. Não. Lula não pode e não deve vencer. Lamento pelo povo gaúcho. Pelos dois.

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Entrevistas - 2° temporada

1- Maurício Azevedo - Günter Grass admitiu publicamente ter participado do exército alemão durante a Segunda Guerra mundial. Afinal, o que a ética pode ensinar para a estética?

Marcelo Backes -Muito, e a ética costuma claudicar, sobretudo diante da possibilidade de vender alguns milhares de livros a mais. Até papas a estética é capaz de inventar, ao que parece, nas memórias de Grass!

2- Maurício Azevedo - Fala um pouco sobre a tua formação acadêmica.

Marcelo Backes - Eu me formei em jornalismo pela UFRGS; por teimosia, conforme sempre disse, e por saber que poderia me especializar em outra área depois de concluído o curso. O curso de jornalismo foi um acidente de percurso que eu credito à estatística… Por quê? Eu queria ser escritor e antes de escolher o curso que faria fiz uma lista em que relacionava as profissões dos escritores brasileiros. Deu jornalista, com folga… Ademais, havia todo um Mino Carta, mais um Fausto Wolff, para ficar em apenas dois, encorajando a decisão… Depois fiz mestrado em literatura brasileira, também na UFRGS, e doutorado em romanística e germanística na Universidade de São Heidegger, desculpa, na Universidade de Freiburg, na Alemanha.

3- Maurício Azevedo - Antônio Cândido é considerado por muitos como o maior crítico literário brasileiro. Ele é de fato o maior ou só pode ser considerado?

Marcelo Backes - Ele é, e ponto.

4- Maurício Azevedo - O que o crítico vê que os outros não vêem?

Marcelo Backes - O crítico não vê, por ser crítico, absolutamente nada que qualquer outro não possa ver. O crítico vê porque tem sensibilidade, por dentro, e erudição, por fora.

5- Maurício Azevedo - Qual é o maior pecado que um tradutor pode cometer?

Marcelo Backes - Perder o tom de um livro. Lê o Felix Krull de Thomas Mann em alemão, depois em português, e saberás do que estou falando.

6- Maurício Azevedo - Tem alguém que tu admiras na nova literatura brasileira?

Marcelo Backes - Tem, muitos. Para ficar mais uma vez em apenas dois exemplos para cada alcance diferente: Marçal Aquino, Luiz Ruffato e Miguel Sanches Neto – eu não havia dito dois? –, no Brasil, José Carlos Queiroga e Flávio Ferrarini, no Rio Grande do Sul, que aliás deveriam ser tão brasileiros no alcance quanto Aquino, Ruffato e Sanches.

7- Maurício Azevedo - Nas tuas brigas contra o mundo: quem apanhou mais?

Marcelo Backes - Eu, eu sempre apanho. É como eu disse certa vez: morro nas pauladas que eu dou, e nas que não dou também. Eu sofro quando bato, sofro mesmo, fundo…

8- Maurício Azevedo - Quem tu querias ter sido, se de repente não conseguisses mais ser tu mesmo?

Marcelo Backes - Eu sou um produto da minha alma atormentada, do lugar e das circunstâncias que envolvem o meu nascimento e minha infância e da formação intelectual em páginas como as de Lichtenberg, Heinrich Heine e Karl Kraus, mais uma vez para citar apenas dois... Dois? Para me imaginar diferente na superestrutura eu teria de imaginar toda essa infra-estrutura diferente, e isso é impossível...

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

A última refeição do Diabo

A quem pertence um livro? À editora? Ao escritor? Ao leitor? A velha crença de que um livro pertence a quem precisa dele só pode ser encarada como parte da ilusão de quem está comprometido com a utopia, e não com a verdade (sim, ainda existe verdade).
Quando Max Brod decidiu ir adiante com a intenção de publicar Kafka, iniciava uma longa discussão sobre propriedade intelectual e direito de reprodução. Sob o ponto de vista moral, Max traiu o amigo, desrespeitando sua expressa vontade de que fossem destruídos os originais entregues a ele. Entretanto, ninguém discorda que a subtração da obra Kafkiana tiraria da literatura universal não apenas o autor e seu legado, mas todo o imaginário do homem espantado com o absurdo da existência sem resposta. Em A SOLIDAO DO DIABO (Bertrand Brasil, 352 páginas) esse tema reaparece com força. Ocorre que parte dos contos que integram o livro já haviam sido publicados anteriormente, sob o previdente título de Frio. Em seu livro de hoje, Bentancur suprimiu parágrafos, e – o mais surpreendente – alterou o final de alguns de suas mais pungentes histórias. Da edição de 2001, pouca coisa restou. Não é tanto os enredos, mas a voz discursiva de Frio que mudou. Antes era um livro monolítico, agora integra um universo contraditorial.
Em tudo a obra amadureceu. Não somente na edição robusta de uma grande editora, mas principalmente em sua vocação para falar de uma geração e não mais de uma província. Sai a insistência nas marcas distintivas do final do século XX, entra a consciência de que o papel do escritor é oferecer a nitidez mais crua, ainda que para isso tenha que eliminar de si todas as possibilidades de fuga.
Em seus melhores momentos como escritor, Paulo está intimamente ligado a uma estética do confessionalismo puro, cheio de coragem e técnica. Nos momentos mais fracos, deixa o editor dominar o autor, dialogando muito mais com seu tempo do que com sua forma. Essa aposta conduz a uma conclusão segura: o livro é de quem o faz.
O resultado final é uma obra que trai as ilusões de um leitor à procura de seu duplo, devolvendo-o à solidão de si mesmo. Nenhum demônio pode revogar sua própria origem. Paulo sabe disso. E não hesita em mostrar a extensão de sua consciência. A Solidão do diabo é um livro extraordinário. Não apenas por sua capacidade de renovar discussões editoriais, como pela sua maneira perturbadora de reafirmar a cada instante que o escritor é o único dono dos personagens que inventa. No seu conto mais expressivo, Bentancur mostra um artista gráfico que renuncia à beleza feminina em nome do desespero em satisfazer uma anã e suas vontades. Sêneca e Almodóvar são misturados num inventário das patologias sexuais humanas. Para cada velha cor, Bentancur vai construindo uma nova paleta. Separados entre si, seus protagonistas são forçados a repartir a única coisa comum a todos eles: a marca da exclusão. Longe do que é bom, todo herói se corrompe.
É por aí que os demônios de Bentancur arranham o leitor, tomando para si – ainda que seja somente nas unhas de seu cadáver – fragmentos inegáveis de que tocou, violou e rompeu nossa confiança no Real. O Mal escoa finalmente na literatura sua capacidade de seduzir.
Depois disso, só resta o sono. A solidão. A calma perturbadora de um cadáver e seus algodões.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Finalmente, a literatura

Acabou a espera. Depois do time do Internacional, agora é a vez da Record melhorar o meu ano. Eu deveria fazer uma resenha do livro. Mas não posso. Me falta rigor crítico para encarar Houellebecq. Quando encontro com sua literatura, fico pateticamente domesticado, domado, lulamente débil. Faço pose de Regina Duarte, inclino o pescoço como o cocker spaniel da minha vizinha. Desço. Viro uma paquita. É que os iguais se reconhecem.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

prêmio jabuti 2006

Mais uma vez deu Hatoum. É a terceira tartaruga que ele emplaca. Mas isso não importa no momento. As mortes da minha agente Lúcia e do crítico João Alexandre Barbosa são os fatos da semana. Não sei o que dizer.

Domingo, Agosto 06, 2006

entrevista III

1- Maurício Azevedo - O Thomas Bernhard disse certa vez que um escritor não pode dizer verdades. A verdade é realmente algo indízivel como ele pensava ?

Manoela Sawitzki - Em primeiro lugar, não tenho a pretensão de afirmar o que um escritor pode ou não dizer. Depois, sendo para mim a verdade essencialmente subjetiva, também é múltipla e mutável. Não acredito naquele momento em que o homem chega no pico da montanha e encontra uma verdade estática e livre de dúvidas. Crer nisso é apenas desistir de continuar buscando. E se for mesmo indizível, como Bernhard pensava, isso não me impede de tentar dizê-la, expressar sua busca - o que não significa dar um ponto final à questão, nem ganhar uma medalha por "matar a charada". Cada personagem persegue ou foge da sua verdade (e das dos outros) à sua própria maneira - eu vou de carona, e tomo notas durante o percurso.

2- Maurício Azevedo - A crise política atual altera o significado da tua literatura? Afinal: ética ou estética?

Manoela Sawitzki - Gosto de uma frase da Clarice Lispector que diz algo como: "o que me interessa não são os fatos em si mas a repercussão dos fatos no indivíduo". Qual é realmente a atualidade dessas últimas crises políticas, a não ser o fato de estarem acontecendo agora? De um modo geral, vejo essas crises pelas quais as sociedades passam, em todos os âmbitos e em todas as épocas, como meras repetições - as variáveis são mínimas, as motivações, sempre as mesmas. Seja numa reunião de família ou de condomínio, num escritório de contabilidade ou no Palácio do Planalto e na Câmara Federal, você encontrará os mesmos mecanismos conduzindo as relações entre as pessoas. Quanto maior a possibilidade e abrangência do poder, maiores os riscos e os danos. Dê poder a um tolo, mesmo o poder de controlar a entrada num edifício, ou supervisionar um grupo de vendedores, por exemplo, e observe. Pense agora na quantidade de tolos que circula livremente pelo mundo. Não é assustador? Eu acho, muito. Mas não me interessa falar diretamente sobre a ordem política e sim sobre a humanidade, a natureza de quem faz a política, entre outras coisas. Não se trata de forma alguma de um exercício meramente estético, volto a dizer: o que quero explorar é a essência.

3-Maurício Azevedo - Manoela, existe uma literatura feminina ou toda literatura é universalizante e universalizada?

ManoelaSawitzki - Para mim, é fundamental levar-se em conta a questão dos arquétipos. Masculino e feminino, sol e lua, yin e yang, enfim, pólos diversos entre si que se encontram, interpenetram e, juntos, podem compor uma unidade harmônica. Os povos primitivos, que sempre estiveram muito próximos e atentos aos movimentos da natureza, percebiam seu caráter dual com mais clareza, e esse foi o ponto de partida para a construção de um universo simbólico extremamente rico. O que estou querendo dizer é que todos somos parte masculinos e parte femininos, e numa exploração artística verdadeira tem-se a oportunidade de acessar ambos os territórios. Para isso, claro, é preciso antes se despir. É evidente que existem mulheres que, ao escrever, privilegiam seu feminino, uma visão de mundo feminina, e investigam as questões internas desse gênero com bastante intimidade. Porém, um homem que decide investir nessa exploração pode, naturalmente, fazer o mesmo. Nesse sentido, e apenas nesse, acredito na existência de uma literatura feminina – uma literatura que dá voz à essência feminina. Se você pensar em Henry Miller dizendo a Anaïs Nin, entre outras coisas, que faltava ação em seu texto, perceberá com clareza uma diferença de foco. Miller era um macho escrevendo como um macho - o feminino lhe interessava como a terra interessa ao lavrador. Para mim ele é representativo de uma literatura arquetipicamente masculina. Já Proust, por exemplo, foi fundo em ambas as direções. A questão é: uma literatura pode ser feminina sem ser necessariamente produzida por uma fêmea. Há uma porção de mulheres em conexão direta com seu masculino ao escrever. Não gosto da idéia de separação, o que me fascina e interessa é justamente o intercâmbio.

4- Maurício Azevedo - Por que a literatura e não a música ou qualquer outra arte?

Manoela Sawitzki - Provavelmente pela mesma razão que me fez, desde sempre, quase inapta a desenvolver uma equação matemática ou compreender, sem um esforço absurdo, certas leis da física. Acho impossível explicar algo assim, algo que não foi uma escolha. Esta ligação com a literatura, com a escrita, sempre foi natural, nasceu comigo. Viver ganha um sentido quando eu penso que posso escrever.

5- Maurício Azevedo - Sartre achava que o mundo podia passar sem a literatura? Esse foi um de seus enganos?

Manoela Sawitzki- Grande parte do mundo já vive sem contato com a literatura. O mundo é o que é, por mais renovadora e potente que seja uma manifestação ou corrente artística, ela nunca será capaz de modificá-lo. Acredito no poder da literatura sobre o indivíduo, desde que ele esteja disposto, receptivo de alguma forma.

6- Maurício Azevedo - O que a psicanálise empresta à tua literatura?

Manoela Sawitzki - Nunca fiz nem estudei a psicanálise tradicional, freudiana. De uns tempos pra cá, me interessei pela psicologia junguiana e comecei a estudá-la por conta própria. Esse contato desencadeou uma série de "revelações". Fiquei alucinada quando percebi a quantidade de material simbólico (que num nível aparente poderiam passar apenas por engrenagens de enredo) que havia nos meus últimos textos. O fato de determinadas cenas acontecerem em quartos fechados, por exemplo, no momento em que as escrevi, fiz essa escolha inconscientemente, entende? Não parei pra pensar de fato nas implicações daquilo, até porque não trabalho assim, mas há significações implícitas que podem ser encontradas numa análise mais profunda e isso é fascinante. Lá estava eu, lendo sobre o processo de individuação, e, de repente, meu sangue fervia: "mas foi exatamente o que aconteceu com a Júlia!". Está tudo no inconsciente coletivo, toda essa vasta herança psicológica humana, e sabe-se lá quais outras heranças ainda mais longínquas, e, ao escrever, acredito que seja possível entrar em contato direto com fragmentos dessas informações e trazê-las "à luz" da consciência.

É como um gigantesco quebra-cabeça.

7- Maurício Azevedo - Quem o teu discurso ama? E o que rejeita?

Manoela Sawitzki - Ama a descoberta e evita as fórmulas prontas, prefere deixar ao acaso.

8- Maurício Azevedo - A literatura brasileira atual é marcada por um alto grau de confissionalismo. No teu caso, especificamente, o discurso introspectivo acaba contrariando essa tendência. Tu te sentes isolada em relação aos demais escritores nacionais?

Manoela Sawitzki- A única resposta honesta que posso dar pra sua pergunta é: não sei. Sim, de certa forma me sinto isolada, no sentido de não encontrar muitas possibilidades de troca com outros escritores. Depois de algumas tentativas frustradas, fiquei com preguiça de tentar de novo. Estamos, acho, num momento de extremos. Num, estão aqueles que escrevem na internet e fazem parte dessa onda voyeur que eu, particularmente, estranho, e, no outro, os que vivem sob um espécie de redoma de popularidade e são muito pouco acessíveis, parecem pouco interessados. Acho que hoje habito numa espécie de hiato entre eles, não publico há três anos, estou em lugar nenhum. Quanto aos autores da minha geração, conheço o trabalho de poucos, não é má vontade, tenho sempre uma quantidade enorme de leituras acumuladas e não consigo dar conta de tudo. Sei que é muito forte essa literatura confessional e urbana, de imagens rápidas, meio videoclip, mas, as poucas coisas que li dessa corrente não me pegaram. Fora isso, recentemente conheci o trabalho de uma escritora paulista chamada Andréa Del Fuego, de que gostei muito. Em São Paulo sei que existe muita troca entre escritores, troca de boteco mesmo, aquela coisa romântica.

9- Maurício Azevedo - A questão da influência é sempre um daqueles temas delicados. No teu caso, quem influenciou a Manoela?

Manoela Sawitzki - Quando descobri a Clarice Lispector foi um tumulto só. Assim que terminei Perto do Coração Selvagem, pensei em queimar todos os meus textos (cheguei mesmo a destruir alguns). Naquele momento achei que jamais atingiria tal profundidade, acreditei que ela já tinha dito tudo e da melhor maneira possível. Foi aí que apareceu o Rainer Maria Rilke, em suas Cartas a um jovem poeta, abrindo uma clareira diante de mim. No contato com Clarice cogitei desistir de escrever. O Rilke me fez ter certeza que não seria capaz de viver se desistisse. Cartas... continua sendo um espécie de "livro sagrado" na minha vida. Fora esses dois: Fernando Pessoa, Marguerite Duras e Samuel Beckett.

10- Maurício Azevedo - Deus existe?

Manoela Sawitzki- Engraçado. Sábado discuti fervorosamente sobre isso com amigos numa pastelaria! Pergunta danada, resposta inconclusa. Acredito em forças extrafísicas, e que esse corpo aqui é só minha âncora. Quanto a Deus, bem, Deus existe pra quem crê e precisa. O que me incomoda é a apropriação e a invocação de um Deus pra justificar atrocidades, autorizar homens a falarem em seu nome. O problema está na institucionalização de Deus e, principalmente, na vontade humana de ser Deus.

11- Maurício Azevedo - O que ainda te impressiona?

Manoela Sawitzki- Há pouco me impressionou muito a montagem do Peter Brook de Dias Felizes, todos os escritos do Beckett, o último disco do Tom Zé, psicologia junguiana, a experiência de ver um texto meu sendo montado, a importância de alguns amigos. Tantas coisas... Rio de Janeiro, o Grupo Corpo, Cioran, a natureza revidando, mostrando sua força...

12 - Maurício Azevedo - Para onde a tua literatura está indo?

Manoela Sawitzki- Para dentro. Este tem sido meu foco de três anos pra cá: a ação interna das personagens, o exterior apenas como pano de fundo, o movimento externo como conseqüência da agitação interior. Sei que é uma proposta difícil de ser "vendida" hoje em dia, mas eu teimo.

Sexta-feira, Julho 21, 2006

As mulheres

Ninguém conhece mais as mulheres do que Marcelo Rubens Paiva. É o que concluí depois de completar 15 anos como seu leitor. O correto seria dizer: ninguém entende melhor os homens do que Marcelo Rubens Paiva. Sim, porque mais do que falar sobre as mulheres, ele fala sobre o que os homens acham que as mulheres pensam. Agora o cara tá de livro novo: O HOMEM QUE CONHECIA AS MULHERES. O título é um achado. Aliás, tem gente que sabe fazer título. Naturalmente, não estou nesse grupo. Título é assunto delicado. O melhor que eu conheço é de um filme: ADEUS, MR CHIPS. Talento puro. Paulo Bentancur (sempre arranjo um modo de falar dele) está lançando A SOLIDÃO DO DIABO. Esse é outro que domina a arte de nomear. Primeiro um INSTRUÇÕES PARA ILUDIR RELÓGIOS; depois, OS LIVROS IMPOSSÍVEIS, daí veio o melancólico FRIO. Eu, que não sei fazer título, nem entendo as mulheres, continuo no mesmo lugar. Meu próximo livro vai se chamar BAUDRILLARD EM RISCO. Eu sou um parasita verbal, mesmo.

Terça-feira, Julho 18, 2006

Entrevista II

1- Maurício Azevedo - Ultimamente um grande número de escritores gaúchos têm sido publicado por editoras do centro do país. Isso revela uma evolução na literatura sul-riograndense ou o princípio da decadência estética dos autores do sudeste?

Paulo Bentancur - Isso revela as condições pouco profissionais das editoras gaúchas. Desconfio que o mercado gaúcho é menos auto-suficiente do que se supõe. A literatura gaúcha sempre produziu gente boa. Os autores das demais regiões, idem. Com altos e baixos dependendo da época, o que é comum em qualquer lugar do mundo. O problema, enfim, é do mercado, dos editores, e não da literatura, que, aliás, está cansada de ser tratada amadoristicamente.

2- Maurício Azevedo - Quando e como tu começaste a escrever?

Paulo Bentancur - Aos 12 anos eu já sabia que seria escritor. Não sabia de que tipo nem, óbvio, qual o resultado tanto crítico quanto de público dos meus livros. Comecei a escrever à mão, aos 15 passei para a máquina de escrever e aos 40 (1997) para o computador, o que alavancou a quantidade da minha produção. O computador facilita tanto que influencia até no estilo da gente. Só o poeta ele não muda.

3- Maurício Azevedo - De que forma teu trabalho como editor se alimenta da tua habilidade como escritor?

Paulo Bentancur - Influencia mesmo. Vejo os dois lados, o do escritor, que resiste ao mercado (dependendo do seu projeto, quanto mais pessoal menos voltado à maioria dos leitores), e o do editor, que exige de mim elos facilitadores para o acesso do público. Tenho o prazer de experimentar, mas um livro, como produto, para SE sustentar e ME sustentar, deve apostar mais na comunicação do que na experiência. Assim, o que era mais radical e inovador em mim passou a ser mais narrativo e buscando, sempre, estabelecer algum ponto de contato com quem procura a fruição estética.

4- Maurício Azevedo - O Paulo Bentancur acredita em Deus?

Paulo Bentancur - Nunca acreditei. Não lembro, nem em criancinha, de algum dia ter acreditado. Aos cinco anos eu já sabia que Papai Noel e Papai do Céu eram histórias da carochinha (que, aliás, me impressionavam mais). Acho que o mundo não faz o menor sentido. Só faz sentido criar sentido. Se não criamos um, ficamos sem nada, a não ser a distração das horas. Isso, para mim, é a maior prova da inexistência de um Criador, com maiúscula. Criadores há muitos, artistas e cientistas, de quem sou fã e em quem levo muita fé.

5- Maurício Azevedo - "Bodas de Osso" ganhou o prêmio Açorianos, e vem sendo bem recebido pela crítica. Por que demoraste tanto a ingressar na poesia?

Paulo Bentancur - Não demorei. Demorei a publicar em livro. Poesia é o mais difícil dos gêneros literários. Eu escrevia e reescrevia meus poemas. Penso mais em poesia do que em prosa. Mas a batida do poema, seu ritmo, não é fácil acertar. Verborrágico, acabei incidindo mais na prosa (muitas vezes poética) do que no poema de fato, coração da matéria verbal.

6- Maurício Azevedo - Com a morte de Paulo Hecker Filho, a crítica literária gaúcha ainda tem do que se orgulhar?

Paulo Bentancur- Tem do que se envergonhar. Envergonhar-se de que ele tenha morrido do jeito que morreu, recebendo meia página no dia seguinte na editoria geral de um grande jornal e duas ou três matérias em suplementos culturais do estado na semana seguinte. Além de talento analítico, tinha coragem moral para não fazer politicagem literária. E carreirismo é uma praga não apenas entre literatos como uma praga disseminada em qualquer área. Não, a crítica não tem do que se orgulhar. Tirando um Flávio Loureiro Chaves, um Luís Augusto Fischer, quem mais faz a nossa crítica? É muito pouco.

7- Maurício Azevedo - O que pesa mais na hora de escolher um original a ser publicado?

Paulo Bentancur- Não há um só quesito. São vários. No mínimo, dois: que seja bem escrito e que o tema ou o nome do autor tenham relevância para o público. O editor não vai editar um livro "só" porque ele é bem escrito, se o autor for desconhecido e o tema for, digamos, difuso. Há que se ter senso de realidade, sensatez. Um livro editado é um produto que custa caro para ser produzido e deve se pagar. Para tanto, precisa vender um mínimo de 800 exemplares. A medida certa é amadorismo no sentido de amor à arte de escrever e profissionalismo no sentido de o autor entender que seu livro é um produto e deve ter apelo. Ele pode chegar a esse apelo sem trair seu projeto estético.

8 - Maurício Azevedo - O que ainda falta para a literatura brasileira?

Paulo Bentancur- Nada. Já produzimos Machado de Assis, Cruz e Sousa, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Campos de Carvalho, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna e Bernardo Carvalho. Não consigo imaginar nada que ainda falte. Agora é honrar a tradição e a ruptura e produzir coisas à altura desses nomes. O que falta, talvez, seja o Prêmio Nobel de Literatura, mas isso diz mais à política cultural do País do que propriamente à sua cultura.

9- Maurício Azevedo - Muitos dos novos escritores têm usado os blogs para divulgar seus textos. A mídia muda o texto?

Paulo Bentancur - Muda. Nem para melhor, nem para pior. Muda. E mudança, claro, é sempre bom. No caso, o mais positivo é a quantidade e a variedade. A internet tem produzido montanhas de lixo e de coisas boas. Como o papel em branco já produzia há séculos.

10 - Maurício Azevedo - O movimento "Literatura Urgente", que conta com adesões importantes como a escritora Heloisa Buarque de Holanda, propõe políticas públicas de fomento e incentivo à literatura. O jornalista da revista Veja, Jerônimo Teixeira, acha que isso é só uma abominável estratégia de alguns escritores para colocarem a mão nos cofres públicos. Quem está errado?


Paulo Bentancur - Depende do caso. Várias áreas da cultura tem sido alavancadas através do subsídio público. Por que a literatura vai ficar à margem? Como tudo, a questão é de bons e necessários projetos merecerem verba pública. Os oportunistas que se utilizam desse oxigênio onerando o bolso do contribuinte e nada contribuindo para a literatura nacional, esses, pensando bem, nem eles estão errados. Errada é a comissão que os avalizou. Mais dinheiro, sim, e mais critérios. Porém, claro, antes vem a saúde, a educação (básica, o que dispensa esse tipo de literatura que tem recebido subsídios), a alimentação, a moradia... Não sei se algum dia sobrará, num país sério, dinheiro público para se investir na literatura. Deveria sobrar, claro, mas sob outro nível de desenvolvimento. Não com o nosso...


11- Maurício Azevedo - Qual a pior coisa que pode acontecer a um escritor? E qual a melhor?

Paulo Bentancur- Não conseguir escrever o livro que sonhou. E a segunda, o que não foi perguntado, é não ser lido. E a melhor, o inverso: acertar em cheio seu projeto literário. E ser lido por muitos.

12- Maurício Azeved0 - Quem vale a pena ser lido hoje em dia?

Paulo Bentancur - Todos os que citei na resposta à pergunta 8. Há mais nomes, claro. Mas uma maioria (como em qualquer área, repito) é descartável. Embora, para quem não disponha de semelhante seleção, ler qualquer coisa sempre valha a pena. O que não vale a pena é não ler. Isso num nível básico. Num nível avançado, eu recomendaria a leitura e a releitura daqueles 15 nomes citados anteriormente.

13- Maurício Azevedo - Que imagem o Paulo Bentancur viu e jamais esqueceu?

Paulo Bentancur - O caixão de minha mãe, chegando de uma viagem de 500 quilômetros, distância onde ela morreu enquanto eu dependia de um telefone para começar a tentar entender semelhante perda.

14 – Maurício Azevedo - Quarenta livros e duas filhas depois... Valeu a pena?

Paulo Bentancur- Valeu a pena, sobretudo pelas duas filhas. Talvez duzentos livros depois eu consiga, como escritor, metade da alegria que já tive como pai.

Quarta-feira, Julho 12, 2006

Os Mortos

Haveria verso comum
Houvesse sentimentos comuns.

Mas Jorge morreu na terça-feira
(quando estávamos todos ocupados)
mas ainda ocupados
tivemos que velá-lo no frio.

Depois morreu Maria.
E não fomos ao enterro.

A vida tem suas formas.
Mas comove.

Eleições

Ainda não me ambientei com a novela nova. Não sei sofrer pela Helena. Nem me preocupo com a gravidez da Nanda. Estou refratário para os problemas do Leblon. Ando pela casa pronunciando "Eso no é zerto; patroa boa pezoa", na esperança de trazer de volta o grego Nikos. Gostava de Belíssima. Aprendi muito com Katina. Agora está difícil tocar minha vida adiante. Sou uma vítima da velocidade das relações hipermodernas, dos relacionamentos superficiais. Meus amigos dizem que é preciso resistir. Recomendam que eu vote em Heloísa Helena. Não vou segui-los. Tenho medo da Heloísa Helena, como Regina Duarte tinha medo de Lula. Também não votarei em Alckmin, como quer o Caio. Alckmin é o Cemil da política brasileira. Ainda não decidi meu voto. Só sei que não votarei na Bia Falcão. Esses quatro anos já foram suficientes.

Segunda-feira, Julho 10, 2006

manifesto cordialista V

C I N E M A

1- São proibidas as locações internas;
2- A câmera deve acompanhar as reações dos personagens. O importante é a reação de quem ouve e não quem profere a fala;
3- São proibidas filmagens em praias ou ilhas;
4-Todos os filmes devem ser rodados em digital;
5-Todos os filmes devem apresentar, em intervalos de seis minutos de exibição, frases de grandes filósofos e que em nada tenham relação com a história contada;
6- Os atores não devem usar qualquer tipo de maquiagem;
7- O figurino será sempre extravagante, desobedecendo a qualquer coerência de estilo;
8- Os filmes devem ter a duração de 80 minutos;
9- Os roteiros devem sempre apresentar final feliz;
10- São proibidas as inserções de imagens de animais.

manifesto cordialista IV

L I T E R A T U R A

1- A literatura cordialista é a construção de um tecido verbal que, conciso, diga a que veio e não por que veio.
2- É a literatura da agressão verbal, do impacto, do atrito comportamental;
3-Suas obras representam pequenos retratos isolados e parciais de um tempo ou de uma origem;
4- São proibidas as repetições de estilo ou qualquer tipo de pastiche;
5- A literatura cordialista visa intensificar o erro de cada traço estético do autor, radicalizando falhas e acentuando imperfeições;
6- A poesia deve utilizar técnicas impulsivas onde as obras não marquem o tempo da história, mas a trajetória de um tempo;
7- A narrativa deve ser sempre antilinear;
8- A narrativa do trivial é obrigatória;
9- São proibidas referências ao caráter moral dos protagonistas.

manifesto cordialista III

I N T E R V E N Ç Õ E S

1- Fale alto ao celular, simulando uma conversa com um locutor imaginário, sobre um tema estranho como extraterrestres; ou sobre o envio de um milhão de potes de margarina para crianças africanas.
2-No supermercado, compre somente ameixas e explique, detalhadamente, que são para suas hemorróidas.
3- Sente-se na calçada, no meio da multidão.
4- Reúna um grupo de amigos. Vá a um parque da cidade. Escolha uma pessoa que esteja deitada na grama, tomando sol e cante parabéns para ela.
5- Ligue para pessoas desconhecidas e diga que deseja que todos sejam felizes, apesar do que aconteceu.
6- Reze nos elevadores. E peça auxílio para apertar os botões.

manifesto cordialista II

Quando surge um movimento cultural como este, criado como um vírus de laboratório, a primeira pergunta que todo mundo faz é quanto à sua utilidade. Estaria a literatura precisando de novas diretrizes? Estaria o cinema precisando de regras? Não estaria a arte suficientemente farta de vanguardas?
A resposta é estranha para aqueles que se acomodam na certeza da inutilidade.
É claro que a estética não necessita de paradigmas. A forma é seu próprio modelo. São os artistas que criam estilos para a arte e não o contrário. Mas os cordialistas não estão a serviço da arte. Nem das ideologias. Na verdade, não estamos a serviço de nada. O interesse desse movimento é estimular os Homens a criarem obras que primem pela falta de responsabilidade com o passado e por isso possam renovar o prazer do futuro.
Dez anos após o lançamento do movimento Dogma 95, o Manifesto Cordialista ergue-se na sombra de si mesmo. Não é a necessidade que move esta tentativa. Tampouco o interesse real e imediato em algo que possa ser visto agora. No momento em que o mundo se volta para a praticidade de coisas que dão errado, o manifesto cordialista reivindica a força do inútil, a beleza do supérfluo. Fazemos o que queremos. E erramos onde pretendemos.
Este não é um movimento político, mas uma manifestação cultural. Nua, crua, lisa e nítida. Não estamos vinculados a nenhum partido ou causa solidária. Nossa religião é a ironia. Nossa única verdade é a vontade.

manifesto cordialista

Senhores,
durante muito tempo tivemos que engolir a mágoa daqueles que passaram a vida inteira arquitetando desculpas para justificar seus fracassos. Suportamos professores que queriam ser ministros, farmacêuticos que sonhavam em ser médicos, taxistas que se julgam juristas.
Foram anos vivendo num mundo onde "tédio" era o nome dado à rotina; onde a verdade era uma espécie de pornografia sonora.
Herdamos uma ilusão feita de fumaça e sonho. Herdamos antídotos que não servem para as nossas mazelas. Temos pilhas e pilhas de soluções ingênuas que jamais acabarão com os nossos problemas complexos.
O passado só nos serve como reflexo do que devemos evitar.
Nada acabou. Tudo está terminando.
O presente não destruiu a subjetividade, assim como a diluição do mal não aniquilou o poder do bem. O sujeito é a memória rica de um ser pobre. Precisávamos de uma identidade para reivindicar a liderança. Já não precisamos liderar. Não há adversários, não há mais razão para andar na frente. O discurso do relativismo não levou ao sonho da igualdade, mas ao esmaecimento de todas as diferenças que nos faziam singulares.
O movimento cordialista prega o fim do relativismo cultural e a obtenção da verdade através do atrito psicológico.
Vivemos a ditadura da beleza plástica e o dogmatismo da mediocridade intelectual. Queremos, agora, uma inteligência que comova os olhos, uma beleza que convença a razão.
Para isso vamos afirmar mentiras e inventar verdades. Vamos romper barreiras inexistentes e criar mitos inúteis. Não vamos assassinar o que é velho, mas substituí-lo como as centenas de coisas existentes antes dele. Por isso, da próxima vez que alguém expor a você verdades ingênuas e intermináveis, lembre-se de que você é um cordialista. Você não é essa criança ingênua e desprotegida nas mãos de Michael Jackson. Você não precisa fingir cumplicidade de uma nomenclatura que não emociona. Você não é infeliz. Você não é bonito. Você não é a parte que faltava.
Lembre-se da verdade.
Da sua verdade.
Você não quer ganhar o jogo. Você quer quebrar o tabuleiro.
Você não quer chegar até o fim. Você quer fazer barulho.
Você não quer amor. Você quer tudo.
Você não quer morrer. Você queria nunca ter existido.
Não somos a geração perdida. Somos a geração que perdeu.



Trecho extraído do manifesto cordialista, espécie de movimento estético criado pelo grupo teatral Avesso, no verão de 2005. Reprodução e distribuição livres. Venda proibida. O Grupo Avesso é: Bruno Germer, Mauricio Azevedo, Felipe Minor e Christian Fiorin Gama.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Entrevista

Maurício Azevedo- Qual a influência do Baudrillard, Maffesoli e do Morin no teu pensamento, hoje?

Juremir Machado da Silva – Influência total. De modos diferentes. Eu diria que o Morin me influenciou pelo lado mais político, uma visão humanista, generosa. É o pensamento de quem sempre acreditou nas coisas, acreditou que o mundo pode ser melhor. É o pensamento que quer entender o todo; de quem acredita nas explicações, na possibilidade de superação das dificuldades. Ele é uma espécie de superego. É o pensamento que mobiliza, fiscaliza, cobra, impulsiona. O Maffesoli é uma adesão ao presente. Eu gosto dessa disponibilidade dele de enfrentar os clichês, de apostar na intensidade do aqui e do agora; de acreditar na festa, no gregarismo, nesse dionisíaco. Porém, ao mesmo tempo, coloco um contra o outro. O Baudrillard me admira mais como texto. É o que realmente escreve como um escritor. Eu acho que, com o passar do tempo, talvez eu tenha vontade de me sentir com uma visão mais otimista e intensa como Maffesoli ou mais como o Morin com uma visão mais madura e genorosa. Contudo, tenho me sentido cada vez mais próximo do Baudrillard. Talvez seja ruim isso. Talvez eu esteja ficando mais pessimista, mais irônico, mais desconfiado ou mais cínico. A maneira que o Baudrillard escreve me pega completamente, Essa coisa do paradoxo e da ironia é fenomenal. É um texto que me parece não só inteligente, mas inquietante.

Maurício Azevedo- Nas tuas novelas e nos teus romances como tu trabalhas a questão do Juremir sociólogo e do juremir escritor? Uma coisa não interfere na outra?

Juremir Machado da Silva– Olha, eu devia separar mais , sempre mais. Não por vontade minha, mas porque isso que se espera de um escritor. É uma coisa complicada porque principalmente no Brasil se faz sempre esse tipo de caixinha de compartimento: o sujeito é escritor e a maneira de escrever é uma ou é sociólogo e misturar em geral não pega bem, não dá o retorno que poderia ter. Minhas novelas (mitomanias) são extremamente influenciadas pelo Michel Houellebecq que é um sujeito que faz uma espécie de romance sociológico ou uma sociologia romanceada....mistura tudo: é ensaio, reportagem, crítica da cultura. Eu gosto. Gosto de misturar as profissões. Isso em geral é mal visto. Eu tenho procurado separar um pouco mais, porque isso tudo é uma espécie de negociação com público de quem escreve, com os críticos. Ninguém fica completamente alheio. Embora por tendência, por gosto estético, eu prefira misturar.

Maurício Azevedo- Um caso que já faz parte da cena cultural gaúcha: Érico Veríssimo.

Juremir Machado da Silva- Acho que é um caso superado. No Rio Grande do sul as pessoas conhecem essa polêmica. Eu tive uma discussão com o Veríssimo, escrevi uma crônica criticando o Luiz Fernando, e inclui uma frase criticando o Erico. Disso resultou uma grande polêmica. Em conseqüência, saí da Zero Hora. Já faz dez anos. Não tem muito o que acrescentar a isso. Ela teve todos os desdobramentos: o Veríssimo falou sobre isso, eu escrevi, expliquei. Ela é uma polêmica superada porque isso me entendia. Não tenho nenhuma vírgula pra acrescentar. Já faz parte das pequenas polêmicas de uma comunidade cultural como a do Rio Grande do Sul. Me parece que é um assunto encerrado.

Maurício Azevedo - O Rio Grande do Sul é melhor pra fazer ficção ou história?

Juremir Machado da Silva- Eu acho que é melhor pra fazer história. Ou então romance histórico. O Rio Grande gosta de história. Talvez por ser um estado forjado nas lutas de fronteira, contando sua história à pata de cavalo, ponta de lança. O RS construiu um imaginário épico. E o épico vai bem com a história. Então quando a gente olha romances de escritores que ficaram célebres no Rio Grande do Sul, o caso do Érico Veríssimo de O Tempo e o Vento até os de hoje, Assis Brasil, e mesmo o Tabajara Ruas quando faz coisas que dão completamente certo, geralmente vai pelo viés histórico. O Rio Grande do Sul gosta de história.. Essa minisserie que deu certo, A Casa das Sete Mulheres, é um outro ângulo, a história vista pelo prisma das mulheres, mas é sempre histórico. Dá pra perceber que aqui a história é mais apreciada. Mais que a literatura.

Maurício Azevedo- Tu não te sentes isolado, alienado numa redoma que te rotula como um iconoclasta inconveniente?

Juremir Machado da Silva- Isolado sim. Mas mais do que isso não, porque o isolamento se dá mesmo quando alguém é reconhecido como tal. Eu não sou reconhecido como escritor. Eu sou no máximo reconhecido como jornalista, mas nem jornalista eu realmente sou porque não trabalho mais como jornalista. Eu sou um colaborador de jornal, tenho dois espaços de crônica semanais no Correio do Povo. Publico livros sem ilusão. Meus livros não são considerados como parte da literatura gaúcha. Então, não me vêem como iconoclasta, nem como nada. Alguns me vêem como ressentido, outros me vêem como um iconoclasta não na literatura, mas na cultura, um sujeito que investe contra os mitos. Eu não creio que eu tenha um espaço na literatura. Se o Luis Augusto Fischer escrevesse alguma obra sobre a literatura contemporânea no Rio Grande do Sul, digamos que talvez tivesse uma linha a meu respeito, uma nota de pé de página; certamente não entre os grandes, os consagrados, os conservadores ou os verdadeiramente iconoclastas. Esse é o lugar que deve ser reservado ao João Gilberto Noll. Esse é um solitário. Tem um estilo e um projeto estético diferente e reconhecido.

Maurício Azevedo- Escrever te seduz mais em que condição: quando tu escreve um livro e faz literatura, ou quando tu escreve uma crônica e faz comentário?

Juremir Machado da Silva- Escrever seduz sempre. Outro dia eu ouvi uma frase do Sinval Medina, que publicou recentemente um belo romance chamado A Faca e o Mandarim, sobre o assassinato do Pinheiro Machado. E o Sinval diz que ele não vive do que escreve, mas que escreve pra viver. E escrever é assim. É algo muito prazeroso. Às vezes é cansativo. Mas é sempre prazeroso. Escrever é um ato erótico. Pra quem gosta, eu acredito que é o mesmo tipo de relação do alcoólatra com o álcool ou de um drogado com sua droga. Escrever é um objeto feminino para quem ama as mulheres, ou mesmo masculino para quem ama os homens. É muito prazeroso. É claro que escrever literatura é uma experiência criativa, um investimento total. Eu queria escrever poesia. Enquanto o sujeito passa quatrocentas páginas pra uma bobagem, vem alguém como o Baudelaire e em catorze versos liquida a questão. Diz tudo. Poesia é tudo o que o romancista queria alcançar em termos de concisão. Escrever é sempre maravilhoso. Mas é claro que cada época tem seu gênero. Eu estou convencido de que hoje o gênero mais adequado para o nosso país é a crônica. É uma coisa mais rápida, mistura o enternecedor com o riso, com o escárnio, a critica. Chega mais rápido ao leitor. Isso no entanto não acaba com a vontade de escrever coisas mais longas. Eu escrevo crônica para o Correio do Povo toda semana, mas escrevi um romance de quinhentas páginas sobre Getulio Vargas. Escrever é uma coisa que dá vontade de fazer sempre mais.

Maurício Azevedo- Por que Getúlio Vargas? Pra derrubar o mito, fortalecer o mito ou estudá-lo?

Juremir Machado da Silva- Olha, é pra tentar entender a complexidade do mito. Getúlio é um personagem por natureza. A gente sabe que se divide os personagens em planos e profundos. O Getúlio foi tudo. Tem o getulio oligarca, ditador, eleito pelo povo, pai dos pobres, revolucionario, suicida pra lavar sua honra; o Getúlio maquiavélico, populista, o Getúlio que fez avancçar as leis trabalhistas. Ele é tudo. É mulherengo e absolutamente retraído. Ele é muito mais complexo do que os ditadores da América Latina. Ele mais do que protagonista, é personagem. Ele manipulou americanos e alemães. Melhor personagem num contexto como nosso, de quem ama a historia.

Maurício Azevedo- De Santana do Livramento até agora, nessa mesa. Foi fácil chegar até aqui. Essa rota era impensada ou tu já imaginavas que seria exatamente esse o caminho que tu ia trilhar?

Juremir Machado da Silva- Meu caminho? Eu acho que é um caminho bom. Cheio de percalços. Eu não me inclino, nesse sentido nem pra Maffesoli nem pra Morin nem pra Baudrillard. Eu acredito profundamente que as condições sociais, o lugar onde se nasce, o tipo de família de onde se vem, o berço etc influem muito no tipo de caminhada que se vai fazer. Uma coisa é nascer em berço esplêndido, falar de Sartre no almoço... ainda assim pode dar errado. Outra coisa é tu nasceres numa família humilde e ter que trilhar todo caminho. Ou seja, tu não vais descobrires Sartre no almoço, tu não vai descobrir o padrinho literário no jantar, nem a porta pra editora num coquetel no caminho. Tu vais fazer todo caminho sozinho, com os aliados que tu conquistares, mas que serão exteriores ao teu ambiente de partida. É obstáculo em cima de obstáculo. Às vezes eu me vejo com certa condescendência. Eu penso "poxa, eu sou um guri de Palomas que abriu um caminho, meu caminho pode ser do ponto de vista de cima absolutamente pequeno, mas do ponto de vista de quem sai de Palomas é um bom caminho".

Maurício Azevedo- A Flip. Tema da tua última crônica. O leitor virou tiete o tiete virou leitor?

Juremir Machado da Silva- O tiete com certeza não virou leitor. Não virou nem vai virar. Os leitores sim estão virando tietes. Os organizadores da Flip levaram Chico, Arnaldo Antunes, enfim, estrelas. A situação era de espetáculo. Não porque aquelas pessoas estavam mergulhadas na literatura. O Auster era o melhor escritor lá e ficou absolutamente ofuscado. A Flip não é uma discussão sobre literatura e sim sobre estrelas...

Maurício Azevedo- Diogo Mainardi e Lya Luft escrevem na Veja. Isso é sinal de democracia ou isso significa que o público não sabe o que quer?

Juremir Machado da Silva- Não. A Veja é uma revista pra um grande público. Precisa se dirigir pra pessoas diversas, perspectivas variadas, não tem nada de anormal nisso. Talvez o Diogo seja o ponto anormal da revista. Todos os outros estão dentro das tentativas de veiculo de agradar o leitor.

Maurício Azevedo- Três anos sem ir a um shopping Center. O que há de errado com os Shopping Centers, ou que há de tão correto neles que te incomoda?

Juremir Machado da Silva- Eu não saio muito. Não sou um sujeito de fazer compras. Não sou um sujeito de andar na moda. Gosto de cinema. Mas nunca vou aos de shopping. Eu acho a estética do shopping uma estética fria, congelada, asséptica. Um ambiente desagradável, sem personalidade. É como estar num quarto de hotel, num hall de hospital ou no saguão de um aeroporto. Eu prefiro ir ao mercado público. Shopping Center simplesmente não me atrai.

Maurício Azevedo- Se o mundo terminasse hoje e tu tivesses a responsabilidade de salvar alguma coisa da nossa civilização, algo que nos representasse, o que tu salvarias?

Juremir Machado da Silva- Eu escolheria um poema do Baudelaire. Eu escolheria uma foto da Ana Paula Arósio nua. Eu digo nua por exagero, porque é assim que os homens pensam as mulheres bonitas. Eu escolheria uma foto do rosto da Ana Paula.

Maurício Azevedo- O que tu ainda queres fazer profissionalmente?

Juremir Machado da Silva- Escrever muitos romances. Conseguir espaço para escrever romances cada vez mais intimistas, pessoais, sem necessidade de lastro externo. Escrever o que vai na minha cabeça sem precisar de nenhum avalista externo.

Maurício Azevedo- Michel Houellebecq e Paul Auster são os melhores. Tem mais alguém por aí?

Juremir Machado da Silva- Tem um monte de nomes que eu gosto. Tem um nome que a Record publicou no Brasil agora, chamado Jonathan Coe, que é um inglês. Tem um livro de um cara que eu li recentemente, ele se chama Chuck Pallaniuk... comprei dele o Sobrevivente, um humor arrasador, de má-fé, uma coisa absolutamente iconoclasta. Tem muito escritor bom por aí. Uma das coisas mais injustas que se diz é que não existem grandes escritores. É claro que são escritores diferentes. Essa coisa de contar historinhas com início meio e fim isso é muito chato. Agora tem escritores norte-americanos, ingleses, franceses.....cada dia eu descubro novos escritores. Eu podia passar a vida inteira lendo. O que eu vejo é que não há grandes escritores brasileiros. Estão cada vez presos a uma forma um tanto desgastada e convencional de contar. O último escritor que eu li e gostei foi o Marcelo Mirisola. Bem sacudido ele pode ser um craque, se ele ficar, no entanto, entregue à volúpia dele mesmo, talvez ele seja apenas uma promessa. Mas no Brasil é o que há hoje de mais instigante.

Maurício Azevedo- E em poesia? Tem se produzido alguma coisa boa ou é melhor ficar com o passado?

Juremir Machado da Silva - Olha, que eu saiba não. Se tem grandes poetas no Rio Grande do Sul, eu desconheço. Eu posso citar grandes romancistas, grandes contistas.

Maurício Azevedo- Ivan Lessa disse que ao escrever devemos tratar a humanidade aos tapas e pontapés. Isso é um bom conselho ou apenas uma piada estética?

Juremir Machado da Silva- Não sei. Eu acho que tem que se tratar o leitor sem adulação, mas não sei se isso significa tratá-lo a socos e pontapés. Tem que tratar o leitor com um ser capaz de ser dotado de inteligência; escrever para esse tipo de leitor, se os outros não poderem ler, que não leiam.

Maurício Azevedo- O que realmente faz um livro ser bom?

Juremir Machado da Silva- Um texto capaz de alternar paixão, enternecimento com humor e ironia, crítica radical, um texto que vá da bondade extrema à crueldade absoluta. Um texto que transmita intensidade, que seja passional, que seja envolvente, que te faça chorar e rir. Que tenha grandes idéias e que se sinta a inovação do estilo. Uma entrada na matéria. É como um jogo de futebol, quando o sujeito dá um drible excepcional todo mundo vê o que é uma grande técnica, quando o sujeito trata a bola à caneladas idem. Livro é a mesma coisa. A gente vê "esse cara escreve com os pés", enquanto em outro escritor a frase dança, te desconcerta. Como uma música. É arte.

Maurício Azevedo- Machado de Assis é considerado até hoje o maior escritor brasileiro. Ele é realmente o maior ou só pode ser considerado?

Juremir Machado da Silva- Eu não consigo entender essa coisa: só os do passado são grandes e ninguém vai superá-los. Não vejo porque não se poderia considerar Gabriel Garcia Marquez tão grande quanto ele, por exemplo. Machado foi um grande escritor. Ele escrevia bem. Mas é do século dezenove. Hoje não valeria a pena repeti-lo, seria como fazer um quadro renascentista, seria uma mera cópia. Há muita gente que faz cópia. É preciso inventar os estilos de hoje. Nos estilos de hoje temos escritores tão grandes quanto Machado de Assis, não nó Brasil, que é um país fraco de escritores, mas Paul Auster, por exemplo, não deve nada a Machado de Assis.

Maurício Azevedo - O que mais te irrita no Brasil?

Juremir Machado da Silva- A necessidade de ter clássicos à força. Essa coisa absolutamente reverente. Essa tentativa de impor clássicos, de consolidar, de cimentar os clássicos. Então tratamos os clássicos com toda bajulação possível, não cobramos nada, perdoamos todos os seus defeitos. Outro dia eu li um texto do Jerônimo Teixeira, na Veja, sobre os canalhas geniais, tipo Céline. Eu acho que a gente devia cobrar isso dos brasileiros também. Não que eles tenham sido canalhas, porque nós ficamos sempre no meio termo. Machado de Assis, por exemplo, do ponto de vista racial foi um frouxo. Não que ele devesse nas obras dele fazer qualquer tipo de proselitismo. Até que em algumas a questão racial aparece bem colocada. Acho que ele devia ter sido como cidadão, como pessoa, um abolicionista convicto. E ele não foi. Ele escamoteou isso. Ele se escondeu, não assumiu essa questão. Isso seria fundamental para a genialidade dele. Então eu acho que a gente devia cobrar. A grande parte dos nossos escritores arranjou uma "tetinha" no Estado Novo. Drummond foi chefe de gabinete do Capanema. Todo mundo se arranjou. Boa parte do tempo nossos artistas dão um jeito de se arrumar. Depois eles dizem que "resistiram
bravamente".

Maurício Azevedo- Como o Cony?

Juremir Machado da Silva- Como o Cony. Aliás o Diogo (Mainardi) definiu muito bem o Cony: "O Cony resistiu bravamente à ditadura como diretor da revista Desfile. E escrevendo os editorais e discursos do revolucionário Adolfo Bloch." Depois, vira uma resistência total que merece pensão de dezenove mil reais.

Maurício Azevedo- O que te agrada no Brasil?

Juremir Machado da Silva- A melhor coisa do Brasil é a música popular. Aí nós somos geniais. Chico, Gil. Em música popular nós somos melhor até do que no futebol. No futebol nós cedemos às táticas modernas, os esquemas retrancados. A música popular é o que mais me encanta.

Maurício Azevedo- Em que tu achas que tu ainda não é suficientemente bom?

Juremir Machado da Silva- Eu não saberia dizer, é certo que eu não devo ser muito bom em nada, e que em tudo pode se melhorar. Sempre se pode escrever melhor, sempre se pode fazer mais perfeito. Mas isso é muito mais adequado aos outros dizerem. Não sei quais são minhas qualidades, nem quais são exatamente os meus defeitos. Sei que são maiores que as minhas qualidades. Eu sei que eu sou um mal jogador de futebol. Esteticamente falando, é mais complicado, pode ser que eu seja ruim mas pode ser que eu tenha um projeto estético diferente. Pode ser que eu esteja racionalizando a minha ruindade. Talvez nem eu mesmo saiba. Talvez o tempo me dê razão. É complicado analisar. Talvez alguém possa explicar por mim depois o que hoje eu só intuo.

Quarta-feira, Julho 05, 2006

Seleção

Pela ordem, os dez mais importantes livros que a literatura universal já conseguiu produzir, aqueles que eu queria ter escrito.

1- HAMLET, Shakespeare
2- METAMORFOSE, Kafka
3- PARTÍCULAS ELEMENTARES, Houellebecq
4- CRIME E CASTIGO, Dostoiévski
5- O ESTRANGEIRO, Camus
6- AS CORREÇÕES, Franzen
7- LAVOURA ARCAICA, Nassar
8- VIDA E ÉPOCA DE MICHAEL K., Coetzee
9- O JOGO DA AMARELINHA, Cortázar
10- FIM DE CASO, Greene

O silêncio

Minha agente é aidética. Faz doze anos que tem o vírus. Fiquei sabendo ontem. Desde o meu primeiro livro, em 1999, meu tema tem sido a morte. Não posso evitar. A questão não se esgota nunca. Sei que Lucia vai morrer nas próximas horas. Sei que a morte aparece de repente. E para todos. Mas não me conformo. Sou mesquinho. Alguém da família confirmou que Lúcia está na fase final de sua luta contra o pneumocystis carini (tipo de infecção pulmonar comum em portadores de HIV). É um modo de ver as coisas. Lembro que sou o autor do seu conto favorito. Perco a minha melhor leitora hoje. É o meu modo de ver as coisas. Abaixo transcrevo o conto que ela tanto gostava; e que chamava de "pedaço de Cortázar":


"Tu sabes quantas gurias me disseram não antes de eu decidir me casar contigo?"
Era assim que eu tratava a desgraçada. E ela chorava. E batia no meu peito com as mãos fechadas. Ela e uma espécie de cartilagem que ela tem na cara e que, por associação, chamam de nariz. Ela comprava uns quadros esquisitos no Carrefour. Depois, enchia a área de serviço com cáctus. Acho que o homem ideal pra ela era o gurizinho do 301, mas não vai dar. Ele gosta de loiras com cabelo longo e quadril de migalha. Ele tem cabelo longo, é loiro com quadril de migalha. Uma pena que não entenda. Ela gostava de Legião Urbana. Com moletons da Gang e a porra toda de ser amada pelo que é por dentro. E por dentro é uma besta. Eu vi. Pra me livrar dela eu comecei a misturar semiótica com vodca, Baudrillard com cuba libre. Tudo pra comer uma mulher melhor. Mas só consegui a carcamana. Eu metia forte. Lambia direitinho. Queria que ela me amasse, para depois enfileirar uma série de descontos e de pequenas maldades. Mas as gostosas não amam. Eu fiquei com a mais feia, pra não ser traído. Quem não sofre faz sofrer. É a vida. Amar é ajudar um imbecil a te magoar. E eu amei. Ando interessado em mim agora. E na sociologia hipermoderna. É por isso que não me importo com a preocupação dela. Astrologia pura. Ela acredita que a vida é exatamente o que a gente quer que ela seja, e me diz, no auge da autoridade de uma consumidora de Iogurte desnatado: "Então muda". Como se mudar pra mim fosse o mesmo que mudar pra ela. Como se eu não fosse o que tenho sido há tanto tempo por pura falta de força, embora esteja fazendo tamanha força para continuar assim e não piorar. Mas eu pioro. Tenho piorado como algodão no mar. E ela insiste com sua voz: "Então luta". Como se lutar fosse apenas bater num adversário humano, da mesma categoria. Como se a vida fosse uma temporária luta de boxe e os adversários tivessem o nosso tamanho, com folgas, regras e um país inteiro torcendo por nós. Antes de hoje eu estava no leito de um hospital público. E antes na faculdade de Sociologia. Bem antes, assistindo. Chorando. Eu tentei fazer melhor, comer mais putinhas de escola. Fazer francês. Mas era tudo a mesma merda. E falavam de uma espécie de liberdade que não tinha nome. Mas se não tinha nome não existia. Mas elas falavam assim: "É uma coisa meio, sabe? Tipo uma coisa inexplicável, sei lá" Mas eu tinha que entender porque tem coisas que não têm nome, insistiam as outras. Então eu fiquei com ela mesmo.
Como o celular tocava. E hoje é só Cláudia do escritório ou Ricardo, pedindo mais dinheiro para um projeto espetacular que está começando a empreender. Ela já não diz nada. Sou sua segunda opção. Antes de mim tem o judeu que ela espera. Mas eu não posso dizer a ela, hoje, em seu aniversário, que estou cansado. Tenho que esperar uns dias. Talvez depois do dia dos pais, tempo depois, mas não muito, antes que a primavera chegue e num dia em que não esteja menstruada, para que tenha a chance de se apresentar ao primeiro aluno que se ofereça a ela, com sonhos de salvá-la. Sim, estou reagindo, diria ela. Mas reajo como o papel reage ao fogo.
Sei que é tarde. Faço essas coisas para mostrar a ela que essa música não comove ninguém. Mas ela continua a levantar. E a sair pelo quarto nua, ao som de um Chopin clichê. E continua com suas lições, suas pinturas, seus pôsteres da APAE. Distraída, não percebe que só pretendo perder meu tempo. E, agora, dança. Posso chamar isso de corpo? Danço também, mas danço para levantar esse cadáver que me olha e promete com boca de veludo, somente pra mim, uma folga."

Poesia Hoje

Preso às asas de um mosquito
O velho procura o resto do corpo
E no ralo pretende reencontrar o que via.

A morte vem lenta
Lá longe
Anda, anda
Pára.
Descansa.
Mas chega.

E quando chega
o velho, já sem esperar, abraça o vulto do pai
O pai morreu há tanto tempo, mas lembrou de vir buscá-lo.

Antes de abraçar a morte
Eu abracei meu pai.

Domingo, Julho 02, 2006

Au revoir, Parreira

Perdi dois minutos de sono pensando nas razões da eliminação do Brasil. Depois, concluí fácil: a culpa é do Parreira. Fiz um dossiê sobre ele. Espero que o Ministério Público o indicie por burrice. Leitor confesso dos livros de Dan Brown, Parreira escolheu a música EPITÁFIO para incendiar os jogadores da seleção. Em maio, lançou um livro chamado FORMANDO EQUIPES VENCEDORAS. Li atentamente. Sou melhor do que Parrerira escrevendo. E como técnico. Dida, Juan, Lucio, Gilberto, Cicinho, Zé Roberto, Kaka, Juninho, Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Fred. Esse teria sido meu time. Eu teria levado o Brasil a uma vitória sobre a França, Portugal e, após uma goleada de quatro a um, calaria o estádio na final contra a Alemanha. Até o conteúdo da minha mala seria melhor do que o do Parreira. Eu leio ótimos livros. À beira do campo: eu (vestindo camisetas Lacoste pretas ) O Brasil faria preleções ao som de ATÉ O FIM, do Chico Buarque. Uma leitura labial revelaria que eu não falo palavrões. E que o meu sonho mesmo era ter treinado a seleção de 1970.

Quinta-feira, Junho 29, 2006

Numerologia

Fui informado que Luiz Maurício Azevedo é o nome de um autor espírita. Como não achei nada no Google, presumo que o tal autor não exista. Infelizmente nem todo mundo confia no Google como eu. Assim, a partir de agora assinarei meus fracassos editoriais como Maurício Azevedo. É uma precaução. Tenho outras. Um dia me animo a contá-las. A Lúcia, minha agente, afirma que há 84 Maurícios Azevedo no Google. De qualquer forma, nenhum deles é escritor. Pensei em aproveitar a oportunidade e adicionar um y. Algo como Maurycio Azevedo. Cogitei mandar um e-mail para a mãe Dinah, indagando sobre a viabilidade cabalística do meu y, mas desisti antes. Tenho medo da mãe Dinah.

Terça-feira, Junho 27, 2006

Freud, Galvão e outras perfeições

Não era um dia de primavera. Nem uma noite de verão. Contudo, também tive um sonho como fotografia: vi Galvão Bueno narrar minha morte.

"Bem, amigos da Rede Globo. Voltamos em definitivo direto do Cemitério João XXIII para curtir todas as emoções do enterro de Luiz Maurício Azevedo. Você vê aí imagens da belíssima capital gaúcha, faz frio aqui. Hoje pela manhã choveu um pouco, aquela chuva fina que o portoalegrense costuma chamar de chuva do diabo. Vamos fazer uma coisa? Vamos direto com o Mauro Naves que tá lá embaixo e vai mostrar os bastidores do velório."
"Pois é, Galvão, a gente tá aqui ao lado do Jeanderson, ele que é coveiro aqui; ele tava contando que tá tudo pronto para a hora do sepultamento. É isso, Jeanderson?"
"Isso mesmo. A gente tá fazendo de tudo pra dar um espetáculo bonito pro morto, né?"
"É com você, Galvão".
"Muito bem. Nossa equipe leva a você todos os detalhes desse momento histórico. Recebe todas as justas homenagens pela brilhante carreira que fez na literatura, o Luiz Maurício Azevedo. É a coroação desse caso de amor que esse país tem com a sua literatura, e em particular, com esse autor que morre hoje. Olha que imagem bonita, amigo. Uma borboleta pousou por sobre o caixão. Essa imagem é gerada por uma das doze câmeras exclusivas da tv Globo. Você vai vendo aí a Dona Sonia... ela faz ali uma graça com o arranjo de flores que fica logo à frente do corpo do escritor. Agora a gente vai direto pra Bahia, pro Pelouro. É com você, Viana Orlando."
"Galvão, o Olodum continua aqui fazendo uma corrente positiva, esperando que o morto se levante, e que venha participar da festa armada pro seu enterro. A animação começou ainda pela manhã, mas não tem hora pra acabar".
"Vale sua torcida em casa. Em todos os cantos do país, de norte a sul, torcendo por uma reviravolta, por um lance de genialidade individual que sempre pode acontecer quando o assunto é esse escritor fenomenal. Há mais de dois mil anos Jesus conseguiu. A situação era outra, mas a vontade é a mesma. O caixão vai sendo fechado. Haja coração, amigo. Uma vida que parecia pacata torna-se dramática no final. São três coveiros contra o caixão. Toca de lado, tenta encaixar na gaveta. Encaixa errado. Vai tentar novamente só que por cima, dessa vez tentando a ligação pelo jogo aéreo. Arnaldo, não seria a hora do juiz marcar a existência de uma catalepsia?"
"A regra é clara: todo homem é mortal. O juiz está correto no lance"
"Aí o Arnaldo, sempre seguro. É teste pra cardíaco, amigo. Chegamos aos 90 minutos de velório. Ficamos por conta de Deus. O caixão vai sendo colocado milimetricamente ali. O que se esperava era uma reviravolta que, infelizmente, não veio. Errrrrgue o braço o coveiro número três. Termina a vida de Luiz Maurício Azevedo. Acaba aqui uma trajetória de sucesso e inovação de um brasileiro que escreveu seu nome na história da literatura universal. Fica aí a esperança de dias melhores para o mercado editorial do brasil. Justo esse mercado que já deu tantas contribuições às letras do mundo, e que agora vai lamentavelmente perdendo aquele que sem dúvida nenhuma era o seu maior orgulho. A gente vai ficando por aqui, agradecendo sua audiência. A seguir você fica com mais um capítulo inédito de Sinhá Moça. Tá na Globo? Tá na Cova!"


Foi assim. Desde que a Copa começou, tenho tido sonhos estranhos. Na semana passada sonhei com Jack Bauer. Ele havia descoberto que terroristas togoleses pretendiam assassinar Rivaldo, então me procurou para que eu fizesse o assunto chegar a Lula. Não sei por que Rivaldo; não sei por que eu; não sei por que Bauer acreditava que Lula faria alguma coisa. Na verdade, sou como o próprio Lula: não sei de nada. Nunca. Só sei que Galvão Bueno tem sido a melhor atração dessa copa; e tem comandado o verdadeiro quadrado mágico, ao lado de Arnaldo, Falcão e Casagrande.

A Copa

Parreira way of life: se não der pra empatar, a gente ganha.

Terça-feira, Junho 20, 2006

literatura e o cinema

A primeira adaptação de um texto meu para o cinema vai ser de Caco Barcelos. Não o repórter da Globo, mas o cineasta. Paulista radicado em Londres, Caco vai adaptar um conto chamado DAVENE. Também cedi os direitos para montagem teatral de UM E MEIO, monólogo com estréia prevista para dezembro, em São Paulo. Gosto de ceder meus textos. Em geral, eu mesmo os ofereço. Sou um camelô da literatura, tenho de tudo. Descrições para comunidades do Orkut? Sim, tenho várias. Epitáfios para vizinhos? Claro, pode levar. Interpretações sobre a obra de David Lynch? Dez reais a dúzia. Apesar disso, não consigo gostar das adaptações dos outros. Ontem fui assistir Pergunte ao Pó. Ruim, claro. Como foi ruim a filmagem de Fim de Caso. O cinema dos outros raramente combina comigo. Minha Camila Lopez era mais magra, mais feia e infinitamente mais cansada que a estonteante Salma Hayek. Meu Arturo Bandini não era tão psicanalisado como o Collin Farrell de Robert Towne. Pode ser que um dia eu mude de idéia a respeito disso. Sou um cara flexível, afinal. Estou disposto a rever meus conceitos, se necessário. Por sorte, não tem sido.

Quarta-feira, Junho 14, 2006

a literatura dos outros

Nos últimos cinco anos nada de novo surgiu na literatura brasileira. Há autores de idade avançada renovando seu estilo; há senhores começando a publicar agora. Mas não há nada de realmente novo. Muda-se o vocabulário aqui, elimina-se uma vírgula ali, inverte-se uma ordem sintática acolá. E assim tá feito: um novo autor. Depois ele entra numa dessas oficinas literárias ministradas por autores que nunca escreveram um só livro que preste. É como chamar o Mazinho para ministrar um curso de futebol-arte. O trabalho finalmente se completa com o apoio dos suplementos culturais. Não existe mais resenha, existe release. Antes todos queriam ser o Kafka, agora todos querem publicar. Não escrevi um grande romance? Ah, nossa Era Digital é do conto curto. Personagens sem profundidade? Culpa da superficialidade dos nossos tempos. O quê? Você não gostou do novo livro desse magnífico publicitário? Mas como? Ele até será adaptado para a telona pelo genial cineasta, também publicitário, que inclusive venceu o festival de gramado do ano passado. A literatura brasileira vive de cadáveres. Um novo-velho livro de Rubem Fonseca, uma boa reedição da obra de Raduan Nassar. Estamos centrifugando a estética; comendo pelas beiradas uma literatura feita à base de restos. Tudo bem que Mazinho deu uma grande contribuição para o futebol brasileiro, mas foi Romário quem venceu a copa de 1994. Algumas coisas têm que ser ditas. Mesmo que seja apenas eu a dizê-las.

Terça-feira, Junho 06, 2006

Memória Estética

Queria ter esquecido muita coisa. Você também, eu sei. Ninguém é um museu voluntário. Em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças isso é possível. Na vida real não. Kaufman não é Deus, não pode arranjar uma saída confortável para todos nós. Estamos presos nas limitações do roteiro. Sim, há um roteiro. Na vida real as coisas terminam. Sua mãe vai terminar. Até seu amor pela poesia francesa vai desaparecer com o tempo. Às vezes não há desgraça ou adultério, mas dissolução e descaso, tendência lenta de apagar-se sem fúria. É o natural desgaste de tudo o que está vivo. É a decadência do sonho, o triunfo do real. O que antes era orgulho, agora é vaidade; o que antes era generosidade, agora é servidão. Acostume-se com isso. Outras vontades vão surgir. E todas irão igualmente sumir. Aceite o que virá com a resignição de um autista. Entenda não apenas o que está ao seu redor, mas principalmente o que se recusa a ficar ao seu redor. Anote a verdade. Lembre-se de que antes de rejeitar, você quis. Antes de odiar, você amou. Queria ter dito isso para muita gente. Principalmente para mim. E se falo disso agora é porque a memória é estética. E certas coisas nem fica bem a gente lembrar.

O preço da irreverência

Disseram que só tinha quatro pessoas no enterro do Campos de Carvalho. Não sei se é verdade. A única coisa que eu sei é que jamais teria coragem de escrever uma linha se ele não tivesse publicado Chuva Imóvel. Não concebo uma história da literatura sem transgressores. É preciso fazer sangrar o texto, insultar cada convicção da vida. Leitor gosta de apanhar. E eu gosto de bater. Nas vezes em que não bato na sociedade, bato nos meus pais já mortos. Nas vezes em que não bato neles, bato no vizinho. E quando já não sobra nada pra atingir, bato em mim mesmo. É pancadaria total. Surra moral; tentativa de machucar o intelecto; busca incessante por criar hematomas no lado de dentro do cérebro. Uma frase bem colocada faz o cérebro se mover dentro da caixa craniana. O desmaio é certo. A derrota também. Nocaute. Aprendi com Mainardi, que por sua vez aprendeu com Ivan Lessa, que também deve ter tido seus superiores. Tornar-se repetitivo como somente um reumatismo sabe ser; enojar o resto até que não desconfiem mais de você. É assim que se faz. Infelizmente, no meu enterro haverá mais do que quatro pessoas. Não me levam a sério. Sou o Peter McNeeley da crônica. Não importa. Terá valido a pena cada segundo na frente de Mike Tyson; afinal de contas, quem bate também apanha. Terceira lei de Newton, que por sinal também me ensinou alguma coisa.

O maior de todos

A moda agora é reduzir. Tudo está menor: cartões de crédito, celulares, cérebros. O problema do mundo parece ser mesmo o tamanho. Uma empresa do Canadá promete lançar um mp3 que mede 3 cm. É menor que um salário mínimo, mas funciona. Décadas antes, Marta Suplicy havia garantido que tamanho não era documento. Estava enganada. O tamanho é a obsessão humana, nossa verdade mais séria. A maior rede de fast food do planeta, preocupada com a onda natureba que tomou conta do mundo hipermoderno, anunciou que vai reduzir o tamanho de seus produtos, criando porções menores para clientes que não querem ficar maiores. Os carros populares, por sua vez, estão cada vez menores por fora, apesar de maiores por dentro. A lógica do minimalismo tomou conta de tudo. Tudo deve ser reduzido: gastos, gorduras, palavras. As abreviações estão em alta. A única coisa que não se reduz é nossa vontade de consumo. Sim, mais do que vítimas da sociedade, somos as tietes frágeis do Real. Cidadania é uma palavra que só existe em letra de música de banda pop com visual talibã. Nada mais justo. Ser consumidor é muito maior. Enquanto o cidadão tem direitto a voto, consumidor tem direito à carro, apartamento duplex no Morumbi, opiniões sempre renovadas pela manifestação do bom senso comum. O consumo resistiu ao fenômeno da redução. É a nossa vontade mais forte, nosso legado mais consistente. É finalmente a vitória da vontade sobre a ética. Transformamos a religião numa previdência divina. Esperamos ansiosamente que um deus qualquer conceda nossa aposentadoria moral. A velha espécie humana sumiu. Somos agora mamíferos digitais. Quero o meu código de barras na panturrilha esquerda. Entramos numa fase otimista. Agora não podemos ser roubados, só vendidos. Não poderemos ser enganados, no máximo embalados. O futudo é bem maior do que planejavam nossos avós. Tamanho, novamente.

Sangue e Ternura

Nem sempre se entende. É por isso que existem as religiões, a torcida. Entender é admitir. Mas o que fazer quando entender exige do ser humano uma civilidade da qual ele não é capaz? O que fazer quando a delinquência dos outros ameaça engolir nossa inteligência? Esse é o argumento central de Irreversivel. A obra de Gaspar Noé é prima porque cumpre o que promete. Monica Bellucci encarna a protagonista de um mundo onde as escolhas são ilimitadas e, por isso mesmo, virtuais. A vantagem está na ausência de obstrução divina nas ações humanas. O ônus é a fragilidade do ser livre que, além de sufocar-se em sua própria potencialidade, tem que suportar a debilidade dos movimentos do Outro. Não é uma nova realidade revelada através de monstros invisíveis ou pílulas vermelhas. Não é o futuro, nem as sombras. É o presente, o espelho. Tudo cheira a novo, a uma violência que ofende muito mais a memória do que a razão. Esse diálogo quase impossível com o Real produz a certeza de que a ilusão é somente uma faculdade do pensamento. Você sabe do que eu estou falando. O bem sempre vence no final. Noé nos prova que isso não é um consolo quando as coisas começam onde deveriam terminar. Mas não se pode abaixar a cabeça, dizem.

Compras

Trazido ao público brasileiro por uma reportagem de Carlos Graieb, o livro Rotten Reviews é uma coletânea dos maiores absurdos já produzidos pelos críticos mais consagrados. O resgate começa nos primórdios da crítica literária, em 411 antes de Jesus, e se estende até o século XX. Há o registro de todo tipo de asneira, desde a mais ingênua opinião sobre o insucesso mercadológico de Alice no País das Maravilhas, até a rejeição de Virginia Woolf à obra de James Joyce. Rotten Reviews denuncia, sem pretensões morais, gente que transformou o exercício de análise literária em tentativa débil de atingir o produtor da obra. A leitura vale pelo esforço em relativizar o peso das opiniões dos críticos nas decisões do público. Comprei hoje no Submarino. Vocês não tem nada a ver com isso, eu sei. Só queria me exibir.

Segunda-feira, Junho 05, 2006

A Bola

Borges não gostava de futebol. Nem dos negros. Por sorte minha, sua literatura era uma sopa estética rala, com a sofisticação de um pedaço sujo de papel celofane. Borges está morto, não pode falar mal de ninguém. Eu posso. Então, escrevo contra ele esse depoimento inútil sobre a única paixão que jamais atravessou uma crise: a bola. Eu me lembro da copa de 86. O Brasil foi desclassificado pela França, nas quartas-de-final. No dia seguinte aprendi a ler. Cada copa é uma desculpa para lembrar de alguma coisa que um dia foi o nosso campeonato particular. Na de 1990 eu completei o álbum da Elma Chips. E acertei que a Argentina perderia para Camarões. Não consegui, prever, contudo, que Maradona nos desclassificaria. Depois veio 94. Eu não sabia que o Brasil podia realmente vencer uma copa do mundo. No meu imaginário vencer uma copa era coisa do passado. Em copa a gente torcia, gritava, esperava... para, no final, ser desclassificado por uma seleção antipática. Eu não contava com Romário, com o Taffarel pegando pênalti. Não dormi na noite da final. Toda criança sonha com uma realidade redonda, futebol era a minha. Em 1998 Romário foi cortado; Ronaldo sofreu uma convulsão; e eu descobri que a Elma Chips era uma empresa do Grupo Pepsi Cola. Perdemos a copa. Não apenas aquela, mas a de 1950 e tantas outras, das quais ainda não sabemos onde foram nem como. Porque, ao contrário do que o cego Borges pensava, futebol é coisa para homens. De verdade.

Domingo, Maio 28, 2006

O Amor

Minhas previsões vão se confirmar: Lula será reeleito. Analistas norte-americanos acham que há três explicações para essa morte anunciada:
a) o eleitorado não tomou conhecimento das denúncias de corrupção
b) o PSDB parece não saber explorar a crise política do governo
c) programas como o bolsa família seduzem o eleitorado de baixa renda.

Os analistas não entendem o Brasil. Eu, sim. Ora, até o Jamanta sabe do caso Telemar. Quanto ao PSDB, está claro que quer esperar o horário eleitoral gratuito para atirar as pedras no telhado de vidro do PT. Por fim, resta a hipótese da sedução do bolsa família. Lamento, mas nem o povo se vende por algumas notas de dez reais. Lula será reeleito por um motivo mais simples, mais real: é amado. Sim, o povo está seduzido por ele. Examente como ficou seduzido por Sonia Braga. Fará tudo o que Lula mandar. É um amor esquizofrênico, como o de Julia por André, em Belíssima. Um analista frio diria que o povo está apalermado. Eu sou genoroso. Reconheço o poder da burrice voluntária. Eu mesmo já estive apaixonado, não por Lula - que é brega - mas por uma italiana que não conseguia pronunciar as oclusivas bilabiais. O amor é assim mesmo.

Quarta-feira, Maio 17, 2006

Um advogado de si mesmo

Uma opinião lúcida não é, necessariamente, uma versão correta. Que Michel Houellebecq trabalha com os pilares da hipermodernidade... é fato. Que seus protagonistas não sobrevivem à eventual alegria amorosa de um leitor feliz... é óbvio. Entretanto, não se pode condenar um autor por sua capacidade de fotografar o momento atual. Se a função do escritor é narrar, Houellebecq cumpre seu dever. E o cumpre bem. Por que estou escrevendo isso? Porque é a forma que encontrei para falar bem de mim mesmo. Sou o melhor escritor do país em atividade, mas não posso sair por aí dizendo a verdade. Preciso me camuflar, enrolar meu ego em um bom texto, falar do vira-latas para poder chamar atenção para o carro. Daqui por diante será dessa maneira. No fundo, estou tomando uma medida preventiva. Não quero mais represálias. O coletivo de estudantes Marighela Pra todos prometeu agir com rigor contra o que eles chamaram de "desenvolvimento da mentalidade diogo mainardi na cultura gaúcha reaça". Não ameaçaram me matar. Fizeram pior: prometeram organizar um protesto público em frente minha casa. Estão zangados. Acusam-me de só falar de mim mesmo; de ser um mero repetidor do estilo do cronista da Veja. Agradeço. Mas vou mudar. Entrei em nova fase. Só falo dos outros agora. E bem. É truque, eu sei; mas enquanto o pessoal do Marighela pra todos grafar palavras como "hipocresia" e "falcidade"... acho que vai funcionar.

Sexta-feira, Maio 12, 2006

Mas que Mário?

Porto Alegre está cheia de manifestações de louvor à poesia de Mário Quintana. Minha tia tem dois poemas dele bordados em panos de prato. Na televisão, atores constrangidos tentam extrair drama de pequenos aforismos escritos pelo poeta. Para cada lugar que eu olho, banners com a imagem do velhinho boa praça me observam. Nos jornais, professores fracassados tentam me convencer do conteúdo irônico da obra de Quintana. Neologismos surgem como num livro de Guimarães Rosa. Quintanesco, quintantesco, quintanares, quintanoçal. Tudo vale, tudo encaixa. Salve o poeta. Estou enjoado dessa patetice poética; cansado do "velhinho irreverente" e de seu "sofrimento diluído em sombra e fantasia".
Não entendo. Pelo que sei, Mário Quintana passou inúmeras dificuldades financeiras porque o Estado, que agora tanto o ama, nunca lhe deu muita bola. Falando em bola, dizem que foi o jogador Falcão que permitiu sua permanência num quarto de hotel confortável até o fim da vida. Há também a história de que então governador Pedro Simon teria instituído um valor mensal para ajudar na sobrevivência do poeta. Não sei o quanto disso é verdade. Mas sei que Mario Quintana escrevia. E muito mal. Lamento pelo resto, mas a única coisa que me interessa em Mário Quintana é a Casa de Cultura.

Segunda-feira, Maio 08, 2006

A crise do Gás

Evo Morales se veste mal. É só o que posso dizer da crise. Estou cansado da Bolívia. Gostaria que o Brasil devolvesse o Acre. A América Latina não deu certo. O Brasil é a melhor coisa do continente; o que prova que tenho razão. Alguns amigos sociólogos alertam para o risco de uma convulsão social nos países latinos. Não acredito em convulsões sociais. Quem tem convulsão é epilético, povo tem faniquito. Estou cansado do povo também. Só não me canso de Belíssima. Bia Falcão está viva. Todo mundo sabia, menos Lula. Vou ficar de olho em cada capítulo. Vou mandar e-mails para o Silvio de Abreu pedindo informações sobre o filho de Murah. Finalmente a promessa da CNN será cumprida: serei o primeiro a saber.

Domingo, Abril 30, 2006

Lulâmano

Sou um doente. Foi só fazer um comentário sobre Lula pra minha dependência voltar. Eu havia me afastado dele por um tempo, mas agora tudo voltou. Sim, Lula é minha droga, minha doença. Se eu fosse Rafael Ilha, trocaria Cristiane Oliveira por Lula. Infelizmente não posso fazer o mesmo que o ex-Polegar, que se livrou de sua droga. Não há clínicas para a desintoxicação do lulismo. Lula voltou a ser o centro de atenções da minha vida. Lula é meu axis mundi. Me interesso por cada passo que ele dá, por tudo que faz. Quando ele aparece na tv, meu cérebro cantarola aquela música do The Police. Não consigo resistir. Diogo Mainardi quer derrubar Lula. Diogo é ambicioso. Sou realista. Eu só quero estar lá quando ele cair. E juntá-lo do chão. E levá-lo para minha casa. Lula se tornou a minha Angelina Jolie. Só sei falar nele agora. Tentei mudar. Semana passada investi num papo banal com a zeladora do meu prédio. Não deu certo. Logo no início da conversa ela afirmou que a instalação de câmeras tornou o condomínio mais protegido contra assaltos. Não resisti. Vomitei um "Nunca na história desse país esse prédio foi tão seguro." Foi demais pra ela. A família e os amigos são os que mais sofrem. Já ouvi falar nisso. Também ouvi falar que admitir o problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Estou convencido disso.

Sábado, Abril 29, 2006

Baudrillard em Risco

Já que estavam cobrando, aí vai a página 25 do meu novo livro Baudrillard em Risco, que será lançado na próxima feira do livro de Porto Alegre. Trata-se de um livro de contos sobre os atentados do 11 de setembro.




Um dia você acorda, finalmente. E percebe que se Deus sentisse dor, pararia de olhar.
Foi exatamente o que eu pensei quando terminei de assinar a autorização para que desligassem os aparelhos. Porque, afinal, para quem olha, Fernanda é vinte e dois quilos mais magra, cabelo preto e uma pequena cicatriz no supercílio esquerdo. Mas é claro que se pode aproximar mais um pouco essa lupa áspera da vontade e entender que Fernanda é também a naturalidade forjada de quem nasceu para derreter paisagens. Fernanda é a substância de andar na Paulista às nove da manhã, mudando a rotina dos outros, contrariando certezas anteriores a ela. Fernanda apenas, e não o pouco disso; Fernanda como o desconforto elevado de algo que se dissolve nunca antes, nunca aqui, nunca agora. Fernanda, espécie de superfície sem visibilidade que se alonga num espiral de inferno colorido sem musgo e sem dia, ameaçando de morte minhas vontades. Enfim, Fernanda. E agora só.
Quanto a mim, já tentei muitas vezes sair desse hospital em direção a Faria Lima e retomar o caminho da Consolação para encontrar Gabi, a primeira namorada – que tinha olhos castanhos e falava no poder dos astros – aquela Gabi que mais tarde eu troquei pela Ana, que também tinha os olhos castanhos, mas que só acreditava em suas sessões de psicanálise e em seu paraíso particular de enfermidades somatizadas; justo essa que ia salvar minha vida e não salvou. Mas é inútil. Sempre esbarro na presença transparente do dono da situação. Aperto com delicadeza a última tecla branca do piano, esperando que o som se atrase ou que saia rápido demais e ele não perceba. Mas ele percebe, e antes que eu escape por essa escala de papel crepom, me estende uma pesada advertência em forma de sacrifício.
Eram cinco e doze quando terminei de assinar os cheques. Uma máquina impressora se encarregou de preencher as lacunas referentes aos valores da internação, tornando tudo mais distante.
No quarto, os fios se misturavam atrás dela e um lençol verde dissolvia Fernanda no real, engolindo suas mãos, cílios, molares. Sua pele, antes construída de poros milimetricamente fechados, encaixados pedaço a pedaço, assumia uma aparência esbranquiçada. Embaixo da sobrancelha esquerda, o buraco do piercing estava quase fechando. Lá fora o sol desaparecia, enquanto as últimas coisas tentavam impressioná-lo, girando ao seu redor. Passava das seis. No silêncio, Deus não existe.

Sexta-feira, Abril 28, 2006

FLIP 2006

A FLIP desse ano começa, aos poucos, a tomar forma. E que forma. Já estão confirmados:
Nicole Krauss, Benjamin Zephaniah, Adélia Prado e Valéria Resende. Muitos nomes ainda têm presença incerta como o norte-americano Chuck Palahniuk e o francês Michel Houellebecq. Outros são apenas sonho de leitores vaidosos; como é o caso de Philip Roth e Harold Bloom. O fato é que um nome já justifica a ida ao evento esse ano: Jonathan Safran Foer. Estarei lá como uma maria teclado; feliz, disponível e com uma digital de 7.2 mega pixels. É provável que Foer seja um grande imbecil. É provável que chova novamente e fique tudo emporcalhado (como em 2005), obrigando esse escritor primitivo a ficar exilado na pousada chinfrim que escolheu pra passar as noites. Mas é provável também que Lula aprenda a gostar de literatura do leste europeu.

Quarta-feira, Abril 26, 2006

o primeiro post a gente nunca esquece

Primeiro foi o André Santana, agora é o Galera. É, a Companhia das Letras mudou. Pra melhor. Acabo de ler o livro "Mãos de Cavalo". Alguns críticos comparam minha literatura com a do Galera. Certamente é mera preguiça de efetuar uma interpretação mais séria. Eu não mereço. Galera é infinitamente superior. Seus personagens são mais sólidos; e seu texto é mais ágil. Quanto a mim, restam os doze leitores que vivem me comparando a Michel Houellebecq. Não há nada pior para um autor do que ser considerado a extensão de um outro. Galera não pode ser comparado a ninguém; e isso é sua maior qualidade. Numa literatura de reflexos, Daniel Galera é um espelho. Ele e Lula são meus ídolos maiores. Morro três vezes por cada um deles.