Domingo, Março 16, 2008


Para festejar o décimo quinto aniversário, o Manhattan Connection teve uma edição especial, gravada em São Paulo. Como não sou importante, não fui convidado. Bruno Germer me acha importante. Ele, sim, me convidou para seu aniversário, na mesma noite. Neste domingo, vou assistir ao resultado da gravação na minha poltrona verde. Nada de novo. Faço isso há mais de um ano. Quando completarem 20 anos de programa, espero já fazer parte do elenco. Posso ficar no lugar do Caio Blinder. Gravarei minhas participações num estúdio bolorento, na Salgado Filho. Sou barato de contratar. Fácil, fácil.

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

São Paulo: invísvel e sem segredos

Uma cidade é uma idéia, um conceito. Moro em Porto Alegre há 17 anos. Conheço seus detalhes. Mario Quintana dizia que a cidade é como uma mulher: cheia de segredos que não poderemos jamais desvendar. Mentira dele. Há mulheres comuns. Porto Alegre é assim. Rameira de nascimento. Se Porto Alegre fosse uma mulher, seria uma leitora de Chico Buarque, igual a todas na vida. Sacuda um mapa, cairão mil porto alegres. São Paulo, não. São Paulo é uma versão de si mesma. Eis minha porção retirante. Anote: todo paranaense é, antes de tudo, um retirante. Hoje faz 454 anos que alguma coisa deu certo no Brasil. A vaidade paulistana é justificada, afinal, o avesso do avesso do avesso do avesso é o direito.

Sábado, Dezembro 22, 2007

2007: o ano do pensamento mágico



Cedo ou tarde é preciso abandonar os mortos


Deixá-los ir.

Soltar-se deles na água.


Deixar que virem uma fotografia



Sempre que o ano termina as pessoas começam a enfileirar suas promessas. Se fossem sensatas (veja que ambição minha) não prometeriam nada. Nem emagrecer. Nem ir ao teatro. Nem tratar bem os vizinhos. A vida não dá a mínima para isso. 2007 se despede de você agora como se fosse apenas mais um ano. Contudo, quando o reveillon acontecer, seria bom que você lembrasse das pessoas que no ano passado acreditaram no futuro. Falo daquelas pessoas que ficarão em 2007 para sempre; daquelas que estão presas em uma jaula chamada morte. Nenhuma alegria, nenhum misticismo. Um silêncio absoluto onde estão, uma total falta de CNN. Elas encontraram a morte numa pista escorregadia; numa queda de marquise; numa metástase cancerígena ou até mesmo em uma falha cardíaca não-específica. Neste natal, leitor, não faça promessas que talvez você não possa cumprir. Estar por aqui no ano que vem é uma delas.

Domingo, Dezembro 16, 2007

CPMF

Sempre que um tema esfria, me interessa. Chego propositalmente atrasado em todos os assuntos. Quando as torres gêmeas caíram, só abordei o tema três semanas depois. Sou uma lesma da informação. Procure a CNN. Faça o que presta. Quanto a mim, nada disso. Passo os dias olhando filmes leves do Woody Allen. Já vi Dirigindo no Escuro nove vezes na última semana. Também assisto Márcia e Mothern. Agora que já me confessei: a cpmf não deveria ter caído. Toda vez que o Estado perde arrecadação, ele ganha um argumento para investir mal o dinheiro que restou. Nas próximas eleições, votarei em quem prometer aumentar a carga tributária.

Domingo, Outubro 21, 2007

Pega um. Pega Geral

O pensador Jean Baudrillard morreu em março deste ano, mas suas idéias continuam refletindo a realidade de nosso tempo ou – como preferirem – de nossa miséria. O filme Tropa de Elite segue a receita proposta por Baudrillard em seu livro Esquecer Foucault. O diretor José Padilha levou para a tela uma história que nos faz esquecer as interpretações foucalnianas para um ambiente tão hostil como o brasileiro.
Na terça-feira, dia 09, fui assistir o filme num cinema da Paulista. A platéia era formada por profissionais liberais e casais de namorados animados. Todos queriam ver o filme. Em todas as rodas, afinal, é dele que se fala. Há quem já o tenha visto em dvd, numa das milhões de cópias piratas que invadiram o país. Há os que vão esperar – seja por preguiça ou profunda incapacidade financeira – para ver o filme na televisão. Contudo, todos eles – cults e desligados – verão o filme. Cidade de Deus foi a entrada. Tropa de Elite é o prato principal. Não se trata de uma hierarquização apressada, mas da constatação elementar de que o primeiro conversa com o espectador, já o segundo... o insulta. É por isso que ao meu lado tinha tantos. Todos queriam ser insultados pela ofensa do ano, porque nada instala mais um homem no presente do que a humilhação.
No começo, muitos risos. A cada ato de corrupção da polícia, uma gargalhada. Tudo bem leve. Parecíamos estar na sala ao lado, onde era exibido a mais recente investida de Jorge Furtado. De repente, um tiro na cabeça de uma estudante. Ninguém riu. Não tem graça agora. É cinema, é ficção. Sim, sim. Mas rir da morte de uma estudante é escárnio. Estudante não pode morrer. A morte de uma estudante denuncia o caos da sociedade brasileira; portanto, ninguém riu.
Quanto vale uma vida? Depende da vida, ué. Se for a de uma estudante de classe média, vale muito. A elite sempre grita mais alto. A elite sempre chora mais forte. Não vou falar disso. Deixo para o Luciano Huck. Volto para o filme:
Em Cidade de Deus Zé Pequeno recorreu ao estupro para realizar suas necessidades biológicas. Comeu uma negra favelada. À força. Não conseguiu convencê-la de que era um bom partido. Não tinha língua. Não tinha charme. Não tinha nada. Apontou-lhe uma arma e fez seu monolítico serviço.
Já Matias faz parte da elite. Da tropa. Da ordem. Do controle. Enquanto Zé pequeno é preto, Matias é negro. Enquanto Zé pequeno estupra faveladas, Matias namora uma jovem branca, de classe média. A força de um e a lei do outro.
Quando finalmente desiste da Constituição e estoura os miolos de um criminoso, a luz enche a sala. Fez-se a evidencia, o insight social, a epifania definitiva da situação brasileira. Matias nos mostrou a verdade. Zé pequeno morreu com ela.
Enquanto cruzam a saída do cinema e alcançam o cenário urbano da Paulista, os espectadores não riem. Estão absortos em algum mundo interno. Estão, sei disso, tentando abafar a voz do capitão Nascimento que recomenda: “Pede para sair, classe média”. Tentamos renovar a fé num país cheio de Renans, Mônicas e Delúbios. Tentamos seguir andando. Tentamos olhar para frente, atravessar as ruas. Chegar lá. Contudo, é preciso admitir, estamos quase saindo. Quase desistindo. Quase deixando a tropa.

Sábado, Setembro 22, 2007

A Sardinha da América Latina


Na semana que passou, Diogo Mainardi esteve na PUCRS. Veio porque Juremir Machado pediu. É assim entre amigos. Ontem fui a uma festa universitária. Fui porque Bruno Germer pediu. Guardadas as devidas proporções, é a mesma coisa. A viagem aborreceu Mainardi. A festa me aborreceu. Na segunda feira, alguns estudantes de História chamaram Mainardi de Traíra da América Latina. Neste sábado, o cronista revidou. Em sua coluna semanal na Revista Veja, ele lembrou que a revolução farroupilha foi a maior derrota do povo gaúcho. Os gaúchos detestam que falem mal do 20 de setembro. Não sou gaúcho. Não sei o que há de tão revolucionário nessa guerra. Massacre dos negros. Vitória dos impérios. Revolta contra os altos impostos. Para mim, parece muito corriqueiro, banal mesmo. Juremir Machado se diz o lambari da América Latina. Ora, se Juremir é um Lambari, sou uma sardinha. Sim, a sardinha da América Latina. É uma questão de hierarquia estética. Para você, leitor, sobrou o posto de crustáceo ou molusco. Lula, talvez. Você aceita ser uma lula?

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Para Lula, com horror, Maurício



Estou ouvindo a gravação dos últimos minutos do avião da TAM. Você já sabe o que houve, Lula. A Folha de São Paulo publicou a transcrição que agora repasso aqui. Leia com atenção. Pronuncia-se HOT. E não ROTH, senhor presidente.

Hot 1: Está ok? Tudo certo?

Hot 1: Eu acabei de informar.

Hot 2: Eu não ouvi, desculpe, ela falando.

Hot 1: Mas ela ouviu. Congonhas.

Hot 2: É Congonhas? Que bom. Ela deve ter ouvido, obrigado.

Hot 1: Lembre-se que temos apenas um reverso.

Hot 2: Sim, nós só temos o esquerdo.

Hot 1: Boa tarde.

Hot 2: Boa tarde

Hot 1: Torre de São Paulo, aqui é TAM 3054.

Torre: TAM 3054 reduza a velocidade mínima para aproximação. O vento é norte 106.

Hot 1: Eu vou reportar quando estiver ok.

Torre: Autorizado.

Hot 1: Aterrissando sem azul. Pista de chegada à vista, pousando.

Hot 1: TAM em aproximação final a duas milhas de distância. Poderia confirmar condições?

Torre: Está molhada e ainda escorregadia. Eu reportarei quando a 35 estiver liberada. 3054 na final.

Torre: TAM 3054. 35 à esquerda. Autorizado para pousar. A pista está molhada e escorregadia. O vento é 330 a 8 nós.

Hot 1: 330 a 8, é o vento.

Torre: Checado, 3054, 3054 Roger. O pouso está liberado. O pouso está liberado.

FWC: Inibido a descida para mim. Tira o sinal.

Hot 2: Um ponto agora. Ok?

Hot 1: Ok.FWC: Ok. Retardar, retardar.

Hot 1: Reverso 1 apenas. Spoilers nada.

Hot 2: Olhe isso! Desacelera! Desacelera!

Hot 1: Eu não consigo, eu não consigo. Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!

Hot 2: Vai! Vai! Vira! Vira! Vira!

Torre: Ah, não.

O diálogo que o senhor acaba de ler (embora isso me pareça algo fantasioso) antecede o momento em que 199 pessoas perderam a vida. Não numa U.T.I. Não deitadas de barriga para cima, em quartos climatizados e verdes. Morreram longe de casa. Esmagados, carbonizados, retirados da humanidade óbvia de todos nós. O air bus estava cheio de defeitos operacionais. Quem realizou a manutenção da aeronavel? A TAM. Quem fiscaliza a empresa? A ANAC. Quem nomeou os diretores da ANAC? Lula. Não é preciso procurar muito. Em cada tragédia brasileira há um dedo de Lula. Já identifiquei nove. A pista era curta. Quem liberou? A INFRAERO. Governo federal. Lula. Lula. Lula. Não conseguimos derrubar o presidente. Mas ele já derrubou 199 de uma vez só.



Quinta-feira, Julho 19, 2007

TAM



Deixe-me ver se entendi: a TAM colocou um air bus lotado, com o reversor desligado, para posar numa pista curta e molhada. Foi isso? A ANAC permitiu? A INFRAERO deixou? O Ministério da Defesa consentiu? É. São as parcerias público-privadas. O pior da iniciativa privada com o pior do Estado. Os mais de 180 passageiros do vôo morreram da maneira mais violenta e cruel que se possa imaginar. Morreram sozinhos. Morreram gritando. Morreram acreditando que Deus não estava ali. Quando pousaram, pensaram que o vôo havia terminado. Mas recomeçou. Um curto vôo para a morte num prédio. É claro que eu conhecia as pessoas que estavam naquele vôo. Eram-me totalmente familiares. Haviam feito o check in. Haviam passado pela tijoleta número 39 do Aeroporto Salgado Filho. Haviam retirado a carteira para passar no detector de metais. Nunca na história desse país um acidente aéreo foi tão violento. Nunca na história desse país um presidente foi tão insuficiente.

Sexta-feira, Junho 15, 2007

O Ateísmo Cristão de Godard

Na época do Sarney, o filme Je vous salue, Marie (sim, vai ter que engolir Godard, vai ajudá-lo na formação mental do desespero) foi censurado e acabou não sendo exibido no Brasil. Agora chega às lojas em DVD. Aproveito a ocasião para voltar a postar nesse blog abandonado. E tome análise. E sai daqui, Roberto Carlos. Censura, só a de fotos pessoais na câmera digital. Ou de testemunhos pecaminosos no Orkut. Leiam sem dormir:

A morte é a representação máxima da irreversibilidade, a experiência mais democrática entre os homens. Com ela não se pode negociar; e contra ela não há revide suficiente. A extinção é uma evidência cruel que cedo ou tarde todos os seres humanos se vêem forçados a encarar.
Essa consciência é a gênese do pensamento filosófico.
Contudo, se a humanidade tem consciência de sua terminalidade, individualmente os homens desconhecem o momento em que essa questão foi proposta para eles. Sabem-se mortais; mas desconhecem o momento em que essa realidade caiu sobre eles. Passarão a vida tentando vencer esse adversário invencível. Andarão de um lado para o outro no tabuleiro tencionando encontrar a porta que os leve para um universo sem morte. Sem finitude. Nessa empreitada tentarão a arte, a religião e a ciência.
A arte oferecerá uma possibilidade de perpetuação memorial. O Homem poderá ser eterno enquanto autor de uma obra relevante. Apesar disso, esse paliativo existencial não satisfará ao homem. Os Homens sonham com uma continuidade consciente e permanente, que atravesse gerações sem o risco do término por desgaste ou doença. Vão tentar, então, a religião.
Mais exigente que qualquer arte, uma crença exige a aceitação de um pacto íntimo entre o Ente particular e o Supremo. Nas religiões monoteístas a vida eterna é garantida no futuro imediatamente posterior à morte. São sistemas complexos que trabalham essencialmente com o conceito de vida eterna consciente, ego perpetualizado para usufruir todas as maravilhas do mundo futuro. Mas é preciso confiar nisso; seguir preceitos morais, éticos. Sacrificar a existência atual em nome de prazeres futuros. Temorosos por definição, os Homens procuram a ciência para se imortalizarem.
Ocorre que os tímidos avanços biológicos nos deram a dimensão da impossibilidade da manutenção permanente da vida. Frustrada, a humanidade já não sonha com o avanço médico definitivo. Sabe agora que as pesquisas na área genética procuram melhorar a qualidade de vida; sem contudo ampliá-la. A experiência finalmente fracassa. A Humanidade aceita sua condição de mortal. Aparentemente é um processo encerrado. Mas basta aproximar um pouco mais a lupa eficiente do conhecimento para percebermos que esse processo é interminável. A luta do Homem para fugir de sua condição inalienável é permanente, e gera campos inesgotáveis.
Para Darwin, a única maneira de vencer a morte é através da paternidade. Perpetuar-se é transmitir metade de nossa carga genética a um novo ser. Decidir pela paternidade é em princípio uma inclinação de todos os homens. Mas através da cultura esse impulso foi reduzido, relativizado e, em alguns casos, desativado. Atualmente há o entendimento social de que gerar um filho é uma expressão que, para os Homens, tem conotações diversas. Não bastaria apenas fazer surgir biologicamente a vida; seria preciso também cumprir as diferenças funções, os inúmeros imperativos sociais que identificam uma criatura como sendo da espécie humana. Essa questão de onde termina o indivíduo da espécie e onde começa o indivíduo da cultura é a chave para a resposta: existe uma maneira de derrotar a morte?
Um problema dessa magnitude é absolutamente bem vindo para cineastas do porte de Jean-Luc Godard. Por isso, em Je vous Salue, Marie o cineasta aborda a questão partindo de duas histórias paralelas. Na primeira, Marie é uma jovem jogadora de basquete que trabalha como frentista no posto de seu pai; José (Thierry Rode) é taxista. Ao saber da gravidez de Marie, tem certeza de que foi traído. Para evitar que o casal se desfaça, o anjo Gabriel (Philippe Lacoeste) anuncia que a gravidez é a concretude dos planos de Deus para a humanidade.
Na segunda história, um professor de ciência natural tem um caso com uma de suas alunas. Simples assim. Parodiando o evangelho cristão, Godard reescreve a história da concepção de Jesus Cristo. O que, evidentemente, causou a ele imensos problemas. Mas, afinal o que pretendia o cineasta com uma história dessas? Provocar polêmica? Destruir a crença dos católicos? Ridicularizar o principal dogma do catolicismo? Evidente que não. Para um cineasta experiente, destruir, reduzir, subestimar e são verbos inconseqüentes, sem nenhum significado real. O que Godard procurava era outra coisa. Ele utilizou a narrativa bíblica para entender o que é a humanidade hoje. E, a partir dessa resposta, compreender o que significa ser mortal. A questão da imortalidade surge no momento em que o autor se vê pressionado por sua mulher à dar-lhe um filho. Para Michel Marie o próprio filme é a resposta de Godard a essa insistência. Para ele, o sonho íntimo de Godard era uma mulher que não necessitasse de um homem para realizar sua vocação maternal. Interpretações psicanalíticas sobre a vida dos cineastas à parte, Virgem Maria disse o "sim". Mas foi o próprio Espírito Santo quem a concebeu. José não fez a opção de dar-lhe um filho. Sua opção era somente abandoná-la ou apoiá-la, numa coadjuvância que exigiu dele desprendimento, coragem e generosidade. Em Je vous salue, Marie, fica claro que a história não se repetirá jamais. Primeiro porque não existem mais Marias. As mulheres, historicamente passivas, hoje rejeitam com veemência qualquer pedido de renúncia. Não aceitam serem a vontade de outro, mesmo que esse outro seja a imagem de Deus. Não há mais licença para o sacrifício.
A segunda razão está na conduta de José. O bíblico acredita no sonho. O de Godard é convencido por um anjo Gabriel menos onírico, mais real e truculento. Essa mudança ocorre porque os indivíduos do sexo masculino já não são capazes de apostar no abstrato. Necessitam a todo momento da urgência do concreto para se instalarem no presente. E esse presente é sempre confrontado com a inserção de cartões onde se visualiza a mensagem: "Naquele tempo". A inscrição é comum nos evangelhos católicos. Indica o tempo de Cristo, o tempo da presença física de Deus. Mas esse tempo não é evidentemente o tempo de Godard, que não encontra Deus em seu filme. O personagem do filho de Marie é irritantemente egocêntrico, incapaz de brilhar como o verdadeiro Jesus.
Embora tenha parecido, Godard não está atacando a crença cristã de bilhões de pessoas. Tampouco a trajetória católica. O que ele aborda é a humanidade. O que deseja é estabelecer um paralelo entre os traços distintivos de um ambiente e de outro. Para ele, não há mais salvação. Não é o Cristo que se recusa a descer, mas a humanidade que já não é mais capaz de entendê-lo e viabilizá-lo.
Na doutrina católica Maria é uma excelente mãe. E é através dela que Jesus começa sua carreira de milagres, no episódio da festa de Caná. É Maria quem introduz o filho como alguém que vai melhorar as condições de vida daquela população. É ela quem o ensina a intervir. E mostra que questões menores como a quantidade de vinho numa festa são, para os homens, fatos realmente importantes. Maria e José culturalizam Jesus. Eles trazem a potência do salvador à realidade do messias.
Godard se concentra no milagre da paternidade. Deus se faz homem. Ele não é homem, já que ultrapassa a questão da morte. Vence a morte. Reduz sua significância. E assim reassume sua condição de Messias, de predestinado, de salvador.
Já a Virgem Maria é elevada aos céus, evitando que sua trajetória termine como o de uma mulher comum. Foi concebida sem pecado original. Não é, portanto, filha de Adão. Não é humana. Sua assunção ao céu comprova esse conceito. Ao contrário de todos os indivíduos, não encontrará a morte. Eis a chave do filme de Godard. Maria é sobre-humana. Uma mulher humana não seria capaz de gerar um Deus. Somente Maria poderia, pela força moral, reivindicar um filho. E é justamente essa força moral que a impede de fazer tal solicitação. A maternidade é dada a ela como um presente, uma força divina, um desejo do próprio criador para nascer como seu fruto.
O sim de Maria é monocórdio. Amputa-lhe definitivamente a potência de sexualidade. Godard nos choca ao lembrar que somos incapazes de realizar amputação semelhante. Refutamos a renúncia. Queremos o acúmulo. Overdose de possibilidades, de respostas, de vontades. A humanidade piorou. É incapaz de entender a pureza. Jesus não encontraria um lar para se desenvolver.
A imortalidade é inalcançável para os Humanos porque já não podem realizar o eterno através da paternidade. Já não sabem ser pais. A gênese psicanalítica do cristianismo é justamente esta: propor para o Homem do mundo um Deus a quem possa chamar de pai.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

O porteiro contra o prédio



É... eu perco todas as eleições, mesmo. Sarcozy vai vencer. Sua cara de porteiro zangado me deprime. Seu plano é mesquinho, brasileiro: transformar a França numa versão desbotada dos Estados Unidos. Segolene é melhor: é francesa. Se eu fosse francês, votava nela. Contudo, a única coisa francesa na minha vida é a Helena. Sarcozy está atrás dela também. Alega que é um luxo que eu não posso sustentar. Vejo sua cara de beagle atrofiado rosnar para nós. Está montado em Le Pen. Grita e chicoteia o ex-candidato, precisa ir mais rápido. Vejo tudo numa distância segura. Sarcozy não pode nos alcançar. Vive numa outra dimensão, ao lado da buchada de bode, do Los Hermanos e de Lula. Quando ministro, Nicolas chegou a chamar imigrantes de "escória". Como se vê, excremento é algo que, cedo ou tarde, todo mundo acaba produzindo. Allez, Allez, Royal.

Quarta-feira, Março 07, 2007

Hot memories









1



Baudrillard morreu de câncer, aos 77 anos. A morte é a derrota da razão. Pode ser que você acredite em vida eterna. Não sou contra. Cada um pisa onde quer. Quanto a mim, sei que o corpo é tudo. Kant não vale um níquel para quem acaba de ter uma parada cardíaca. Acredite: as coisas do lado de fora não significam nada para quem está dentro do caixão. É o inferno da verdade.

2

O que um homem pode oferecer além de sua anatomia? Interpretações. Dar pitacos no mundo é a única coisa que me faz sair da cama aos domingos, quando racionalmente não vejo nenhuma razão para estar vivo.

3

Para os vivos, os mortos não morrem. Ainda que houvesse porta, e que esta estivesse aberta, não haveria saída.

4

As interpretações de ontem se tornam as aleluias de amanhã. Quem precisa dos fatos?

5

Os exemplos são muitos. No dia em que eu morrer, Baudrillard morrerá um pouco comigo também. Mas no momento quem morreu foi ele. E quem está vivo sou eu. Não vamos confundir as coisas. Esse acontecimento é irreversível e, como tal, monolítico.

6

A inteligência pode seduzir muita coisa, mas não a morte. Melhor ver do que ser visto.

7

"Se o mundo se encaminha para um estado delirante das coisas, devemos observá-lo através de um olhar igualmente delirante. Afinal, mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard (1929 –2007)

Sábado, Março 03, 2007

Fora do Script


Impossível não lembrar da série Lost ao ler as primeiras linhas de VIAGENS NO SCRIPTORIUM (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 34). Personagens neuróticos; a presença de um olho que tudo vê e de tudo sabe; perguntas sem respostas, que se acumulam página após página; clima de constante suspense e aparente desespero. Mas as semelhanças (felizmente!) param por aí. Ao contrário dos roteiristas preguiçosos da série, Paul Auster sabe que uma história deve estar sempre presa à coerência e à sua própria verossimilhança. Elaborar o primeiro parágrafo é trazer do virtual ao real a idéia que se pretende desenvolver. Uma vez cumprida essa etapa, o restante do texto estará inevitavelmente a serviço do que foi proposto na primeira linha. Escrever é ampliar. Essas balizas (que qualquer vestibulando conhece e até domina com razoável competência) acabam se tornando grandes impedimentos para a elaboração de um texto com estilo. Especialmente na literatura, onde liberdade tende a rimar com vaidade, fazer a manobra certa, encaixar transgressão estética com coesão temática, é um desafio até para os grandes. É justamente por isso que tudo parece estar no lugar em Viagens... afinal, o nome Paul Auster tem sido, ao longos dos anos, sinônimo de boa prosa e ótima ficção. A história, simples na forma, traz um homem chamado Mr. Blank, que subitamente despertou num quarto vigiado por câmeras. Ele não sabe onde está, tampouco quem é, mas uma insuportável sensação de culpa o acompanha o tempo todo. Familiar? Certamente. Kafka, em O Processo, já havia examinado esse sentimento através de seu injustiçado Joseph K. Auster vem flertando com a temática kafkiana há bastante tempo. Primeiro em 1982, com o investigativo A Invenção da Solidão, em que faz uma versão romanceada de sua própria carta ao pai. Kafka não é citado diretamente. E nem precisa. Para bom leitor, meia referência basta. Recentemente, Desvarios no Brooklin, em seu melhor momento, aproveita para exaltar a conduta pessoal do autor checo. Para o leitor atento, Mr. Blank será rapidamente identificado como sendo o próprio Auster, que se vê finalmente encurralado pelo poder de sua prosa. Seus personagens cobram dele os infortúnios que viveram. A esposa morta de David Zimmer (personagem do excelente O livro das Ilusões) surge ao lado de Benjamin Sachs (do político Leviatã) numa espécie de sessão psicanalítica do autor. Viagens no Scriptorium é feito da imagem e da lucidez de quem insiste na idéia de que a construção do presente passa pelo confronto direto com nosso próprio passado.
Enquanto a palavra cria o mundo, Paul Auster vai conduzindo magistralmente sua fábula metalingüística. Eis um romance escrito com a convicção estética de quem carrega a austeridade ao lado do próprio nome.

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

O especialista


Eram pouco mais de vinte categorias. Acertei oito. Conta em minha defesa o fato de eu não ser o José Wilker. Agora posso me dedicar em tempo integral ao Big Brother. E aos últimos capítulos de Páginas da Vida, é claro. Cinismo? Se fosse eu não ia dizer. O mundo se divide entre os vencedores e você. Entenda como puder. Ano que vem a gente ganha o Oscar com o filme do Cao Hamburguer.

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

OSCAR 2007

FILME

Babel
Cartas de Iwo Jima
Os Infiltrados (o que vai ganhar)
Pequena Miss Sunshine (o que deveria)
A Rainha

DIRETOR

Alejandro González Iñárritu, Babel
Clint Eastwood, Cartas de Iwo Jima
Martin Scorsese, Os Infiltrados (quem vai ganhar)
Paul Greengrass, Vôo United 93
Stephen Frears, A Rainha (quem deveria)

ROTEIRO ORIGINAL

Babel (o que vai ganhar)
Cartas de Iwo Jima (o que deveria)
O Labirinto do Fauno
Pequena Miss Sunshine
A Rainha

ROTEIRO ADAPTADO

Borat: o Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Casaquistão Viaja à América (o que deveria)
Filhos da Esperança
Os Infiltrados
Notas de um Escândalo
Pecados Íntimos (o que vai ganhar)

ATOR

Forest Whitaker, O Último Rei da Escócia (quem vai ganhar e quem deveria)
Leonardo DiCaprio, Os Infiltrados
Peter O’Toole, Venus
Ryan Gosling, Half Nelson
Will Smith, À Procura da Felicidade

ATRIZ

Helen Mirren, A Rainha (quem vai ganhar e quem deveria)
Judi Dench, Notas de um Escândalo
Kate Winslet, Pecados Íntimos
Meryl Streep, O Diabo Veste Prada
Penelope Cruz, Volver

ATOR COADJUVANTE

Alan Arkin, Pequena Miss Sunshine (quem deveria )
Djimon Hounsou, Diamante de Sangue
Eddie Murphy, Dreamgirls — Em Busca do Sonho (quem vai ganhar)
Jackie Earle Haley, Pecados Íntimos
Mark Wahlberg, Os Infiltrados

ATRIZ COADJUVANTE

Abigail Breslin, Pequena Miss Sunshine (quem deveria)
Adriana Barraza, Babel
Cate Blanchett, Notas de um Escândalo (quem vai ganhar)
Jennifer Hudson, Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Rinko Kikuchi, Babel

DIREÇÃO DE ARTE

O Bom Pastor
Dreamgirls — Em Busca do Sonho
O Grande Truque (o que deveria ganhar)
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar)
Piratas do Caribe — O Baú da Morte

FOTOGRAFIA

Dália Negra
Filhos da Esperança
O Grande Truque
O Ilusionista
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar e o que deveria)

FIGURINOS

Curse of the Golden Flower
O Diabo Veste Prada (o que vai ganhar e o que deveria)
Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Maria Antonieta
A Rainha

DOCUMENTÁRIO - LONGA-METRAGEM

Deliver us from Evil (o que deveria)
Iraq in Fragments
Jesus Camp
My Country, My Country
Uma Verdade Inconveniente (o que vai ganhar)

DOCUMENTÁRIO - CURTA-METRAGEM

The Blood of Yingzhou District
Recycled Life (o que deveria)
Rehearsing a Dream
Two Hands (o que vai ganhar)

EDIÇÃO

Babel (o que vai ganhar e o que deveria)
Diamante de Sangue
Filhos da Esperança
Os Infiltrados
Vôo United 93

MAQUIAGEM

Apocalypto
Click
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar e o que deveria)

TRILHA SONORA

Babel
O Segredo de Berlim
O Labirinto do Fauno
Notas de um Escândalo
A Rainha (o que vai ganhar e o que deveria)

CANÇÃO

I Need to Wake up (Melissa Etheridge), de Uma Verdade Inconveniente (o que deveria)
Listen (Henry Krieger/Scott Cutler/Anne Preven), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Love You Do (Henry Krieger/Siedah Garrett), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Our Town (Randy Newman), de Carros
Patience (Henry Krieger/Willie Reale), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho (o que vai ganhar)

CURTA-METRAGEM

Binta and the Great Idea
Éramos Pocos (o que vai ganhar)
Helmer & Son
The Saviour ( o que deveria)
West Bank Story

EDIÇÃO DE SOM

Apocalypto
Cartas de Iwo Jima
A Conquista da Honra (o que vai ganhar e o que deveria)
Diamante de Sangue
Piratas do Caribe — O Baú da Morte

EFEITOS SONOROS

Apocalypto
A Conquista da Honra
Diamante de Sangue
Dreamgirls — Em Busca do Sonho (o que vai ganhar e o que deveria)
Piratas do Caribe — O Baú da Morte

EFEITOS VISUAIS

Piratas do Caribe — O Baú da Morte
Poseidon
Superman — O Retorno (o que vai ganhar e o que deveria)

FILME ESTRANGEIRO

After the Wedding (Dinamarca)
Dias de Glória (Argélia)
O Labirinto do Fauno (México) (o que vai ganhar e o que deveria)
The Lives of Others (Alemanha)
Water (Canadá)

LONGA DE ANIMAÇÃO

Carros (o que vai ganhar e o que deveria)
A Casa Monstro
Happy Feet

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

O Medo do Escritor


Quanto melhor o crítico, pior o escritor. É o que eu penso. Se formos rigorosos, nenhum livro escapa. Só o amor pela literatura salva uma obra. Algumas mulheres a gente não ama, suporta. Os livros são assim. É preciso querer gostar do texto. Porque o texto tem suas limitações, seus traumas de infância, suas amigas retardadas. Suportar, suportar. Isso me lembra Paulo Hecker Filho. Era um crítico literário de primeira, uma figura absurdamente hipnótica....até hoje tenho livros meus autografados para ele..... e, naturalmente, nunca entregues. Tinha medo de suas críticas. Se ele me dissesse que eu nao escrevia bem, teria que abandonar a literatura para sempre. É assim com os incompetentes: a razão está sempre contra eles. A favor da imperícia, só a compaixão se levanta. Paulo não tinha essa moleza estética. Ele dizia. Conheço gente que até hoje guarda suas cartinhas ácidas. Em duas linhas, o crítico liquidava o autor. A verdade, quando observada sem filtros, não permite negociações. Sua morte, há quase dois anos, não mudou nada.

Sábado, Fevereiro 10, 2007

A redenção pela imitação


Espantado com a morte do menino João Hélio Fernandes, 6 anos, ocorrida na quarta-feira. um francês me pergunta por que isso acontece no Brasil. A verdade é que não sei. Os patriotas argumentam que não somos os únicos bárbaros do mundo. Há bárbaros na Bolívia. No Afeganistão. E no Congo. Agora, fico mais tranqüilo. Aliás, Diogo Mainardi (aquele que todo mundo me acusa de imitar) também não conseguiu explicar por quê o Brasil tem sempre um crime mais bizarro que o outro para apresentar, mas já deu uma receita eficiente para que eles não se repitam: "Se todos os pais esgoelassem seus filhos e os obrigassem a repetir diariamente que nenhum país é pior do que o Brasil, já estariam cumprindo seu papel." Até o momento, não tenho filhos. Quando os tiver, esgoelo. Isso me faz lembrar que, apesar de minha independência intelectual, fico realmente zangado quando me chamam de imitador. Não imito ninguém, eu copio. São coisas diferentes. É preciso uma imensa humildade para copiar alguém. É por isso que essa postagem traz a foto do cronista de Veja. Estou copiando quem acerta. É melhor do que errar com originalidade. Melhor para o país. Melhor para a sociedade. Copie você também. O que Lula copiou de Fernando Henrique deu certo. Onde inventou, deu galho. A originalidade estraga a vida. Anote. Copie. Deixe o Ego de lado. Liberte-se da angústia. Cole.

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

3 º Festival de Verão

A pior coisa do Brasil é o humor. Não acho graça em nada nosso. Olho com inveja de mulher o talento norte-americano de fazer rir. Em matéria de sátira, todos nos ganham: franceses, ingleses, jamaicanos. Qualquer um faz rir melhor do que nós, os brasileiros. Perdi a conta de quantas vezes recuperei a vontade de viver vendo um Groucho Marx (para entender, leia o Livro das Ilusões, do Paul Auster). A estréia do filme de Borat é uma oportunidade de rever o humor na telona. Há um novo Woody Allen chegando aos cinemas nacionais também. Porto Alegre está melhor com esse festival de cinema de verão. Falarei disso mais tarde, antes tenho que ler a tirinha do Dilbert. Eu sei, eu sei. Sou desprezível.

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

o ano em que meus pais saíram de férias


Meu pai, um jornalista imbecil que viveu de 1940 a 1992, costumava dizer que contar era escolher a parte mais importante. Em O Ano em que Meus pais saíram de Férias pude encontrar mais um motivo para enfrentá-lo. Eis um filme cheio de judeus (o que por si só dá um ar de seriedade a coisa toda). E de jogos de botão. E de morte. E de meninas que são feias, mas que por serem feias são mais lindas do que as lindas que nunca saberiam ser feias. Tudo nessa realidade está na memória. Contar não é escolher a parte mais importante, mas saber reconhecê-la no meio de um amontado de imagens que não são nossas. Meu pai, o imbecil, esperava que sua ausência fizesse de mim um exilado. Porém, ao contrário de Mauro, não foi por violência que construí minha própria vontade. Médici não tocou em nada meu. As coisas voluntariamente foram embora, num tempo em que todos estavam voltando para casa. Fiquei no acostamento. E na contramão. Precisei eu mesmo escolher um país. E depois uma casa. E depois um corpo. E dizê-los que eram meus. Os dias formam uma lápide. Duas, na verdade. Nada a fazer. Beckett podia mesmo ser um goleiro. pensei agora.

Paulo Francis


Paulo Francis não gostava de negros. Eu sou negro e gostava de Paulo Francis. Nasci exatamente cinqüenta anos depois dele, tempo suficiente para encontrar um Brasil bem pior. Para mim, suas opiniões não interessavam. O que um homem faz de sua vida só interessa a sua mulher e à polícia. Eu só quero saber do texto. E que texto tinha ele! Há uma diferença entre concordar com alguém e admirar alguém. Os petistas sabem do que estou falando. Collor está na base aliada de Lula. Severino jura ter feito campanha para Chinaglia. O governo admira os ex-adversários, mas não concorda com eles; contudo, precisa deles para aprovar projetos que o próprio PT desaprova. A política brasileira é um baile de máscaras. Waal.

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

Ah, o verão

Minha equipe de fofoqueiros espalhados em todo o país garante: Zé Dirceu anda dando as caras por Santa Catarina. Hoje à tarde foi visto passeando pela orla do Balneário Camboriú. Embora ninguém tenha ousado abordar o ex-homem forte do governo Lula, especula-se que vá passar o verão por lá mesmo. O que isso tem de importante? Nada. Droga, achei que o trabalho da Monica Bergamo fosse mais fácil.

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

A Festa dos canalhas

Houellebecq confirmou sua presença em Porto Alegre, em 2007. Isso certamente dá pano, pretexto, desculpa para um amontado de interpretações sobre sua última obra. Lanço uma: o desejo de Daniel 21 é ser procurado. Está acessível, completamente monitorado. Contudo, a mulher que ama não lhe dá a mínima. Ele se cerca de possibilidades frágeis. E logo a potência da ação alheia torna-se insuportavelmente virtual. Cansado de esperar, o protagonista se vê obrigado a pedir. Quando finalmente consegue uma vitória, entende o que se passa: seu triunfo é restrito, limitado. Daniel se comunica, é claro; mas sua comunicação é do tamanho de seu telefone: é celular; e como tal, metastática. Não há outro caminho a percorrer senão o da volta. É assim que se desiste de alguém. Eu desisti.

Domingo, Dezembro 17, 2006

O Futebol

A literatura acabou. Vou trocar Cortázar por Vargas. E Mirisola por Iarley. O Internacional é campeão do mundo. Faz quase um mês que não escrevo nada aqui. Os franceses cortaram minha verba. Agora, terei que vender dvd´s piratas na rua da Praia. Não importa. O Inter é campeão em cima do Barcelona. A literatura não vale um gol de Gabiru. Vou me trocar pelo Ceará.

Domingo, Novembro 19, 2006

Crime Capital

Eu estava fora. Na paz completa. Gordo como uma paca. Contudo, tive que retornar. Mino Carta me tirou o sossego. A maneira com que se referiu a Diogo Mainardi me acordou. Estou em pé agora, pronto para ofendê-lo. Mino é a favor de Lula. Eu não sou. Mino edita a Carta Capital. Eu não leio. Mino odeia Fórmula 1. Eu sei o nome dos circuitos. Estamos sempre em lados opostos. Eu no lado certo. Ele no errado. A posição editorial de sua Carta Capital tem explicação monetária: trinta por cento do faturamento da revista é oriundo de verbas federais. Mino erra. Eu acerto. Voltei.

Domingo, Outubro 29, 2006

Bandeira Branca

Lembrando minha postagem de sábado, 27 de maio deste ano:

Minhas previsões vão se confirmar: Lula será reeleito. Analistas norte-americanos acham que há três explicações para essa morte anunciada:a) o eleitorado não tomou conhecimento das denúncias de corrupção b) o PSDB parece não saber explorar a crise política do governo c) programas como o bolsa família seduzem o eleitorado de baixa renda. Os analistas não entendem o Brasil. Eu, sim. Ora, até o Jamanta sabe do caso Telemar. Quanto ao PSDB, está claro que quer esperar o horário eleitoral gratuito para atirar as pedras no telhado de vidro do PT. Por fim, resta a hipótese da sedução do bolsa família. Lamento, mas nem o povo se vende por algumas notas de dez reais. Lula será reeleito por um motivo mais simples, mais real: é amado. Sim, o povo está seduzido por ele. Exatamente como ficou seduzido por Sonia Braga. Fará tudo o que Lula mandar. É um amor esquizofrênico, como o de Julia por André, em Belíssima. Um analista frio diria que o povo está apalermado. Eu sou genoroso. Reconheço o poder da burrice voluntária. Eu mesmo já estive apaixonado, não por Lula - que é brega - mas por uma italiana que não conseguia pronunciar as oclusivas bilabiais. O amor é assim mesmo.

Lula ganhou. Posso levantar uma cartolina com dizeres em caneta hidrocor vermelha: EU JÁ SABIA. Durante sete meses tentei evitar sua vitória. Infelizmente, não tive competência para vencer o operário. Estou envergonhado. Refaço minha estratégia, revejo os números. Eu levava vantagem: tinha um dedo a mais. Contudo, perdi. Lula tem razão: nem todo mundo pode ser o Ronaldinho.

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

o dedo mínimo de lula

Os Alckmistas não estão chegando. Pelo visto, ficarão pelo caminho. Não importa. Continuo balançando a árvore, esperando a hora de juntar Lula. Corro o risco de estar me repetindo. Não posso evitar. Lula é meu Mumm-Ra, meu vilão de Supercine. Fiz uma pasta com recortes de jornal sobre os escândalos de seu governo. Coloquei em ordem alfabética, para não me perder. Minha letra predileta é L. De Lulinha. O caso Telemar me fascina: não basta ser pai, tem que participar. Eis um exemplo perfeito de paternidade responsável. Dá pra contar nos dedos os pais que agem como ele. Nos dedos.

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Nada novo sob o sol

O advogado do ex-ministro José Dirceu, José Luiz de Oliveira Lima, declarou nesta sexta-feira que houve uma ligação telefônica entre seu cliente e o então coordenador de risco e mídia da campanha de Lula, Jorge Lorenzetti. Dirceu, no entanto, garante que não tem nada a ver com a compra do dossiê. Entende-se. Quando o escândalo do mensalão estourou, ele disse: "Esse é um governo que não rouba e não deixa roubar". A árvore tá balançando. Lula vai cair. Deixem que eu junte. Vou segurar com as duas mãos. E dez dedos.

Terça-feira, Outubro 17, 2006

Entrevista - Marcelo Mirisola

1- Maurício Azevedo - Mais uma vez deu Hatoum. É a terceira tartaruga que ele emplaca. Pretendes exigir que ele devolva essa estatueta também?

Marcelo Mirisola - Não li o último livro do Hatoum. Provavelmente o "Joana ..." é melhor. Você deve ter lido. O que acha?

2- Maurício Azevedo - O Hatoum é chato. Mas, mudando de saco pra mala: Alckmin ou Lula?

Marcelo Mirisola - Geraldo. Porque ele tem um nariz precioso que pode servir a ótimas charges.

3- Maurício Azevedo - Quais são os cinco livros que todo mundo devia ler?

Marcelo Mirisola - "Extinção" do Thomas Bernhardt, "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, Trópico de Câncer" do Henry Miller, "Meninos da rua Paulo", do Férenc Molnar; o meu "Joana a Contragosto" e "O diabo nas Colinas", do Pavese.

4- Maurício Azevedo - Quem tu achas que deveria parar de escrever?

Marcelo Mirisola - Eu.

5- Maurício Azevedo - Fala um pouco de quando e como tu começou na literatura.

Marcelo Mirisola - Não tenho saco para essa resposta.

6- Maurício Azevedo - Qual o primeiro mandamento do escritor?

Marcelo Mirisola - Desista.

7- Maurício Azevedo - Do que fala o teu próximo livro?

Marcelo Mirisola - Minha volta, e reconciliação com SP, depois de dezesseis anos me esquivando da cidade.

8- Maurício Azevedo - E Deus, Marcelo, existe?

Marcelo Mirisola - Claro que sim. Está no céu ao lado de Jesus Cristo e da Virgem Maria.

9- Maurício Azevedo - Tem alguém novo e bom na literatura atual?

Marcelo Mirisola - Deve ter. Sempre tem.

10- Quem tu serias se não te deixassem mais ser o Marcelo Mirisola?

Marcelo Mirisola - Se alguém fizesse esse favor para mim, queria ser o menino da Rua Paulo, aquele que morre no final do livro.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

A esperança virou o medo

Tenho recebido e-mails a favor de Lula. Muitos. Em geral, alertam para o fato de que se Geraldo Alckmin vencer, o bolsa família vai acabar, a petrobrás será vendida, e o meu windows vai pifar. Regina Duarte tentou o mesmo truque, em 2002. Lula contra-atacou, com o riponga "A esperança vai vencer o medo". Agora que estão no controle, militantes petistas desistem da argumentação e partem para a tática cocker spaniel de Regina Duarte. A França já passou por isso. Nas últimas eleições, teve que escolher entre Chirac e Le Pen. Chirac venceu com o voto da esquerda. É o que o Brasil deve fazer: votar em Alckmin. Com chuchu se faz sopa. E sopa dá pra engolir. “Votez escroc, pas facho!”. diziam os franceses. Tentei fazer um eslogam para ajudar o candidato tucano. Não consegui. Sou obtuso. Gabriela Linck me pergunta quem lucra com a vitória de Alckmin. Não sei. Só sei que Lula perde. E é isso o que importa.

Domingo, Outubro 08, 2006

Entrevista - Amilcar Bettega

1- Maurício Azevedo - Ultimamente o número de oficinas literárias cresceu muito no Brasil. Em relação a tua trajetória, que peso teve essa experiência na construção da tua literatura?

Amilcar Bettega Barbosa - Teve um peso importante no sentido em que me ajudou a "me achar". Eu sempre gostei de literatura e sempre li bastante, mas até os 26 anos nunca tinha pensado em escrever, muito menos para publicar. Foi num momento de crise existencial muito grande que comecei a escrever. De repente eu me "flagrei" escrevendo uma história. Foi isso mesmo. Quando me dei conta eu tinha já umas trinta páginas de uma história escrita. A partir daí comecei a ver que eu podia escrever e que era aquilo que eu queria fazer. Foi aí que eu ouvi falar em oficina literária. Eu nunca tinha tido, em casa, alguém que me fizesse aproximar da literatura, nunca tinha tido um professor, "aquele professor", que mostra um caminho, que orienta, também meus amigos de infância e adolescência não curtiam literatura, eu tinha feito uma faculdade de engenharia, era outra praia. Tudo isso me fazia sentir muito sozinho. Pois numa oficina encontrei gente que estava na mesma busca que eu, vi que eu não estava tão sozinho quanto pensava. Depois veio o ganho prático. E o maior ganho da oficina talvez seja o de deixar claro que é impossível ensinar alguém a escrever um texto literário, mas que, ao contrário, é possível ensiná-lo a ler um texto literário. Escrever um artigo de jornal ou um relatório ou uma carta é diferente de escrever um texto literário. Lê-lo também exige uma outra abordagem. Saímos mais críticos de uma oficina. Lemos melhor, e saber ler é importantíssimo para quem quer escrever.

2- Maurício Azevedo - Quando teremos um romance do Amilcar?

Amilcar Bettega Barbosa - Quando o Amilcar achar que o que ele tem para dizer deve ser dito na forma de um romance. Escrevo de dentro para fora. Não é assim "vou escrever um romance agora" e aí escrevo um romance. Escrevo, e a muito custo. Se o que me sai é conto, carta ou apenas um monte de frases enfileiradas, é o que menos me interessa. Escrevo o que tem valor para mim, depois eu vejo se aquilo pode ter algum valor para os outros. Se acho que pode, fico muito contente e de certa maneira me dou por satisfeito. Mas é sempre esse sentido de dentro para fora, jamais o inverso. Se vou pensar primeiro na expectativa dos outros, a coisa vai sair chocha, sem liga.

3- Maurício Azevedo - O que o escritor vê que os outros não vêem?

Amilcar Bettega Barbosa - Ver de fato é muito difícil. Há toda uma armação para que todo mundo veja a mesma coisa, uma espécie de formatação do olhar. Um pouco como ocorre com o pensamento, em nome de uma racionalidade positiva criam-se maneiras "lógicas" de ver e de pensar. Se você não é vigilante, tudo o que chega ao seu olhar vem filtrado pelas normas da realidade. Você só vê o que está dentro dessas normas, o que na verdade é uma malha e, como toda malha, cheia de buracos. Acho que o escritor, talvez por uma malformação ótica, tem o olhar atraído para esses buracos, essas fissuras.

4- Maurício Azevedo - Günter Graas anunciou ter participado do exército alemão durante a Segunda Guerra mundial. Afinal, ética ou estética?

Amilcar Bettega Barbosa - Em arte o objetivo é sempre estético, mesmo na arte engajada, que sem o teor estético vira panfleto; não é arte. Artistas são homens, não são santos. Uns mais éticos, outros menos éticos, mas todos cheios de contradições, como qualquer ser humano. Céline era um porco moralmente, mas é preciso reconhecer que "Viagem ao fim da noite" é um monumento literário. A filosofia (e coloco a grande filosofia no domínio da arte) sem o nazista Heidegger sofreria de um vácuo. São muitos os exemplos. Uma coisa é a obra de arte, outra é o homem que a produz. Leio e aprecio muita coisa de autores que não convidaria para tomar um café na minha casa.
Evidentemente no caso particular do Günter Graas, que é um escritor engajado, que já levantou bandeiras sempre a favor de causas nobres e éticas, essa confissão tardia soa bastante estranha, tem repercussões na sua atuação como intelectual de esquerda, engajado e tudo mais. Mas não creio que desautoriza toda a sua postura anterior e, sobretudo, e com absoluta certeza, não modifica em nada o valor da sua obra literária.


5- Maurício Azevedo - O que a forma tem a ensinar para o conteúdo?

Amilcar Bettega Barbosa - A forma vazia pode até passar, com alguma dificuldade e, pelo menos para mim, sem muito interesse, mas ainda assim se sustenta. Porém, o contrário simplesmente não existe, o conteúdo sem forma não é arte. É a forma que organiza o conteúdo de maneira a lhe dar um peso estético, é a forma que o eleva a condição de literatura.

6- Maurício Azevedo - Tem alguem que tu admiras na nova literatura brasileira?

Amilcar Bettega Barbosa - Não falo de alguém, mas de algo. Há algo interessante na literatura brasileira. Ela está viva, ativa, muita gente publicando, muita coisa acontecendo. E é isso que eu salientaria, algo que não está nem tanto no conteúdo da sua produção. Mas acho interessante a dinâmica que de uns anos para cá tomou conta do cenário literário brasileiro. Em grande parte devido às facilidades de publicação, e por razões, portanto, que não são propriamente literárias, há uma enorme quantidade de autores que até bem pouco não existiam como escritores e que passaram a ter seus livros publicados. Esses livros bem ou mal circulam, vão parar nas livrarias, encontram, uns mais outros menos, algum espaço em jornais ou revistas literárias, imagina-se que são lidos, etc. O fator literário não está na base dessa "explosão" de livros, mas sem ele ela também não existiria. Acho que a grande quantidade de novos nomes e novos títulos, que aparentemente não significa muita coisa, pode ser o primeiro sinal de que se caminha para a consolidação de um efetivo sistema literário no Brasil, e é a partir daí que dá para esperar algo mais. Evidentemente falta leitor, uma rede de bibliotecas organizada e abrangente, etc., mas um dia se chega lá. Tudo isso é importante para dar maturidade a uma literatura.

7- Maurício Azevedo - Fala um pouco do Cortázar.

Amilcar Bettega Barbosa - Tudo o que eu falar sobre Cortázar já foi dito — e de forma muito mais competente do que eu posso fazer — nos livros, nos dossiês sobre o Cortazar, nas teses, etc. Prefiro ficar com a lembrança da primeira vez que li Cortázar, prefiro as sensações que acompanham essa experiência única e muito pessoal que é descobrir um grande escritor. Vivi isso lendo Cortázar, vivi isso lendo tantos outros autores. A felicidade é continuar vivendo essa experiência.

8- Maurício Azevedo - Como está o quarto, agora?

Amilcar Bettega Barbosa - Muito desarrumado, como sempre foi.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Eleições 2006

Como um bêbado, vejo tudo em dobro. Por um lado é bom. Pelo outro (afinal, são dois) é péssimo. É bom quando Ana Paula Arósio aparece na televisão. Mas é uma pena que isso valha também para o resto. No lado ruim, vejo dois pt´s. O primeiro é feito de Lula e sua gangue. O segundo é feito dos honestos-até-segunda-ordem. Essa parte é composta essencialmente pelos gaúchos. Tenho certeza de que Olívio Dutra não está envolvido em nenhum tipo de irregularidade. Entretanto, como o próprio Olívio afirmou certa vez: "paga-se um preço por andar em más companhias". É por isso que o ex-governador não terá meu voto. Lula é uma má companhia. Devia ser abandonado. Diz-se que corrupção existe em qualquer partido, mas o PT não era um partido qualquer, essa era a bandeira, esse era o diferencial. Se o ideal se perdeu, o que sobra de um partido idealista? Além disso, uma vítória do PT teria uma conseqüência nociva para o próprio PT. Vencendo Lula, vencem os mensaleiros, o uso da máquina pública como extensão do interesse particular. Vencendo Lula, os crimes cometidos pela chamada ala podre do partido são automaticamente reconhecidos como tática desagradável, mas eficiente. Não. Lula não pode e não deve vencer. Lamento pelo povo gaúcho. Pelos dois.

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Entrevistas - 2° temporada

1- Maurício Azevedo - Günter Grass admitiu publicamente ter participado do exército alemão durante a Segunda Guerra mundial. Afinal, o que a ética pode ensinar para a estética?

Marcelo Backes -Muito, e a ética costuma claudicar, sobretudo diante da possibilidade de vender alguns milhares de livros a mais. Até papas a estética é capaz de inventar, ao que parece, nas memórias de Grass!

2- Maurício Azevedo - Fala um pouco sobre a tua formação acadêmica.

Marcelo Backes - Eu me formei em jornalismo pela UFRGS; por teimosia, conforme sempre disse, e por saber que poderia me especializar em outra área depois de concluído o curso. O curso de jornalismo foi um acidente de percurso que eu credito à estatística… Por quê? Eu queria ser escritor e antes de escolher o curso que faria fiz uma lista em que relacionava as profissões dos escritores brasileiros. Deu jornalista, com folga… Ademais, havia todo um Mino Carta, mais um Fausto Wolff, para ficar em apenas dois, encorajando a decisão… Depois fiz mestrado em literatura brasileira, também na UFRGS, e doutorado em romanística e germanística na Universidade de São Heidegger, desculpa, na Universidade de Freiburg, na Alemanha.

3- Maurício Azevedo - Antônio Cândido é considerado por muitos como o maior crítico literário brasileiro. Ele é de fato o maior ou só pode ser considerado?

Marcelo Backes - Ele é, e ponto.

4- Maurício Azevedo - O que o crítico vê que os outros não vêem?

Marcelo Backes - O crítico não vê, por ser crítico, absolutamente nada que qualquer outro não possa ver. O crítico vê porque tem sensibilidade, por dentro, e erudição, por fora.

5- Maurício Azevedo - Qual é o maior pecado que um tradutor pode cometer?

Marcelo Backes - Perder o tom de um livro. Lê o Felix Krull de Thomas Mann em alemão, depois em português, e saberás do que estou falando.

6- Maurício Azevedo - Tem alguém que tu admiras na nova literatura brasileira?

Marcelo Backes - Tem, muitos. Para ficar mais uma vez em apenas dois exemplos para cada alcance diferente: Marçal Aquino, Luiz Ruffato e Miguel Sanches Neto – eu não havia dito dois? –, no Brasil, José Carlos Queiroga e Flávio Ferrarini, no Rio Grande do Sul, que aliás deveriam ser tão brasileiros no alcance quanto Aquino, Ruffato e Sanches.

7- Maurício Azevedo - Nas tuas brigas contra o mundo: quem apanhou mais?

Marcelo Backes - Eu, eu sempre apanho. É como eu disse certa vez: morro nas pauladas que eu dou, e nas que não dou também. Eu sofro quando bato, sofro mesmo, fundo…

8- Maurício Azevedo - Quem tu querias ter sido, se de repente não conseguisses mais ser tu mesmo?

Marcelo Backes - Eu sou um produto da minha alma atormentada, do lugar e das circunstâncias que envolvem o meu nascimento e minha infância e da formação intelectual em páginas como as de Lichtenberg, Heinrich Heine e Karl Kraus, mais uma vez para citar apenas dois... Dois? Para me imaginar diferente na superestrutura eu teria de imaginar toda essa infra-estrutura diferente, e isso é impossível...

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

A última refeição do Diabo

A quem pertence um livro? À editora? Ao escritor? Ao leitor? A velha crença de que um livro pertence a quem precisa dele só pode ser encarada como parte da ilusão de quem está comprometido com a utopia, e não com a verdade (sim, ainda existe verdade).
Quando Max Brod decidiu ir adiante com a intenção de publicar Kafka, iniciava uma longa discussão sobre propriedade intelectual e direito de reprodução. Sob o ponto de vista moral, Max traiu o amigo, desrespeitando sua expressa vontade de que fossem destruídos os originais entregues a ele. Entretanto, ninguém discorda que a subtração da obra Kafkiana tiraria da literatura universal não apenas o autor e seu legado, mas todo o imaginário do homem espantado com o absurdo da existência sem resposta. Em A SOLIDAO DO DIABO (Bertrand Brasil, 352 páginas) esse tema reaparece com força. Ocorre que parte dos contos que integram o livro já haviam sido publicados anteriormente, sob o previdente título de Frio. Em seu livro de hoje, Bentancur suprimiu parágrafos, e – o mais surpreendente – alterou o final de alguns de suas mais pungentes histórias. Da edição de 2001, pouca coisa restou. Não é tanto os enredos, mas a voz discursiva de Frio que mudou. Antes era um livro monolítico, agora integra um universo contraditorial.
Em tudo a obra amadureceu. Não somente na edição robusta de uma grande editora, mas principalmente em sua vocação para falar de uma geração e não mais de uma província. Sai a insistência nas marcas distintivas do final do século XX, entra a consciência de que o papel do escritor é oferecer a nitidez mais crua, ainda que para isso tenha que eliminar de si todas as possibilidades de fuga.
Em seus melhores momentos como escritor, Paulo está intimamente ligado a uma estética do confessionalismo puro, cheio de coragem e técnica. Nos momentos mais fracos, deixa o editor dominar o autor, dialogando muito mais com seu tempo do que com sua forma. Essa aposta conduz a uma conclusão segura: o livro é de quem o faz.
O resultado final é uma obra que trai as ilusões de um leitor à procura de seu duplo, devolvendo-o à solidão de si mesmo. Nenhum demônio pode revogar sua própria origem. Paulo sabe disso. E não hesita em mostrar a extensão de sua consciência. A Solidão do diabo é um livro extraordinário. Não apenas por sua capacidade de renovar discussões editoriais, como pela sua maneira perturbadora de reafirmar a cada instante que o escritor é o único dono dos personagens que inventa. No seu conto mais expressivo, Bentancur mostra um artista gráfico que renuncia à beleza feminina em nome do desespero em satisfazer uma anã e suas vontades. Sêneca e Almodóvar são misturados num inventário das patologias sexuais humanas. Para cada velha cor, Bentancur vai construindo uma nova paleta. Separados entre si, seus protagonistas são forçados a repartir a única coisa comum a todos eles: a marca da exclusão. Longe do que é bom, todo herói se corrompe.
É por aí que os demônios de Bentancur arranham o leitor, tomando para si – ainda que seja somente nas unhas de seu cadáver – fragmentos inegáveis de que tocou, violou e rompeu nossa confiança no Real. O Mal escoa finalmente na literatura sua capacidade de seduzir.
Depois disso, só resta o sono. A solidão. A calma perturbadora de um cadáver e seus algodões.

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Finalmente, a literatura

Acabou a espera. Depois do time do Internacional, agora é a vez da Record melhorar o meu ano. Eu deveria fazer uma resenha do livro. Mas não posso. Me falta rigor crítico para encarar Houellebecq. Quando encontro com sua literatura, fico pateticamente domesticado, domado, lulamente débil. Faço pose de Regina Duarte, inclino o pescoço como o cocker spaniel da minha vizinha. Desço. Viro uma paquita. É que os iguais se reconhecem.

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

prêmio jabuti 2006

Mais uma vez deu Hatoum. É a terceira tartaruga que ele emplaca. Mas isso não importa no momento. As mortes da minha agente Lúcia e do crítico João Alexandre Barbosa são os fatos da semana. Não sei o que dizer.

Domingo, Agosto 06, 2006

entrevista III

1- Maurício Azevedo - O Thomas Bernhard disse certa vez que um escritor não pode dizer verdades. A verdade é realmente algo indízivel como ele pensava ?

Manoela Sawitzki - Em primeiro lugar, não tenho a pretensão de afirmar o que um escritor pode ou não dizer. Depois, sendo para mim a verdade essencialmente subjetiva, também é múltipla e mutável. Não acredito naquele momento em que o homem chega no pico da montanha e encontra uma verdade estática e livre de dúvidas. Crer nisso é apenas desistir de continuar buscando. E se for mesmo indizível, como Bernhard pensava, isso não me impede de tentar dizê-la, expressar sua busca - o que não significa dar um ponto final à questão, nem ganhar uma medalha por "matar a charada". Cada personagem persegue ou foge da sua verdade (e das dos outros) à sua própria maneira - eu vou de carona, e tomo notas durante o percurso.

2- Maurício Azevedo - A crise política atual altera o significado da tua literatura? Afinal: ética ou estética?

Manoela Sawitzki - Gosto de uma frase da Clarice Lispector que diz algo como: "o que me interessa não são os fatos em si mas a repercussão dos fatos no indivíduo". Qual é realmente a atualidade dessas últimas crises políticas, a não ser o fato de estarem acontecendo agora? De um modo geral, vejo essas crises pelas quais as sociedades passam, em todos os âmbitos e em todas as épocas, como meras repetições - as variáveis são mínimas, as motivações, sempre as mesmas. Seja numa reunião de família ou de condomínio, num escritório de contabilidade ou no Palácio do Planalto e na Câmara Federal, você encontrará os mesmos mecanismos conduzindo as relações entre as pessoas. Quanto maior a possibilidade e abrangência do poder, maiores os riscos e os danos. Dê poder a um tolo, mesmo o poder de controlar a entrada num edifício, ou supervisionar um grupo de vendedores, por exemplo, e observe. Pense agora na quantidade de tolos que circula livremente pelo mundo. Não é assustador? Eu acho, muito. Mas não me interessa falar diretamente sobre a ordem política e sim sobre a humanidade, a natureza de quem faz a política, entre outras coisas. Não se trata de forma alguma de um exercício meramente estético, volto a dizer: o que quero explorar é a essência.

3-Maurício Azevedo - Manoela, existe uma literatura feminina ou toda literatura é universalizante e universalizada?

ManoelaSawitzki - Para mim, é fundamental levar-se em conta a questão dos arquétipos. Masculino e feminino, sol e lua, yin e yang, enfim, pólos diversos entre si que se encontram, interpenetram e, juntos, podem compor uma unidade harmônica. Os povos primitivos, que sempre estiveram muito próximos e atentos aos movimentos da natureza, percebiam seu caráter dual com mais clareza, e esse foi o ponto de partida para a construção de um universo simbólico extremamente rico. O que estou queren