
Domingo, Março 16, 2008

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
São Paulo: invísvel e sem segredos
Sábado, Dezembro 22, 2007
2007: o ano do pensamento mágico

Cedo ou tarde é preciso abandonar os mortos
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Deixá-los ir.

Soltar-se deles na água.

Deixar que virem uma fotografia
Domingo, Dezembro 16, 2007
CPMF
Domingo, Outubro 21, 2007
Pega um. Pega Geral
Na terça-feira, dia 09, fui assistir o filme num cinema da Paulista. A platéia era formada por profissionais liberais e casais de namorados animados. Todos queriam ver o filme. Em todas as rodas, afinal, é dele que se fala. Há quem já o tenha visto em dvd, numa das milhões de cópias piratas que invadiram o país. Há os que vão esperar – seja por preguiça ou profunda incapacidade financeira – para ver o filme na televisão. Contudo, todos eles – cults e desligados – verão o filme. Cidade de Deus foi a entrada. Tropa de Elite é o prato principal. Não se trata de uma hierarquização apressada, mas da constatação elementar de que o primeiro conversa com o espectador, já o segundo... o insulta. É por isso que ao meu lado tinha tantos. Todos queriam ser insultados pela ofensa do ano, porque nada instala mais um homem no presente do que a humilhação.
No começo, muitos risos. A cada ato de corrupção da polícia, uma gargalhada. Tudo bem leve. Parecíamos estar na sala ao lado, onde era exibido a mais recente investida de Jorge Furtado. De repente, um tiro na cabeça de uma estudante. Ninguém riu. Não tem graça agora. É cinema, é ficção. Sim, sim. Mas rir da morte de uma estudante é escárnio. Estudante não pode morrer. A morte de uma estudante denuncia o caos da sociedade brasileira; portanto, ninguém riu.
Quanto vale uma vida? Depende da vida, ué. Se for a de uma estudante de classe média, vale muito. A elite sempre grita mais alto. A elite sempre chora mais forte. Não vou falar disso. Deixo para o Luciano Huck. Volto para o filme:
Em Cidade de Deus Zé Pequeno recorreu ao estupro para realizar suas necessidades biológicas. Comeu uma negra favelada. À força. Não conseguiu convencê-la de que era um bom partido. Não tinha língua. Não tinha charme. Não tinha nada. Apontou-lhe uma arma e fez seu monolítico serviço.
Já Matias faz parte da elite. Da tropa. Da ordem. Do controle. Enquanto Zé pequeno é preto, Matias é negro. Enquanto Zé pequeno estupra faveladas, Matias namora uma jovem branca, de classe média. A força de um e a lei do outro.
Quando finalmente desiste da Constituição e estoura os miolos de um criminoso, a luz enche a sala. Fez-se a evidencia, o insight social, a epifania definitiva da situação brasileira. Matias nos mostrou a verdade. Zé pequeno morreu com ela.
Enquanto cruzam a saída do cinema e alcançam o cenário urbano da Paulista, os espectadores não riem. Estão absortos em algum mundo interno. Estão, sei disso, tentando abafar a voz do capitão Nascimento que recomenda: “Pede para sair, classe média”. Tentamos renovar a fé num país cheio de Renans, Mônicas e Delúbios. Tentamos seguir andando. Tentamos olhar para frente, atravessar as ruas. Chegar lá. Contudo, é preciso admitir, estamos quase saindo. Quase desistindo. Quase deixando a tropa.
Sábado, Setembro 22, 2007
A Sardinha da América Latina

Quarta-feira, Agosto 01, 2007
Para Lula, com horror, Maurício

Hot 1: Está ok? Tudo certo?
Quinta-feira, Julho 19, 2007
TAM

Sexta-feira, Junho 15, 2007
O Ateísmo Cristão de Godard
Essa consciência é a gênese do pensamento filosófico.
Contudo, se a humanidade tem consciência de sua terminalidade, individualmente os homens desconhecem o momento em que essa questão foi proposta para eles. Sabem-se mortais; mas desconhecem o momento em que essa realidade caiu sobre eles. Passarão a vida tentando vencer esse adversário invencível. Andarão de um lado para o outro no tabuleiro tencionando encontrar a porta que os leve para um universo sem morte. Sem finitude. Nessa empreitada tentarão a arte, a religião e a ciência.
A arte oferecerá uma possibilidade de perpetuação memorial. O Homem poderá ser eterno enquanto autor de uma obra relevante. Apesar disso, esse paliativo existencial não satisfará ao homem. Os Homens sonham com uma continuidade consciente e permanente, que atravesse gerações sem o risco do término por desgaste ou doença. Vão tentar, então, a religião.
Mais exigente que qualquer arte, uma crença exige a aceitação de um pacto íntimo entre o Ente particular e o Supremo. Nas religiões monoteístas a vida eterna é garantida no futuro imediatamente posterior à morte. São sistemas complexos que trabalham essencialmente com o conceito de vida eterna consciente, ego perpetualizado para usufruir todas as maravilhas do mundo futuro. Mas é preciso confiar nisso; seguir preceitos morais, éticos. Sacrificar a existência atual em nome de prazeres futuros. Temorosos por definição, os Homens procuram a ciência para se imortalizarem.
Ocorre que os tímidos avanços biológicos nos deram a dimensão da impossibilidade da manutenção permanente da vida. Frustrada, a humanidade já não sonha com o avanço médico definitivo. Sabe agora que as pesquisas na área genética procuram melhorar a qualidade de vida; sem contudo ampliá-la. A experiência finalmente fracassa. A Humanidade aceita sua condição de mortal. Aparentemente é um processo encerrado. Mas basta aproximar um pouco mais a lupa eficiente do conhecimento para percebermos que esse processo é interminável. A luta do Homem para fugir de sua condição inalienável é permanente, e gera campos inesgotáveis.
Para Darwin, a única maneira de vencer a morte é através da paternidade. Perpetuar-se é transmitir metade de nossa carga genética a um novo ser. Decidir pela paternidade é em princípio uma inclinação de todos os homens. Mas através da cultura esse impulso foi reduzido, relativizado e, em alguns casos, desativado. Atualmente há o entendimento social de que gerar um filho é uma expressão que, para os Homens, tem conotações diversas. Não bastaria apenas fazer surgir biologicamente a vida; seria preciso também cumprir as diferenças funções, os inúmeros imperativos sociais que identificam uma criatura como sendo da espécie humana. Essa questão de onde termina o indivíduo da espécie e onde começa o indivíduo da cultura é a chave para a resposta: existe uma maneira de derrotar a morte?
Na segunda história, um professor de ciência natural tem um caso com uma de suas alunas. Simples assim. Parodiando o evangelho cristão, Godard reescreve a história da concepção de Jesus Cristo. O que, evidentemente, causou a ele imensos problemas. Mas, afinal o que pretendia o cineasta com uma história dessas? Provocar polêmica? Destruir a crença dos católicos? Ridicularizar o principal dogma do catolicismo? Evidente que não. Para um cineasta experiente, destruir, reduzir, subestimar e são verbos inconseqüentes, sem nenhum significado real. O que Godard procurava era outra coisa. Ele utilizou a narrativa bíblica para entender o que é a humanidade hoje. E, a partir dessa resposta, compreender o que significa ser mortal. A questão da imortalidade surge no momento em que o autor se vê pressionado por sua mulher à dar-lhe um filho. Para Michel Marie o próprio filme é a resposta de Godard a essa insistência. Para ele, o sonho íntimo de Godard era uma mulher que não necessitasse de um homem para realizar sua vocação maternal. Interpretações psicanalíticas sobre a vida dos cineastas à parte, Virgem Maria disse o "sim". Mas foi o próprio Espírito Santo quem a concebeu. José não fez a opção de dar-lhe um filho. Sua opção era somente abandoná-la ou apoiá-la, numa coadjuvância que exigiu dele desprendimento, coragem e generosidade. Em Je vous salue, Marie, fica claro que a história não se repetirá jamais. Primeiro porque não existem mais Marias. As mulheres, historicamente passivas, hoje rejeitam com veemência qualquer pedido de renúncia. Não aceitam serem a vontade de outro, mesmo que esse outro seja a imagem de Deus. Não há mais licença para o sacrifício.
A segunda razão está na conduta de José. O bíblico acredita no sonho. O de Godard é convencido por um anjo Gabriel menos onírico, mais real e truculento. Essa mudança ocorre porque os indivíduos do sexo masculino já não são capazes de apostar no abstrato. Necessitam a todo momento da urgência do concreto para se instalarem no presente. E esse presente é sempre confrontado com a inserção de cartões onde se visualiza a mensagem: "Naquele tempo". A inscrição é comum nos evangelhos católicos. Indica o tempo de Cristo, o tempo da presença física de Deus. Mas esse tempo não é evidentemente o tempo de Godard, que não encontra Deus em seu filme. O personagem do filho de Marie é irritantemente egocêntrico, incapaz de brilhar como o verdadeiro Jesus.
Godard se concentra no milagre da paternidade. Deus se faz homem. Ele não é homem, já que ultrapassa a questão da morte. Vence a morte. Reduz sua significância. E assim reassume sua condição de Messias, de predestinado, de salvador.
Já a Virgem Maria é elevada aos céus, evitando que sua trajetória termine como o de uma mulher comum. Foi concebida sem pecado original. Não é, portanto, filha de Adão. Não é humana. Sua assunção ao céu comprova esse conceito. Ao contrário de todos os indivíduos, não encontrará a morte. Eis a chave do filme de Godard. Maria é sobre-humana. Uma mulher humana não seria capaz de gerar um Deus. Somente Maria poderia, pela força moral, reivindicar um filho. E é justamente essa força moral que a impede de fazer tal solicitação. A maternidade é dada a ela como um presente, uma força divina, um desejo do próprio criador para nascer como seu fruto.
O sim de Maria é monocórdio. Amputa-lhe definitivamente a potência de sexualidade. Godard nos choca ao lembrar que somos incapazes de realizar amputação semelhante. Refutamos a renúncia. Queremos o acúmulo. Overdose de possibilidades, de respostas, de vontades. A humanidade piorou. É incapaz de entender a pureza. Jesus não encontraria um lar para se desenvolver.
A imortalidade é inalcançável para os Humanos porque já não podem realizar o eterno através da paternidade. Já não sabem ser pais. A gênese psicanalítica do cristianismo é justamente esta: propor para o Homem do mundo um Deus a quem possa chamar de pai.
Segunda-feira, Abril 23, 2007
O porteiro contra o prédio

Quarta-feira, Março 07, 2007
Hot memories

1
Sábado, Março 03, 2007
Fora do Script

Enquanto a palavra cria o mundo, Paul Auster vai conduzindo magistralmente sua fábula metalingüística. Eis um romance escrito com a convicção estética de quem carrega a austeridade ao lado do próprio nome.
Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007
O especialista

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
OSCAR 2007
Babel
Cartas de Iwo Jima
Os Infiltrados (o que vai ganhar)
Pequena Miss Sunshine (o que deveria)
A Rainha
DIRETOR
Alejandro González Iñárritu, Babel
Clint Eastwood, Cartas de Iwo Jima
Martin Scorsese, Os Infiltrados (quem vai ganhar)
Paul Greengrass, Vôo United 93
Stephen Frears, A Rainha (quem deveria)
ROTEIRO ORIGINAL
Babel (o que vai ganhar)
Cartas de Iwo Jima (o que deveria)
O Labirinto do Fauno
Pequena Miss Sunshine
A Rainha
ROTEIRO ADAPTADO
Borat: o Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Casaquistão Viaja à América (o que deveria)
Filhos da Esperança
Os Infiltrados
Notas de um Escândalo
Pecados Íntimos (o que vai ganhar)
ATOR
Forest Whitaker, O Último Rei da Escócia (quem vai ganhar e quem deveria)
Leonardo DiCaprio, Os Infiltrados
Peter O’Toole, Venus
Ryan Gosling, Half Nelson
Will Smith, À Procura da Felicidade
ATRIZ
Helen Mirren, A Rainha (quem vai ganhar e quem deveria)
Judi Dench, Notas de um Escândalo
Kate Winslet, Pecados Íntimos
Meryl Streep, O Diabo Veste Prada
Penelope Cruz, Volver
ATOR COADJUVANTE
Alan Arkin, Pequena Miss Sunshine (quem deveria )
Djimon Hounsou, Diamante de Sangue
Eddie Murphy, Dreamgirls — Em Busca do Sonho (quem vai ganhar)
Jackie Earle Haley, Pecados Íntimos
Mark Wahlberg, Os Infiltrados
ATRIZ COADJUVANTE
Abigail Breslin, Pequena Miss Sunshine (quem deveria)
Adriana Barraza, Babel
Cate Blanchett, Notas de um Escândalo (quem vai ganhar)
Jennifer Hudson, Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Rinko Kikuchi, Babel
DIREÇÃO DE ARTE
O Bom Pastor
Dreamgirls — Em Busca do Sonho
O Grande Truque (o que deveria ganhar)
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar)
Piratas do Caribe — O Baú da Morte
FOTOGRAFIA
Dália Negra
Filhos da Esperança
O Grande Truque
O Ilusionista
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar e o que deveria)
FIGURINOS
Curse of the Golden Flower
O Diabo Veste Prada (o que vai ganhar e o que deveria)
Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Maria Antonieta
A Rainha
DOCUMENTÁRIO - LONGA-METRAGEM
Deliver us from Evil (o que deveria)
Iraq in Fragments
Jesus Camp
My Country, My Country
Uma Verdade Inconveniente (o que vai ganhar)
DOCUMENTÁRIO - CURTA-METRAGEM
The Blood of Yingzhou District
Recycled Life (o que deveria)
Rehearsing a Dream
Two Hands (o que vai ganhar)
EDIÇÃO
Babel (o que vai ganhar e o que deveria)
Diamante de Sangue
Filhos da Esperança
Os Infiltrados
Vôo United 93
MAQUIAGEM
Apocalypto
Click
O Labirinto do Fauno (o que vai ganhar e o que deveria)
TRILHA SONORA
Babel
O Segredo de Berlim
O Labirinto do Fauno
Notas de um Escândalo
A Rainha (o que vai ganhar e o que deveria)
CANÇÃO
I Need to Wake up (Melissa Etheridge), de Uma Verdade Inconveniente (o que deveria)
Listen (Henry Krieger/Scott Cutler/Anne Preven), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Love You Do (Henry Krieger/Siedah Garrett), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho
Our Town (Randy Newman), de Carros
Patience (Henry Krieger/Willie Reale), de Dreamgirls — Em Busca do Sonho (o que vai ganhar)
CURTA-METRAGEM
Binta and the Great Idea
Éramos Pocos (o que vai ganhar)
Helmer & Son
The Saviour ( o que deveria)
West Bank Story
EDIÇÃO DE SOM
Apocalypto
Cartas de Iwo Jima
A Conquista da Honra (o que vai ganhar e o que deveria)
Diamante de Sangue
Piratas do Caribe — O Baú da Morte
EFEITOS SONOROS
Apocalypto
A Conquista da Honra
Diamante de Sangue
Dreamgirls — Em Busca do Sonho (o que vai ganhar e o que deveria)
Piratas do Caribe — O Baú da Morte
EFEITOS VISUAIS
Piratas do Caribe — O Baú da Morte
Poseidon
Superman — O Retorno (o que vai ganhar e o que deveria)
FILME ESTRANGEIRO
After the Wedding (Dinamarca)
Dias de Glória (Argélia)
O Labirinto do Fauno (México) (o que vai ganhar e o que deveria)
The Lives of Others (Alemanha)
Water (Canadá)
LONGA DE ANIMAÇÃO
Carros (o que vai ganhar e o que deveria)
A Casa Monstro
Happy Feet
Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007
O Medo do Escritor

Sábado, Fevereiro 10, 2007
A redenção pela imitação

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007
3 º Festival de Verão
Terça-feira, Fevereiro 06, 2007
o ano em que meus pais saíram de férias

Paulo Francis

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006
Ah, o verão
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
A Festa dos canalhas
Domingo, Dezembro 17, 2006
O Futebol
Domingo, Novembro 19, 2006
Crime Capital
Domingo, Outubro 29, 2006
Bandeira Branca
Minhas previsões vão se confirmar: Lula será reeleito. Analistas norte-americanos acham que há três explicações para essa morte anunciada:a) o eleitorado não tomou conhecimento das denúncias de corrupção b) o PSDB parece não saber explorar a crise política do governo c) programas como o bolsa família seduzem o eleitorado de baixa renda. Os analistas não entendem o Brasil. Eu, sim. Ora, até o Jamanta sabe do caso Telemar. Quanto ao PSDB, está claro que quer esperar o horário eleitoral gratuito para atirar as pedras no telhado de vidro do PT. Por fim, resta a hipótese da sedução do bolsa família. Lamento, mas nem o povo se vende por algumas notas de dez reais. Lula será reeleito por um motivo mais simples, mais real: é amado. Sim, o povo está seduzido por ele. Exatamente como ficou seduzido por Sonia Braga. Fará tudo o que Lula mandar. É um amor esquizofrênico, como o de Julia por André, em Belíssima. Um analista frio diria que o povo está apalermado. Eu sou genoroso. Reconheço o poder da burrice voluntária. Eu mesmo já estive apaixonado, não por Lula - que é brega - mas por uma italiana que não conseguia pronunciar as oclusivas bilabiais. O amor é assim mesmo.
Lula ganhou. Posso levantar uma cartolina com dizeres em caneta hidrocor vermelha: EU JÁ SABIA. Durante sete meses tentei evitar sua vitória. Infelizmente, não tive competência para vencer o operário. Estou envergonhado. Refaço minha estratégia, revejo os números. Eu levava vantagem: tinha um dedo a mais. Contudo, perdi. Lula tem razão: nem todo mundo pode ser o Ronaldinho.
Segunda-feira, Outubro 23, 2006
o dedo mínimo de lula
Sexta-feira, Outubro 20, 2006
Nada novo sob o sol
Terça-feira, Outubro 17, 2006
Entrevista - Marcelo Mirisola
Marcelo Mirisola - Não li o último livro do Hatoum. Provavelmente o "Joana ..." é melhor. Você deve ter lido. O que acha?
2- Maurício Azevedo - O Hatoum é chato. Mas, mudando de saco pra mala: Alckmin ou Lula?
Marcelo Mirisola - Geraldo. Porque ele tem um nariz precioso que pode servir a ótimas charges.
3- Maurício Azevedo - Quais são os cinco livros que todo mundo devia ler?
Marcelo Mirisola - "Extinção" do Thomas Bernhardt, "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, Trópico de Câncer" do Henry Miller, "Meninos da rua Paulo", do Férenc Molnar; o meu "Joana a Contragosto" e "O diabo nas Colinas", do Pavese.
4- Maurício Azevedo - Quem tu achas que deveria parar de escrever?
Marcelo Mirisola - Eu.
5- Maurício Azevedo - Fala um pouco de quando e como tu começou na literatura.
Marcelo Mirisola - Não tenho saco para essa resposta.
6- Maurício Azevedo - Qual o primeiro mandamento do escritor?
Marcelo Mirisola - Desista.
7- Maurício Azevedo - Do que fala o teu próximo livro?
Marcelo Mirisola - Minha volta, e reconciliação com SP, depois de dezesseis anos me esquivando da cidade.
8- Maurício Azevedo - E Deus, Marcelo, existe?
Marcelo Mirisola - Claro que sim. Está no céu ao lado de Jesus Cristo e da Virgem Maria.
9- Maurício Azevedo - Tem alguém novo e bom na literatura atual?
Marcelo Mirisola - Deve ter. Sempre tem.
10- Quem tu serias se não te deixassem mais ser o Marcelo Mirisola?
Marcelo Mirisola - Se alguém fizesse esse favor para mim, queria ser o menino da Rua Paulo, aquele que morre no final do livro.
Terça-feira, Outubro 10, 2006
A esperança virou o medo
Domingo, Outubro 08, 2006
Entrevista - Amilcar Bettega
Amilcar Bettega Barbosa - Teve um peso importante no sentido em que me ajudou a "me achar". Eu sempre gostei de literatura e sempre li bastante, mas até os 26 anos nunca tinha pensado em escrever, muito menos para publicar. Foi num momento de crise existencial muito grande que comecei a escrever. De repente eu me "flagrei" escrevendo uma história. Foi isso mesmo. Quando me dei conta eu tinha já umas trinta páginas de uma história escrita. A partir daí comecei a ver que eu podia escrever e que era aquilo que eu queria fazer. Foi aí que eu ouvi falar em oficina literária. Eu nunca tinha tido, em casa, alguém que me fizesse aproximar da literatura, nunca tinha tido um professor, "aquele professor", que mostra um caminho, que orienta, também meus amigos de infância e adolescência não curtiam literatura, eu tinha feito uma faculdade de engenharia, era outra praia. Tudo isso me fazia sentir muito sozinho. Pois numa oficina encontrei gente que estava na mesma busca que eu, vi que eu não estava tão sozinho quanto pensava. Depois veio o ganho prático. E o maior ganho da oficina talvez seja o de deixar claro que é impossível ensinar alguém a escrever um texto literário, mas que, ao contrário, é possível ensiná-lo a ler um texto literário. Escrever um artigo de jornal ou um relatório ou uma carta é diferente de escrever um texto literário. Lê-lo também exige uma outra abordagem. Saímos mais críticos de uma oficina. Lemos melhor, e saber ler é importantíssimo para quem quer escrever.
2- Maurício Azevedo - Quando teremos um romance do Amilcar?
Amilcar Bettega Barbosa - Quando o Amilcar achar que o que ele tem para dizer deve ser dito na forma de um romance. Escrevo de dentro para fora. Não é assim "vou escrever um romance agora" e aí escrevo um romance. Escrevo, e a muito custo. Se o que me sai é conto, carta ou apenas um monte de frases enfileiradas, é o que menos me interessa. Escrevo o que tem valor para mim, depois eu vejo se aquilo pode ter algum valor para os outros. Se acho que pode, fico muito contente e de certa maneira me dou por satisfeito. Mas é sempre esse sentido de dentro para fora, jamais o inverso. Se vou pensar primeiro na expectativa dos outros, a coisa vai sair chocha, sem liga.
3- Maurício Azevedo - O que o escritor vê que os outros não vêem?
Amilcar Bettega Barbosa - Ver de fato é muito difícil. Há toda uma armação para que todo mundo veja a mesma coisa, uma espécie de formatação do olhar. Um pouco como ocorre com o pensamento, em nome de uma racionalidade positiva criam-se maneiras "lógicas" de ver e de pensar. Se você não é vigilante, tudo o que chega ao seu olhar vem filtrado pelas normas da realidade. Você só vê o que está dentro dessas normas, o que na verdade é uma malha e, como toda malha, cheia de buracos. Acho que o escritor, talvez por uma malformação ótica, tem o olhar atraído para esses buracos, essas fissuras.
4- Maurício Azevedo - Günter Graas anunciou ter participado do exército alemão durante a Segunda Guerra mundial. Afinal, ética ou estética?
Amilcar Bettega Barbosa - Em arte o objetivo é sempre estético, mesmo na arte engajada, que sem o teor estético vira panfleto; não é arte. Artistas são homens, não são santos. Uns mais éticos, outros menos éticos, mas todos cheios de contradições, como qualquer ser humano. Céline era um porco moralmente, mas é preciso reconhecer que "Viagem ao fim da noite" é um monumento literário. A filosofia (e coloco a grande filosofia no domínio da arte) sem o nazista Heidegger sofreria de um vácuo. São muitos os exemplos. Uma coisa é a obra de arte, outra é o homem que a produz. Leio e aprecio muita coisa de autores que não convidaria para tomar um café na minha casa.
Evidentemente no caso particular do Günter Graas, que é um escritor engajado, que já levantou bandeiras sempre a favor de causas nobres e éticas, essa confissão tardia soa bastante estranha, tem repercussões na sua atuação como intelectual de esquerda, engajado e tudo mais. Mas não creio que desautoriza toda a sua postura anterior e, sobretudo, e com absoluta certeza, não modifica em nada o valor da sua obra literária.
5- Maurício Azevedo - O que a forma tem a ensinar para o conteúdo?
Amilcar Bettega Barbosa - A forma vazia pode até passar, com alguma dificuldade e, pelo menos para mim, sem muito interesse, mas ainda assim se sustenta. Porém, o contrário simplesmente não existe, o conteúdo sem forma não é arte. É a forma que organiza o conteúdo de maneira a lhe dar um peso estético, é a forma que o eleva a condição de literatura.
6- Maurício Azevedo - Tem alguem que tu admiras na nova literatura brasileira?
Amilcar Bettega Barbosa - Não falo de alguém, mas de algo. Há algo interessante na literatura brasileira. Ela está viva, ativa, muita gente publicando, muita coisa acontecendo. E é isso que eu salientaria, algo que não está nem tanto no conteúdo da sua produção. Mas acho interessante a dinâmica que de uns anos para cá tomou conta do cenário literário brasileiro. Em grande parte devido às facilidades de publicação, e por razões, portanto, que não são propriamente literárias, há uma enorme quantidade de autores que até bem pouco não existiam como escritores e que passaram a ter seus livros publicados. Esses livros bem ou mal circulam, vão parar nas livrarias, encontram, uns mais outros menos, algum espaço em jornais ou revistas literárias, imagina-se que são lidos, etc. O fator literário não está na base dessa "explosão" de livros, mas sem ele ela também não existiria. Acho que a grande quantidade de novos nomes e novos títulos, que aparentemente não significa muita coisa, pode ser o primeiro sinal de que se caminha para a consolidação de um efetivo sistema literário no Brasil, e é a partir daí que dá para esperar algo mais. Evidentemente falta leitor, uma rede de bibliotecas organizada e abrangente, etc., mas um dia se chega lá. Tudo isso é importante para dar maturidade a uma literatura.
7- Maurício Azevedo - Fala um pouco do Cortázar.
Amilcar Bettega Barbosa - Tudo o que eu falar sobre Cortázar já foi dito — e de forma muito mais competente do que eu posso fazer — nos livros, nos dossiês sobre o Cortazar, nas teses, etc. Prefiro ficar com a lembrança da primeira vez que li Cortázar, prefiro as sensações que acompanham essa experiência única e muito pessoal que é descobrir um grande escritor. Vivi isso lendo Cortázar, vivi isso lendo tantos outros autores. A felicidade é continuar vivendo essa experiência.
8- Maurício Azevedo - Como está o quarto, agora?
Amilcar Bettega Barbosa - Muito desarrumado, como sempre foi.
Segunda-feira, Outubro 02, 2006
Eleições 2006
Segunda-feira, Setembro 04, 2006
Entrevistas - 2° temporada
Marcelo Backes -Muito, e a ética costuma claudicar, sobretudo diante da possibilidade de vender alguns milhares de livros a mais. Até papas a estética é capaz de inventar, ao que parece, nas memórias de Grass!
2- Maurício Azevedo - Fala um pouco sobre a tua formação acadêmica.
Marcelo Backes - Eu me formei em jornalismo pela UFRGS; por teimosia, conforme sempre disse, e por saber que poderia me especializar em outra área depois de concluído o curso. O curso de jornalismo foi um acidente de percurso que eu credito à estatística… Por quê? Eu queria ser escritor e antes de escolher o curso que faria fiz uma lista em que relacionava as profissões dos escritores brasileiros. Deu jornalista, com folga… Ademais, havia todo um Mino Carta, mais um Fausto Wolff, para ficar em apenas dois, encorajando a decisão… Depois fiz mestrado em literatura brasileira, também na UFRGS, e doutorado em romanística e germanística na Universidade de São Heidegger, desculpa, na Universidade de Freiburg, na Alemanha.
3- Maurício Azevedo - Antônio Cândido é considerado por muitos como o maior crítico literário brasileiro. Ele é de fato o maior ou só pode ser considerado?
Marcelo Backes - Ele é, e ponto.
4- Maurício Azevedo - O que o crítico vê que os outros não vêem?
Marcelo Backes - O crítico não vê, por ser crítico, absolutamente nada que qualquer outro não possa ver. O crítico vê porque tem sensibilidade, por dentro, e erudição, por fora.
5- Maurício Azevedo - Qual é o maior pecado que um tradutor pode cometer?
Marcelo Backes - Perder o tom de um livro. Lê o Felix Krull de Thomas Mann em alemão, depois em português, e saberás do que estou falando.
6- Maurício Azevedo - Tem alguém que tu admiras na nova literatura brasileira?
Marcelo Backes - Tem, muitos. Para ficar mais uma vez em apenas dois exemplos para cada alcance diferente: Marçal Aquino, Luiz Ruffato e Miguel Sanches Neto – eu não havia dito dois? –, no Brasil, José Carlos Queiroga e Flávio Ferrarini, no Rio Grande do Sul, que aliás deveriam ser tão brasileiros no alcance quanto Aquino, Ruffato e Sanches.
7- Maurício Azevedo - Nas tuas brigas contra o mundo: quem apanhou mais?
Marcelo Backes - Eu, eu sempre apanho. É como eu disse certa vez: morro nas pauladas que eu dou, e nas que não dou também. Eu sofro quando bato, sofro mesmo, fundo…
8- Maurício Azevedo - Quem tu querias ter sido, se de repente não conseguisses mais ser tu mesmo?
Marcelo Backes - Eu sou um produto da minha alma atormentada, do lugar e das circunstâncias que envolvem o meu nascimento e minha infância e da formação intelectual em páginas como as de Lichtenberg, Heinrich Heine e Karl Kraus, mais uma vez para citar apenas dois... Dois? Para me imaginar diferente na superestrutura eu teria de imaginar toda essa infra-estrutura diferente, e isso é impossível...
Sexta-feira, Setembro 01, 2006
A última refeição do Diabo
Quando Max Brod decidiu ir adiante com a intenção de publicar Kafka, iniciava uma longa discussão sobre propriedade intelectual e direito de reprodução. Sob o ponto de vista moral, Max traiu o amigo, desrespeitando sua expressa vontade de que fossem destruídos os originais entregues a ele. Entretanto, ninguém discorda que a subtração da obra Kafkiana tiraria da literatura universal não apenas o autor e seu legado, mas todo o imaginário do homem espantado com o absurdo da existência sem resposta. Em A SOLIDAO DO DIABO (Bertrand Brasil, 352 páginas) esse tema reaparece com força. Ocorre que parte dos contos que integram o livro já haviam sido publicados anteriormente, sob o previdente título de Frio. Em seu livro de hoje, Bentancur suprimiu parágrafos, e – o mais surpreendente – alterou o final de alguns de suas mais pungentes histórias. Da edição de 2001, pouca coisa restou. Não é tanto os enredos, mas a voz discursiva de Frio que mudou. Antes era um livro monolítico, agora integra um universo contraditorial.
Em tudo a obra amadureceu. Não somente na edição robusta de uma grande editora, mas principalmente em sua vocação para falar de uma geração e não mais de uma província. Sai a insistência nas marcas distintivas do final do século XX, entra a consciência de que o papel do escritor é oferecer a nitidez mais crua, ainda que para isso tenha que eliminar de si todas as possibilidades de fuga.
Em seus melhores momentos como escritor, Paulo está intimamente ligado a uma estética do confessionalismo puro, cheio de coragem e técnica. Nos momentos mais fracos, deixa o editor dominar o autor, dialogando muito mais com seu tempo do que com sua forma. Essa aposta conduz a uma conclusão segura: o livro é de quem o faz.
O resultado final é uma obra que trai as ilusões de um leitor à procura de seu duplo, devolvendo-o à solidão de si mesmo. Nenhum demônio pode revogar sua própria origem. Paulo sabe disso. E não hesita em mostrar a extensão de sua consciência. A Solidão do diabo é um livro extraordinário. Não apenas por sua capacidade de renovar discussões editoriais, como pela sua maneira perturbadora de reafirmar a cada instante que o escritor é o único dono dos personagens que inventa. No seu conto mais expressivo, Bentancur mostra um artista gráfico que renuncia à beleza feminina em nome do desespero em satisfazer uma anã e suas vontades. Sêneca e Almodóvar são misturados num inventário das patologias sexuais humanas. Para cada velha cor, Bentancur vai construindo uma nova paleta. Separados entre si, seus protagonistas são forçados a repartir a única coisa comum a todos eles: a marca da exclusão. Longe do que é bom, todo herói se corrompe.
É por aí que os demônios de Bentancur arranham o leitor, tomando para si – ainda que seja somente nas unhas de seu cadáver – fragmentos inegáveis de que tocou, violou e rompeu nossa confiança no Real. O Mal escoa finalmente na literatura sua capacidade de seduzir.
Depois disso, só resta o sono. A solidão. A calma perturbadora de um cadáver e seus algodões.
Terça-feira, Agosto 22, 2006
Finalmente, a literatura
Acabou a espera. Depois do time do Internacional, agora é a vez da Record melhorar o meu ano. Eu deveria fazer uma resenha do livro. Mas não posso. Me falta rigor crítico para encarar Houellebecq. Quando encontro com sua literatura, fico pateticamente domesticado, domado, lulamente débil. Faço pose de Regina Duarte, inclino o pescoço como o cocker spaniel da minha vizinha. Desço. Viro uma paquita. É que os iguais se reconhecem.
Quarta-feira, Agosto 09, 2006
prêmio jabuti 2006
Domingo, Agosto 06, 2006
entrevista III
Manoela Sawitzki - Em primeiro lugar, não tenho a pretensão de afirmar o que um escritor pode ou não dizer. Depois, sendo para mim a verdade essencialmente subjetiva, também é múltipla e mutável. Não acredito naquele momento em que o homem chega no pico da montanha e encontra uma verdade estática e livre de dúvidas. Crer nisso é apenas desistir de continuar buscando. E se for mesmo indizível, como Bernhard pensava, isso não me impede de tentar dizê-la, expressar sua busca - o que não significa dar um ponto final à questão, nem ganhar uma medalha por "matar a charada". Cada personagem persegue ou foge da sua verdade (e das dos outros) à sua própria maneira - eu vou de carona, e tomo notas durante o percurso.
2- Maurício Azevedo - A crise política atual altera o significado da tua literatura? Afinal: ética ou estética?
Manoela Sawitzki - Gosto de uma frase da Clarice Lispector que diz algo como: "o que me interessa não são os fatos em si mas a repercussão dos fatos no indivíduo". Qual é realmente a atualidade dessas últimas crises políticas, a não ser o fato de estarem acontecendo agora? De um modo geral, vejo essas crises pelas quais as sociedades passam, em todos os âmbitos e em todas as épocas, como meras repetições - as variáveis são mínimas, as motivações, sempre as mesmas. Seja numa reunião de família ou de condomínio, num escritório de contabilidade ou no Palácio do Planalto e na Câmara Federal, você encontrará os mesmos mecanismos conduzindo as relações entre as pessoas. Quanto maior a possibilidade e abrangência do poder, maiores os riscos e os danos. Dê poder a um tolo, mesmo o poder de controlar a entrada num edifício, ou supervisionar um grupo de vendedores, por exemplo, e observe. Pense agora na quantidade de tolos que circula livremente pelo mundo. Não é assustador? Eu acho, muito. Mas não me interessa falar diretamente sobre a ordem política e sim sobre a humanidade, a natureza de quem faz a política, entre outras coisas. Não se trata de forma alguma de um exercício meramente estético, volto a dizer: o que quero explorar é a essência.
3-Maurício Azevedo - Manoela, existe uma literatura feminina ou toda literatura é universalizante e universalizada?
ManoelaSawitzki - Para mim, é fundamental levar-se em conta a questão dos arquétipos. Masculino e feminino, sol e lua, yin e yang, enfim, pólos diversos entre si que se encontram, interpenetram e, juntos, podem compor uma unidade harmônica. Os povos primitivos, que sempre estiveram muito próximos e atentos aos movimentos da natureza, percebiam seu caráter dual com mais clareza, e esse foi o ponto de partida para a construção de um universo simbólico extremamente rico. O que estou queren